Construir pontes em tempos de polarização
09 fev 26

Construir pontes em tempos de polarização

O papel institucional das lideranças comunitárias é preservar a autonomia, representar a diversidade e manter diálogo com todos os campos políticos.

Milton Seligman e Eduardo Wurzmann (*)

Os judeus e judias vivem bem no Brasil: com liberdade religiosa, segurança e espaço para expressar sua identidade cultural e suas diferenças internas.

Os primeiros judeus chegaram ao país ainda no período colonial — alguns acompanhando os navegadores portugueses, outros fugindo da Inquisição. Foi, porém, há pouco mais de um século que essa presença se integrou de forma profunda e contínua à sociedade brasileira. Desde então, contribui para o desenvolvimento econômico, a vida acadêmica, a cultura, as causas sociais e o debate público. Essa trajetória é motivo de orgulho — e constitui um patrimônio institucional que precisa ser preservado.

Os judeus e judias do Brasil formam uma coletividade plural.

Plural em suas origens.

Plural nas formas de vivenciar a tradição.

Plural, sobretudo, em suas visões políticas e ideológicas.

Representar essa diversidade é um dos principais desafios das lideranças comunitárias — entendidas aqui como um campo institucional coletivo de representação, e não como a atuação de indivíduos específicos.

O papel dessas lideranças não é uniformizar posições nem falar em nome de uma suposta unanimidade. É preservar um espaço institucional no qual diferentes sensibilidades possam conviver com respeito. Em outras palavras, garantir unidade sem negar a diversidade.

Esse desafio se torna mais complexo em um ambiente político marcado pela polarização.

Hoje, diferentes níveis de governo expressam orientações distintas. Em São Paulo, onde se concentra a maior parte dessa população, predomina uma agenda de direita. No plano federal, governa a esquerda. Esse cenário exige das lideranças equilíbrio, maturidade e, sobretudo, uma postura claramente institucional.

Isso significa não se alinhar a governos, mas dialogar com o Estado — qualquer que seja o governo em exercício.

Esse diálogo, porém, não é simples.

Em setores da direita, observa-se forte apoio a Israel, por vezes associado a leituras religiosas cristãs e a expectativas teológicas que não pertencem à tradição judaica. A aproximação pode ser positiva, desde que preservados a autonomia institucional e o respeito às diferenças.

No campo progressista, o desafio é outro. Parte da esquerda adota interpretações do conflito no Oriente Médio influenciadas por narrativas decoloniais que simplificam ou distorcem a realidade. Ainda assim, o diálogo é necessário — e estratégico.

A coletividade judaica não pode se limitar a dialogar apenas com quem concorda com suas posições, nem pode ser percebida como vinculada a um único campo político.

Seus interesses são institucionais e permanentes: liberdade religiosa, segurança, combate ao antissemitismo, legitimidade de Israel e preservação de um ambiente democrático e plural.

Manter interlocução com diferentes correntes políticas é, portanto, uma forma de proteção. Mas é também uma contribuição ao país: levar ao debate público uma voz equilibrada, informada e comprometida com a convivência democrática.

Em um ambiente polarizado, a pressão por alinhamentos é constante. A tentação de escolher lados é real. Mas o papel das lideranças comunitárias é outro: construir pontes.

Pontes exigem diálogo, paciência e, muitas vezes, disposição para enfrentar críticas e incompreensões.

Nas últimas semanas, o campo institucional das lideranças tem buscado exercer esse papel — ampliando interlocuções, preservando autonomia e evitando a captura por agendas partidárias. Nem sempre esse esforço é compreendido. Em tempos de polarização, moderação pode ser confundida com ambiguidade, e diálogo, com concessão.

Ainda assim, essa é a postura que melhor protege os judeus e judias do Brasil no longo prazo.

A experiência histórica judaica ensina o valor das instituições, da prudência e da capacidade de dialogar com diferentes atores. No Brasil, onde a convivência sempre se deu em um ambiente de abertura e respeito, essa tradição encontra terreno fértil — ainda que hoje mais tensionado.

Em tempos de polarização, quem constrói pontes não apenas evita conflitos desnecessários. Protege essa coletividade. E contribui para fortalecer o próprio ambiente democrático que torna possível sua plena integração.

(*) Os autores são diretores voluntários do Instituto Brasil Israel (IBI)

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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