Harry Potter e a narrativa anti-Israel nos campi dos EUA
06 maio 24

Harry Potter e a narrativa anti-Israel nos campi dos EUA

Daniela Kresch

Daniela Kresch

TEL AVIV – Lembrei de um caso que aconteceu na minha vida pessoal enquanto assistia, assustada e impressionada, alguns vídeos sobre as manifestações anti-Israel dos estudantes nas universidades americanas, seus gritos, cartazes e violência. Vou explicar meu ponto em breve, peço paciência aos leitores. Obrigada. Aí vai:

Minha filha adora sagas distópicas adolescentes, como “Harry Potter” e “Percy Jackson”. Há um ano, quando tinha 15 anos, ela começou a ler uma dessas sagas distópicas, menos conhecida, chamada “Unwind”. Nela, os bandidos eram os adultos (quase todos), que tinham o direito de entregar às autoridades seus filhos de 13 a 17 anos caso não estivessem satisfeitos com eles. Filho revoltado? Entrega para o governo. Filho com alguma deficiência ou dificuldade nos estudos, entrega para o governo. Filho que você não gosta? Entrega.

Segundo o futuro não muito distante sugerido pelo livro, as crianças abandonadas pelos pais são levadas para campos de “coletas” de órgãos, onde 99,44% de seus corpos são usados posteriormente para transplantes. A criança não morre, mas “existe” num estado “dividido”, em que não tem consciência própria. Seus órgãos carregam parte dessa consciência. Para fugir desse destino cruel, bandos de crianças se juntam para fugir da polícia até completarem 18 anos.

Terrível.

A influência do livro na minha filha foi clara. Um dia, ela me olhou com um olhar de raiva, disse que viver comigo era um “sofrimento” e que preferia não falar mais comigo. Não entendi nada, porque tínhamos (e ainda temos) um ótimo relacionamento. Algo estava errado. Eu decidi dar uma olhada no livro que ela estava devorando e só assim entendi: a história era emocionante demais. Ela queria muito fazer parte dela, sentir o que os heróis do livro estavam sentindo – a revolta, a tristeza, a raiva dos adultos. Sobrou para mim.

O leitor já deve ter entendido o meu ponto. Fica fácil depois de assistir aquele vídeo da manifestante Johannah King-Slutzky, de 33 anos, na Universidade de Columbia, em Nova York, que, fantasiada com uma keffiah, reclamou a repórteres que a universidade estaria dificultando a entrega de água para os vândalos que haviam acabado de invadir o Hamilton Hall e outros locais históricos

Ela disse: “Vocês querem que os alunos morram de desidratação e fome ou fiquem gravemente doentes, mesmo que discordem de vocês? Se a resposta for não, então vocês devem permitir o básico (…) É ajuda humanitária básica que estamos pedindo”. Ela também disse acreditar que a universidade era obrigada a fornecer comida a todos os estudantes ocupantes que tivessem pago por um plano de alimentação como parte de suas mensalidades escolares.

A moça realmente acreditava que deveria receber “ajuda humanitária” de Columbia, como se estivesse na Faixa de Gaza passando fome. Como ela, seus colegas querem sentir “na pele” o que consideram ser uma injustiça. Como se estivessem lá, a milhares de quilômetros de distância. Invadindo o Hamilton Hall como o Hamas invadiu Israel. Gritando “do rio ao mar”, como querem o Hamas e seus muito apoiadores. Clamando por “ajuda humanitária” – no meio de Nova York – como os refugiados palestinos em Rafah.

O “cosplay” dos estudantes é como a minha filha lendo a saga “Unwind”.  A cada página do livro, ela entrava no clima da injustiça cometida pelos adultos da distopia juvenil. E, com seus 15 aninhos, tinha a necessidade de se colocar na pele dos jovens injustiçados. Sofrer com eles. Odiar adultos como eles. 

Preocupada com o relacionamento com a minha filha, sugeri a ela que lêssemos juntas os livros da saga “Unwind”. Ela adorou a ideia. De repente, de “inimiga” passei a ser uma “aliada”, enfrentando com ela todos os obstáculos emocionais da história. Desde então, se tornou tradição lermos livros juntas todas as noites. Em geral, algum que ela gosta. Felizmente, não são todos ruins. E meu objetivo é, na verdade, entrar no mundo dela, entendê-la, e mitigar um pouco o maniqueísmo dessas obras que, em geral, jogam a culpa dos futuros distópicos nos adultos, que representam o “sistema”. É assim em filmes (baseados em livros) como “Jogos Vorazes” ou “Maze Runner”. 

Atualmente, estamos no 5° livro da série “Harry Potter” (eu só tinha lido o primeiro, 25 anos atrás). E justamente Harry Potter tem exemplificado o principal motivo pelo qual esses estudantes de Columbia, Yale, Harvard (e de outras universidades nos EUA e no mundo) têm sentido tanta necessidade em “sofrer” como seus “mocinhos injustiçados” (os palestinos) nas mãos dos “vilões sem alma” (os israelenses). Querem se sentir parte de uma causa, carregar uma bandeira, isso é óbvio. Mas como defender o Hamas e o fim de Israel se tornou a bandeira desta geração?

Nos anos 60 e 70, os estudantes americanos marchavam contra a Guerra do Vietnã e os direitos de minorias, principalmente de afro-americanos. Marchavam pelo feminismo. Marchavam contra Nixon e Watergate. No Brasil, contra a ditadura e pelas Diretas Já. A geração seguinte levantou a bandeira do meio-ambiente, dos direitos da comunidade LGBTQI+ e do movimento MeToo. Como pode ser que, em 2024, as marchas nos EUA sejam anti-Israel? Não contra a Rússia, a China, a Coreia do Norte. Só Israel.

Entendo que nem todos se consideram antissemitas ou não entendem muito bem o que quer dizer “From the river to the sea”. Entendo também que a maioria não sabe o que quer dizer a palavra “sionismo”, distorcida após anos de endoutrinamento e construção de uma narrativa. Da autodeterminação nacional dos judeus – perseguidos por milênios na Europa e também no mundo árabe-muçulmano –, “sionismo” virou sinônimo de “colonialismo branco”, de “imperialismo britânico”, de “capitalismo selvagem”. 

Entre tantos movimentos de autodeterminação nacionais dos séculos 18, 19 e 20 – como o italiano, o alemão e etc –, o sionismo e suas ondas migratórias de refugiados foram deturpados para significar “invasão”. Não é a ânsia dos judeus por um país seguro, e sim “colonialismo”.

Mas eu falava de Harry Potter. Sim, ler Harry Potter é uma aula de como “brainwashing” acontece e narrativas fake se desenvolvem. Na saga da J.K. Rowling, tem um lado bom e um lado mau. Sem muitas nuances, como em todos esses livros infanto-juvenis. O lado do Harry Potter e do professor Albus Dumbledore é o mocinho. O lado do Lord Voldemort (ou melhor, “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”) é mau pacas. Ruim mesmo, cruel, só quer o poder, manipular todo mundo, matar os bonzinhos. 

No livro, o principal jornal do mundo dos bruxos é o “Daily Prophet”. Devido à capacidade do jornal de influenciar as mentes das pessoas nas comunidades bruxas britânicas e irlandesas, o jornal ficou conhecido por imprimir conteúdo tendencioso a pedido do Ministério da Magia, em um esforço para divulgar as versões preferidas do ministério dos eventos em andamento e agendas políticas. Jornal é para publicar a “verdade”, os “fatos”? Não. Só a narrativa de quem o controla.

Por exemplo: no fim do livro 4, Harry vê o Lord Voldemort e luta contra ele. Mas o “Daily Prophet” não publica isso. Por meses, publica que Harry é maluco e perigoso e que Voldemort – que havia sido dado como morto anos antes – não havia voltado. Na escola de Harry, a Hogwarts, a maioria de seus colegas duvida de Harry e acredita no que o “Daily Prophet” inventou. 

Talvez possamos comparar o “Daily Prophet” à Al Jazeera – ou outros meios de comunicação para os quais o mais importante é construir uma narrativa a partir de uma agenda específica. Não estou inventando a roda aqui, certo? Não temos mais ilusões após a era Bolsonaro no Brasil: sabemos que há jornalistas para os quais o conceito de jornalismo é bem diferente daquele que eu aprendi no meu bacharelado em Comunicação na PUC-Rio na década de 1980. Jornalismo se assemelharia mais a propaganda. Estilo Pravda na ex-URSS. 

Infelizmente, o estilo “Daily Prophet-Pravda” se espalhou pela imprensa ocidental, para meios de comunicação que eu antes admirava. No contexto do conflito entre Israel e palestinos, a narrativa é a de que Israel é um Estado beligerante, maldoso, manipulador. Ocupante (palavra que uns entendem como sendo não só da Cisjordânia, mas de toda a área “do rio ao mar”). A narrativa é a de que Israel foi criado deliberadamente para expulsar palestinos de “suas” terras para servir de peão do imperialismo americano no Oriente Médio. Não por refugiados judeus em busca de uma nação. Israel nunca se defende. Só ataca violentamente. Nunca luta por sua sobrevivência, só busca se expandir. 

A guerra em Gaza e seus números de mortos palestinos – certamente altos, mesmo que impossíveis de serem verificados –, acompanhados de imagens chocantes e histórias terríveis, ajudaram a solidificar essa narrativa desvirtuada e enviesada. Há menos mortos israelenses – cujas imagens e histórias são menos divulgadas –, então é como se só palestinos sofressem nesta guerra que começou com o pior e mais traumático atentado terrorista da história de Israel e a maior matança de judeus em um dia só desde o Holocausto. 

Assim, fica fácil entender por que estudantes americanos que querem “sentir na pele” as injustiças do mundo levantem a bandeira palestina junto com a do Hamas. E gritem palavras de ordem contra a própria existência de Israel e contra todos os judeus do mundo. “É a narrativa, estúpido”. Trata-se do cosplay de uma geração ignorante – mesmo que bem intencionada, em sua maioria – em busca de uma causa para chamar de sua.

Este texto não reflete necessariamente a visão do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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