Como o mundo seria melhor sem os judeus
14 abr 26

Como o mundo seria melhor sem os judeus

Daniel Gerstler

Há dois episódios recentes que merecem análise para além do que mais obviamente os relaciona: (i) a aprovação, pelo Parlamento israelense, de uma lei que autoriza a pena de morte para atos terroristas e que é aplicável, na prática, apenas contra palestinos; e (ii) a retirada de apoio de parlamentares à esquerda ao projeto de lei abraçado pela deputada federal Tábata Amaral para criminalizar o que se denominou de antissemitismo.

Vê-se que é muito fácil perceber e reconhecer a violência que embebe essa reforma legislativa do Estado de Israel. É vil, perversa. Muito há para se falar sobre isso, mas pouco é necessário para expressar a indignação contra mais um passo em direção à absoluta subjugação do povo palestino. Ponto. Tomara que a suprema corte a barre. 

Com esse exemplo específico — e sua capacidade de ilustrar a atual conjuntura do conflito israelo-palestino —, é bastante surpreendente que algo como o trecho a seguir seja taxado de censura a críticas a Israel:

“O antissemitismo frequentemente acusa os judeus de conspirarem para prejudicar a humanidade, sendo utilizado para culpá-los pelos problemas da sociedade”.

Isso é parte do PL.

Há algo que incomoda muito a nossa esquerda em não poder coletivizar as críticas direcionadas a Netanyahu contra a comunidade judaica. Há algum regozijo em culpar os judeus.

E foi isso que colocou Tábata Amaral no paredão de fuzilamento das redes e que a fez perder o apoio de diversos parlamentares de esquerda. Veja-se a sutileza desse movimento: esses integrantes do PT, Rede, PV e PDT não deixaram de apoiar; retiraram o apoio depois da repercussão. 

Esse detalhe é muito significativo, porque este não era um rascunho de lei sem expressividade que, por descuido, não foi bem analisado. É evidente que Israel hoje se tornou um tema radioativo, de modo que seria impossível estes representantes e seus assessores não terem dado a devida atenção ao texto. Olharam com lupa.

Assim, depois de lido e estudado, decidiu-se que o texto era, de forma geral, adequado – ainda que merecesse reparos. Era, de fato, contra o antissemitismo.

Mesmo assim, retirou-se o apoio.

Esse movimento é carregado de simbolismo, porque demonstra que a luta contra o antissemitismo se tornou cara demais. Não é que tenha deixado de ser importante; não é que tenha perdido relevância no cenário nacional — tornou-se um estorvo para o progresso.

E, apenas para constar, no projeto de lei a crítica a Israel é colocada, de um lado, como mera possibilidade (e não necessidade) e, de outro, como excludente do âmbito do antissemitismo:

“Manifestações de antissemitismo podem ter como alvo o Estado de Israel, encarado como uma coletividade judaica… Críticas a Israel que sejam semelhantes às dirigidas contra qualquer outro país não podem ser consideradas antissemitas”.

Mesmo nesse âmbito de possibilidade, o conceito de Estado de Israel é intrinsecamente associado à coletividade judaica para tratar do antissemitismo. Não se trata, portanto, apenas do Estado de Israel, e sim da comunidade judaica, descrita formalmente como um país. É, assim, um remédio contra uma burla de etiquetas, nada mais.

Evidente que o texto pode ser melhorado, mas como é que essa briga se tornou tão cara para os progressistas?

Na comunidade judaica, um dos principais traços que marcam nossa consciência coletiva é a capacidade do povo judeu de resistir a perseguições e de sobreviver ao extermínio. Acontece que essa luta cansa e, ao contrário do que tanto se ouve em reuniões comunitárias, uma hora vão, sim, acabar conosco.

Uma hora a gente desiste mesmo.

E o momento histórico não fornece tantas esperanças para refutar esse pessimismo. Basta tomar como exemplo o texto publicado na Carta Capital por Paulo Nogueira Batista Jr., em que ele começa falando do “lobby judaico sionista”, mas logo abandona o segundo adjetivo e, sem qualquer pudor, escreve coisas como: “Jeffrey Epstein, não por acaso, era judeu”.

Não é um mero jovem espiritualista salpicando frustrações num panfleto de centro acadêmico. Foram palavras de um ex-diretor do FMI ventiladas em uma revista de relevância.

E quem corre da esquerda para querer ser abraçado pela direita, melhor que abandone sua identidade judaica. Na hora em que não formos mais massa útil, seremos engolidos pela supremacia branca e pelo fundamentalismo cristão. Não se engane. A esquerda quer um judeu apagado, sem nação, fraco e sem voz; quer um judeu açoitado para poder defendê-lo e, com isso, capitalizar nossa dor às suas bandeiras; a direita quer um Estado de Israel anti islã, só isso. A autodeterminação judaica é conveniente agora, mas dispensável amanhã.

Entretanto, talvez nosso apagamento seja para o bem.

Talvez, com o fim dos judeus, do judaísmo como coletividade, a esquerda finalmente possa esquecer seu regozijo com a nossa dor e, enfim, abandonar suas alianças com teocracias medievais.

Sem os judeus, talvez o progresso se sinta confortável para abrir novamente seus braços às mulheres, aos homossexuais e a diversas outras minorias torturadas, abusadas e assassinadas por regimes como o dos aiatolás.

Sem nós aqui para escancarar a hipocrisia da esquerda que se diz humanista, nós, judeus, possamos finalmente ser perdoados por termos sido as maiores vítimas do fascismo.

O mundo descansará melhor e menos pesado, com menos contradições e dilemas. Sem o judeu, o mundo será mais simples. Talvez seja melhor assim mesmo. Obrigado a quem nos apoia, mas é realmente caro demais. Não vale a pena. Certos estão os humanistas.

Daniel Gerstler é conselheiro do Instituto Brasil-Israel

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

 

Artigos Relacionados

Reflexões (e pesadelos) por ocasião dos 50 anos da minha aliá
Reflexões (e pesadelos) por ocasião dos 50 anos da minha aliá

Calendar icon 24 de maio de 2023

Avraham (Tito) Milgram* Fiz aliá em março de 1973, há cinco décadas, que somam dois terços da vida do Estado de Israel, que este ano festeja 75 anos de independência. Inevitavelmente, o que me vem à cabeça, nos tumultuados dias que vivemos, pesa mais e certamente determina minhas lembranças do que vi e vivi em […]

Arrow right icon Leia mais
“A ampulheta dos sequestrados está acabando!”, alerta Moran Yanai, ex-sequestrada, ao embaixador brasileiro em Israel
“A ampulheta dos sequestrados está acabando!”, alerta Moran Yanai, ex-sequestrada, ao embaixador brasileiro em Israel

Calendar icon 4 de janeiro de 2024

Revital Poleg “Toda noite, quando vou para casa”, me conta o Embaixador Danny Shek, ex-Diplomata de Israel, que dirige o departamento internacional da sede das famílias dos sequestrados, “rezo para amanhã não precisar mais voltar aqui. Rezo para que isso tudo acabe”. Mas, por enquanto, já se passaram três meses e os sequestrados ainda estão […]

Arrow right icon Leia mais
O vigarista do Tinder: novidade no mundo, bem conhecido em Israel
O vigarista do Tinder: novidade no mundo, bem conhecido em Israel

Calendar icon 11 de fevereiro de 2022

Por Daniela Kresch

Arrow right icon Leia mais