“A esquerda não vai conseguir avançar se ela não deixar de ser antissemita”, explica militante comunista judeu
O antissemitismo é um problema que tem crescido no Brasil, de acordo com a Safernet, ONG que monitora sites radicais, em maio de 2020 foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazista no país e apenas em junho daquele ano a ONG recebeu 3.616 denúncias sobre manifestações neonazistas. É um mal presente em todos os espectros políticos, que se manifesta de maneiras próprias para cada um desses grupos.
No podcast “E eu com isso?” do IBI desta semana, Anita Efraim e Ana Clara Buchmann conversaram com Gabriel Carvalho, judeu, militante comunista, pesquisador de antissemitismo e graduando em ciências sociais, para entender de qual forma o antissemita é visto tanto na direita quanto na esquerda.
“Dentro da cultura europeia, existe essa visão abstrata do capitalismo, que foi muito depositada na figura dos judeus. Isso não é à toa, mas também não é justificável, porque essa ascensão do capitalismo coincidiu com um momento de integração dos judeus na sociedade europeia, com ganho de direitos políticos, de cidadania e tudo mais, os judeus prosperaram naquele momento porque eles podiam exercer profissões normais que eles não podiam exercer antes na Europa”, introduz o assunto Gabriel, que deixou a militância por sofrer antissemitismo.
Uma parte de esquerda, por exemplo, fomenta uma idealização generalista de Israel como um Estado contra os direitos humanos. Para a direita, e principalmente extrema-direita, Israel e os judeus representam bandeiras do conservadorismo deles, mesmo que a extrema-direita contraditoriamente dialogue com o neonazismo.
“E essa ligação entre judeus e capitalismo vai sendo levada adiante até hoje por vários setores da esquerda. O avanço desse pensamento antissemita de esquerda e que vai se transformando dentro do pensamento socialista, está muito ligado a essas falas de lobby sionista. Essa esquerda antissionista, também como essa extrema-direita filossemita sionista evangélica, só consegue dialogar com os “judeus mortos”. Sempre essa coisa de acionar as vítimas do Holocausto ou o “judeu imaginário”, mas com os judeus vivos existentes não tem diálogo”, fala o pesquisador de antissemitismo.
Mas para o ex-militante, ainda há um caminho para combater o antissemitismo dentro da esquerda: “Só dentro do campo da esquerda que existe uma posição radicalmente humanista que a meu ver está representada pelo comunismo marxista, mas podemos discutir isso entre os socialistas, que é o que pode ajudar a gente a superar o antissemitismo. A esquerda não vai conseguir avançar se ela não deixar de ser antissemita, porque o antissemitismo estrutural da modernidade e que está presente na esquerda impede que se faça uma crítica correta do capitalismo”, conclui Gabriel. Escute:
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