Israel e o Silêncio Pós-Guerra
Natalie Rosen
Pela primeira vez em meses, um silêncio tenso paira sobre Israel e Gaza. Podemos respirar, mas o ar está pesado.
A primeira fase de um acordo dolorosamente negociado foi concluída. Vinte reféns israelenses sobreviveram ao cativeiro e estão em casa. Os que não sobreviveram estão sendo gradualmente devolvidos às suas famílias para um enterro digno. Em troca, Israel retirou parcialmente as suas forças para uma linha designada. Cerca de 2.000 prisioneiros palestinos, incluindo 250 condenados à prisão perpétua, foram libertados.
A máquina de guerra, que consumiu Gaza e devastou sua população civil, parou. É, sem dúvida, um ponto de viragem. Mas, para quê? Além do alívio imediato do cessar-fogo, a questão fundamental que assombra a região permanece: algo realmente vai mudar?
Se olharmos para a política imediata, a resposta é, pessimistamente, não. A frágil pausa nas hostilidades não parece ser o prelúdio de uma nova visão, mas sim um interlúdio forçado. As questões existenciais – quem governará Gaza, o papel da Autoridade Palestina, a força internacional, o destino dos combatentes restantes do Hamas e o cronograma para uma retirada total das FDI – foram empurradas para um ‘depois’, cujo momento é incerto.
Enquanto isso, em Israel, o status quo político que permitiu a escalada da crise permanece intacto. O governo que resistiu ao acordo de reféns por meses segue no poder, inalterado e sem intenção de prestar contas. Nenhuma investigação independente foi lançada. Nenhuma lição parece ter sido aprendida.
A controversa “reforma judicial”, denunciada por críticos como golpe legislativo, continuou sua marcha, erodindo os pilares democráticos. Na Cisjordânia, a violência dos colonos, vista por observadores como tacitamente endossada pelo Estado, continua a ser uma ferramenta eficaz de deslocamento e anexação de fato.
Mas, talvez a mudança mais profunda não ocorra nos corredores do Knesset, e sim na sociedade civil.
Durante meses, o apelo das famílias dos reféns e da maioria do público israelense para acabar com a guerra e devolver os sequestrados foi ignorado. O que começou como indiferença transformou-se em hostilidade ativa, com manifestantes, incluindo famílias de reféns, sendo assediados e rotulados como “apoiadores do Hamas”. Por isso, muitos acreditam que a pressão da administração Trump forçou a mão do governo, e não um imperativo moral interno.
A guerra empurrou o pêndulo político para a direita. Contudo, os últimos dois anos forçaram a maioria liberal e pragmática do país a confrontar o preço de suas alianças. A tolerância a duas minorias radicais – os ultraortodoxos, que evitam o serviço militar, e a direita messiânica, que prioriza a terra sobre a vida – provou ser insustentável e corrosiva. A ilusão de que o conflito poderia ser “administrado” indefinidamente, uma fantasia mantida por governos, desmoronou. A segurança sustentável não coexiste com a ocupação permanente.
Este cisma, entre a maioria liberal e pragmática e um establishment político focado na sobrevivência e ideologia, pode definir a próxima era. Com as eleições no horizonte, o público israelense enfrenta uma escolha existencial.
O futuro de Israel exige uma mudança de rumo radical: rejeitar o extremismo, abandonar a fantasia da ocupação perpétua e caminhar em direção a um futuro baseado na justiça e na humanidade compartilhada. O retorno dos reféns pode começar a curar a ferida aberta dos últimos dois anos. Mas há uma ferida mais profunda na sociedade, moldada por anos de polarização e erosão moral. A cura real exige mais do que um cessar-fogo. Exige verdade, responsabilidade e, acima de tudo, uma visão além da gestão da próxima crise.
Natalie Rosen, israelense radicada em São Paulo, doutora em Direito (Universidade Hebraica de Jerusalém), advogada especializada em Direito Público Internacional e pesquisadora; em colboração para o Instituto Brasil-Israel (IBI).
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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