A ampulheta de Trump conseguirá neutralizar a ameaça iraniana?
Revital PolegNo Oriente Médio de março de 2026, cinco dias ou 120 horas de tensão máxima equivalem a uma eternidade. Este é exatamente o intervalo de tempo que Donald Trump concedeu à liderança em Teerã para tentar transformar uma guerra regional, com potencial de expansão global, em um acordo estratégico, possivelmente um dos mais significativos de nossa geração. O post dramático publicado pelo presidente americano na rede Truth Social na manhã de 23 de março, funcionando como uma verdadeira bomba psicológica, e as entrevistas detalhadas que se seguiram, marcam uma inflexão abrupta: a transição das ameaças de “destruição total” para uma diplomacia agressiva acompanhada de uma nova narrativa. Trump já apresenta o outro lado como “grato” (Grateful) pela oportunidade recebida de recuar antes que a situação colapse completamente.
Trump, como de costume, não conduz uma guerra ideológica. Ele conduz um “negócio”. Em sua versão mais empresarial do conceito de “Paz através da Força” (Peace through Strength), a guerra é um evento que precisa ser administrado e encerrado o mais rapidamente possível, especialmente quando a ampulheta política e econômica o pressiona. A reação imediata de Wall Street, que subiu 2% com a notícia dos contatos, prova que, para a Casa Branca, o verdadeiro barômetro da vitória é a estabilidade energética e a queda nos preços do petróleo – combustível essencial para impulsionar a revolução da Inteligência Artificial sob liderança dos Estados Unidos e para consolidar a posição de Trump frente ao seu principal rival estratégico, o presidente chinês Xi Jinping.
A imagem que se desenha revela um canal secreto e pragmático, envolvendo atores que conhecemos bem. Com Jared Kushner e Steve Witkoff liderando os contatos, como fizeram na negociação para a libertação dos reféns e no acordo de 20 pontos para o fim da guerra em Gaza e sua reconstrução, o objetivo não é a democratização de Teerã ou a substituição do regime dos aiatolás, mas um fechamento de pontas no plano militar e econômico. Os relatos sobre uma possível cúpula em Islamabad, no Paquistão, com mediação da Turquia e do Egito e algum nível de participação russa, são o verdadeiro ponto de inflexão. O Paquistão, que serviu como o último apoio do Irã nos últimos dias, pode se tornar o anfitrião surpresa do que parece ser uma cerimônia de rendição suavizada, caso o ultimato americano de fato se concretize em uma assinatura.
O rascunho do acordo, conforme descrito por Trump, inclui 15 pontos e soa quase como ficção: renúncia total do Irã ao programa nuclear, entrega do urânio enriquecido aos Estados Unidos e a eliminação do arsenal de mísseis balísticos – a ameaça existencial cuja remoção é a mais crítica para Israel. Trump vende isso ao mundo como uma rendição total: “Eles pediram por isso porque estão destruídos”, afirma, reforçando sua imagem de “salvador” que retirou do Irã seus instrumentos mais perigosos momentos antes do desastre.
Por trás da diplomacia acelerada, havia um dilema agudo. Trump percebeu que a execução do ultimato e o ataque às instalações de energia do Irã poderiam levar a uma catástrofe global. Além disso, ele compreendeu que qualquer tentativa militar de abrir o Estreito de Ormuz à força significaria “Boots on the Ground” – uma presença terrestre massiva e perigosa que ele não deseja implementar. Esse risco, o do fechamento do Estreito e suas consequências, que provavelmente não foi totalmente levado em conta na véspera do início da campanha, tornou-se o ponto de virada de toda a guerra.
Portanto, ele escolheu uma “terceira via”: conceder um ultimato de cinco dias que permitisse aos iranianos uma saída. Enquanto Trump oferece a “cenoura” em Islamabad, Israel continua a fornecer o “porrete”. O silêncio ensurdecedor de Jerusalém até agora não indica exclusão, mas sim, muito provavelmente, caminhos paralelos e coordenados antecipadamente. Os aviões da Força Aérea, que continuam a atacar alvos militares no Irã, são os que mantêm a pressão sobre a mesa de negociações. A lacuna entre a declaração do chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir (em 22 de março), de que estamos apenas “no meio do caminho”, e a corrida de Trump para a linha de chegada, pode ser interpretada como uma possível coordenação estratégica: Israel desgasta as capacidades, e Trump transforma situações fluidas em fatos consumados, levando todo o prêmio político e econômico.
Para Israel, o grande teste continua sendo a questão dos mísseis balísticos e do urânio enriquecido. Trump declara que Israel ficará “muito satisfeita” com o acordo, que traria uma paz duradoura. Se o desmantelamento dessas capacidades for de fato concretizado, tratar-se-á de uma conquista estratégica sem precedentes – a remoção de uma ameaça existencial sem uma guerra que poderia durar anos ou se repetir em vários ciclos. Os países do Golfo compartilham essa expectativa: para eles, sem a eliminação da ameaça balística, cujas consequências sentiram na pele nas últimas três semanas, não haverá uma nova ordem regional e, certamente, nem segurança econômica e energética.
Contudo, os riscos permanecem. O Irã, por enquanto, nega categoricamente as conversas, certamente para preservar sua honra, sobretudo a da Guarda Revolucionária, e Trump pode se ver obrigado a fazer com que as negociações tenham sucesso a qualquer custo. É interessante notar a referência de Trump às figuras iranianas nas conversas como “pessoas muito sérias”, sugerindo que uma delas poderia ser o próximo líder. Não parece tratar-se, neste momento, de sinais concretos de uma mudança interna profunda, mas possivelmente de um movimento tático, talvez parte de um jogo mais amplo. O ônus da prova permanece com o lado iraniano.
Como nos ensinou Carl von Clausewitz, a diplomacia é a continuação da guerra por outros meios. No campo de Donald Trump, os próximos cinco dias determinarão se o Oriente Médio caminha para uma mudança estrutural profunda, incluindo a neutralização do Irã e, possivelmente, o enfraquecimento do Hezbollah, como consequência direta disso, ou se estamos diante de uma manobra sofisticada destinada a esgotar a ampulheta americana.
Este é um ponto de virada para cada uma das partes. Israel deve garantir que permaneça como parceira plena na redação do capítulo final, mesmo que, na prática, isso ocorra nos bastidores da diplomacia americana, para assegurar que o acordo, ainda que se espere duradouro, não se revele apenas provisório e não a deixe com um regime de aiatolás que preserva suas capacidades centrais. “Veremos o que acontece”, diz Trump. Para Israel, a resposta deve ser a reformulação da arquitetura regional e a neutralização total das ameaças estratégicas a longo prazo.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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