Manifestações no Oriente Médio
02 abr 25

Manifestações no Oriente Médio

Daniela Boianovsky

Entardecer de sábado, Tel Aviv, março de 2023. Cornetas marcam os quatro tempos da palavra “de-mo-cra-tia”, soam cada vez mais alto e convocam uma multidão que se forma e se movimenta rapidamente. Bandeiras em punho, apitos e muita determinação na caminhada que arregimenta um número exponencial de pessoas. No caminho, varandas e janelas também exibem suas bandeiras. Idosos e outros simpatizantes levantam seus braços e não se furtam a apoiar o movimento. Suas bandeiras também se agitam naquele coro rumo ao epicentro de mais uma manifestação da sociedade civil do país contra a reforma do judiciário que a coalização do governo, comandada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, tendo ao seu lado os políticos de extrema-direita Itamar Ben-Gvir (antes no cargo de Ministro da Segurança Nacional e que agora volta a apoiar o governo) e Bezalel Smotrich (Ministro das Finanças), vem tentando implantar. 

Manifestantes que lutam pela sobrevivência de sua democracia, justamente através do exercício democrático de coletivamente expressarem seu protesto. A garra que se multiplica é contagiante, faço parte daquele cordão e levo também a minha bandeira, a minha fúria e a minha indignação. Testemunho e compartilho da força de quem se recusa a sucumbir. Junto-me àqueles que gritam repetidas vezes “ruká!” (Constituição!), “buxá!” (Vergonha!), “Democratia!” e, com a desenvoltura acanhada de quem não entende a língua local, escuto canções que entoam letras que aprendo a reproduzir. Uma delas, traz o refrão – gentilmente traduzido por um amigo: “Mexeram com a geração errada”, numa referência àqueles que lá atrás não puderam reagir. A geração de agora tem recursos para levar adiante a sua luta.

Políticos da esquerda à direita, assim como vozes de um amplo espectro civil ocupam o palanque e as ruas: seculares em sua maioria, mas também judeus religiosos, lideranças árabe-israelenses e palestinas, jovens estudantes do Ensino Médio, militares ex-combatentes, universitários, lideranças femininas pelos direitos da mulher, são exemplos deste movimento que, naquele sábado, completava 16 semanas em sua resistência, chegando a levar até 500 mil pessoas às ruas em um só dia de manifestação. Fazem oposição ao objetivo de se amordaçar o setor jurídico do país, o único capaz de oferecer freios e contrapesos às ilicitudes cometidas pelo Executivo ou pelo Legislativo – que no sistema parlamentarista israelense se confundem com o próprio governo. Um embate entre a população que busca o ideal dos valores igualitários propagados pela Carta da Independência lida por Ben Gurion em 1948, exibida nas manifestações, e que faz de Israel a única democracia, ainda que com falhas e limites, entre o Oriente Médio e o Japão; e uma coalizão que ameaça frontalmente os princípios estabelecidos desde então.

Não à toa escuto nesta tarde em Tel Aviv a palavra de ordem “ruká”. A heterogeneidade dos grupos que compõem o mosaico do país – ortodoxos e seculares (a grande maioria), judeus de variadas origens, desde a árabe, a etíope ou a europeia, árabes muçulmanos ou cristãos, drusos, etc. – traduz a dificuldade para se chegar ao consenso necessário para a formulação de uma Constituição, o que se tem no país como referencial jurídico é o texto da Carta de Independência e o conjunto de Leis Básicas inspiradas nos valores do Direito Internacional. Contando com o arcabouço dessas leis, a Corte israelense acaba por suprir a ausência de um referencial constituinte e transforma-se numa das mais ativas Cortes do mundo, fato que Netanyahu manipula com maestria quando se queixa de decisões ou investigações que o contrariam ou que apontam suas irregularidades. Com sua conhecida habilidade política e carisma junto a seus seguidores, sobrevive no poder e com isso dribla os inúmeros processos que poderiam leva-lo à prisão. Atualmente, parte expressiva da população o acusa por não priorizar o retorno dos reféns e esticar a guerra contra o Hamas para seguir no comando do país. (Críticas legítimas a um governo, vale observar, que não se confundem com os ataques ao direito do Estado de Israel a existir).

Dois anos depois daquela tarde em Tel Aviv, mais de 500 dias de guerra, 59 reféns ainda retidos em Gaza e um interminável 07/10, a população israelense volta às ruas com força, ainda que não a tivesse deixado totalmente nesses últimos 17 meses. Dessa vez não estou em Israel, mas posso ver de longe suas bandeiras e imaginar o que sente essa multidão que representa mais de 60% da população e que, em meio às suas feridas, e talvez também por elas, voltou a lotar os locais de manifestação. Embora exausta, segue aguerrida contra o golpe que Netanyahu retoma com carga total, tenta barrar sua estratégia de anular o poder jurídico daqueles que, por dever e direito, questionam as improbidades desse ou de qualquer outro governo e acrescenta, na pauta de sua luta, o grito de revolta, desespero e indignação pela continuidade da guerra.

O país está dividido: há os que apoiam a reforma e se identificam com as promessas, as queixas e as políticas do primeiro-ministro, e aqueles que se opõem fortemente a ele e que a entendem como um risco de um caminho indesejado para uma autocracia ou uma ditadura com contornos quiçá teocráticos. Netanyahu ameaça não respeitar os limites que a Suprema Corte provavelmente irá impor aos atos considerados abusivos segundo as leis do país – como a demissão indevida daqueles que investigam desvios em seu gabinete – e traz o perigo de uma grave crise institucional.

A sociedade israelense, em pleno luto pelo 7/10, entra em ebulição e se depara com forte risco de profunda fragmentação. A polarização acirra as diferenças, separa sistemas que não se comunicam, cria narrativas e o que se vê em Israel não é diferente do que conhecemos de outros tantos países. Passados pouco mais de 77 anos de sua independência, a vulnerabilidade institucional é sintoma de que há muito ainda a ser construído para assegurar o caráter democrático do país e o direito de suas minorias, sem perder de vista, claro, a necessidade urgente de se arrumar a casa para enfrentar outro grande desafio que é o da construção de uma via que possa levar a um acordo com os seus vizinhos palestinos.

Na fronteira ao lado, em meio à tragédia humanitária vivida no conflito com Israel, manifestantes enchem-se de coragem e também levam às ruas de Gaza a sua exaustão, gritam pelo fim da guerra, e especialmente pelo fim da dominação fanática, destrutiva e suicida do Hamas. Espremidos entre as ocupações israelenses e a prioridade máxima do Hamas pela aniquilação do Estado e do povo judeu, arriscam suas vidas ao se manifestar contra o regime teocrático e extremista que governa Gaza, vidas que na verdade já vêm sendo engolfadas e instrumentalizadas cada vez que o Hamas as oferece em nome de sua meta absoluta. Não sabemos aonde tudo isso vai dar, mas quem sabe possa ser o embrião de uma nova geração que tenha como objetivo a sua autodeterminação ao lado do Estado de Israel, e não no lugar dele. 

Que os ecos das manifestações, cujo pano de fundo têm o denominador comum da dor e do luto, possam trazer esperança aos dois povos, não obstante as inúmeras diferenças nas reivindicações e nas condições de cada um. Que a geração que enche cada vez mais as ruas de Israel e grita com determinação cada sílaba da palavra “democracia” tenha forças para seguir cantando “mexeram com a geração errada”, colocando à prova sua energia e a conhecida chutzpá (ousadia) que sempre caracterizou sua luta por sobrevivência, agora não só do país, mas de sua democracia. Que sua coragem e resiliência possa um dia ganhar as ruas com versos por coexistência, segurança e dignidade aos dois povos e pelo fim do conflito, multiplicando-se em manifestações semelhantes pelo Oriente Médio, seja por esta ou pelas futuras gerações.


Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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