O filho de Ariel:  Soldado brasileiro morto em Gaza se torna símbolo pelo fim da guerra
02 set 25

O filho de Ariel:  Soldado brasileiro morto em Gaza se torna símbolo pelo fim da guerra

Daniela Kresch

Daniela Kresch

TEL AVIV – A morte, em 30 de agosto, do soldado reservista Ariel Lubliner, 34 anos, nascido em São Paulo, não passou despercebida em Israel. Pelo contrário. Recebeu uma atenção maior do que muitas outras mortes de combatentes no campo de batalha de Gaza ou do Líbano. Há muitos motivos para isso. O primeiro é que ele é o 900º soldado caído desde o mega atentado do Hamas de 7 de outubro de 2023. É um número redondo, assustador, terrível. Segundo, ele deixou um filhinho de 9 meses, Lior, que ainda não entendeu que crescerá sem o pai biológico.

E terceiro: Ariel emigrou do Brasil há dez anos, deixou para trás sua família por crer na importância da existência o Estado de Israel (o nome disso é sionismo, palavra que significa apenas isso, não todo o resto de balelas, mentiras e boatices espalhadas por gente ignorante e dada a teorias conspiratórias). Ter deixado o Brasil por Israel é, para muitos aqui, um enorme sacrifício. A maioria dos israelenses acha que o Brasil é um paraíso tropical. A viúva de Ariel, Bárbara, também é imigrante (da Espanha), aliás.

A morte de Ariel foi noticiada e comentada em toda a mídia israelense. Amigos brasileiros foram entrevistados. A cobertura do funeral foi enorme, bem como a participação popular. O trágico evento também foi a manchete do principal jornal de Israel, o Yedioth Aharonoth (Últimas Notícias), nesta terça-feira, 2 de setembro. O texto, que ocupa boa parte da capa do jornal, é uma ode ao brasileiro e um apelo ao fim da guerra. Foi escrito pela jornalista Chen Artzi Sror sob o título “Filho do pai” e acompanhado de uma foto emocionante: Lior, o bebê de 9 meses, engatinhando do lado do túmulo pai e sendo observado por uma fileira de soldados.

Abaixo, a tradução do texto:

“Na grama verde, uma criança engatinha cautelosamente. Ele tem apenas nove meses e a curiosidade o chama para explorar o novo espaço. Este não é o pátio da creche ou do jardim de infância onde ele deveria começar a frequentar, este é o cemitério em Kiryat Bialik.

“Lior Lubliner, um bebê com quadris roliços e macacão infantil, não sabe. Ele não sabe que ao seu redor estão soldados silenciosos, tristes e cansados que perderam mais um amigo. Ele não sabe que sua mãe hesitou em encontrar as palavras. Ele não sabe que aqui, nesta grama, seu pai, Ariel, será enterrado muito em breve.

“Ariel e Bárbara Lubliner representam a bela Israel. Ele emigrou do Brasil, ela imigrou da Espanha. Eles se conheceram no Kibutz Naan quando estavam aprendendo hebraico. Eles realizaram o sonho israelense da sua maneira mais tediosa: um apartamento com desconto no Norte, estudos, uma criança pequena e fofa – e também o preço de quatro rodadas de serviço reservista. Ariel se apresentou repetidas vezes por comprometimento com o país. Deixou para trás uma esposa esperando, depois uma esposa grávida, depois uma mãe após o parto, e depois um bebê pequeno que deveria começar na creche ontem.

“Agora, Lior é órfão, Bárbara é viúva e Ariel? Ele é um símbolo. A 900ª baixa desta maldita guerra. Quando, quando a contagem vai parar?”

A foto do pequeno Lior, aliás, me lembra imagens icônicas que chocaram o mundo. A daquele menino de 2 anos, Alan Kurdi, filho de refugiados sírios, afogado na costa da Turquia em 2015, é uma delas. A imagem de 1973 da menina vietnamita Kim Phuc Phan Thi, de 9 anos, correndo com o corpo chamuscado, é outra. Mas, na verdade, a imagem de Lior me lembrou mais o enterro do ex-presidente americano John F. Kennedy, em 1963, quando o filho mais novo, John-John, então com 3 anos, saudou o caixão de seu pai, recém-assassinado.

Assim como a repórter do Yedioth, boa parte dos jornalistas, comentaristas e colunistas da imprensa local estão engajados na luta das famílias dos 48 reféns (20 deles vivos) que ainda são mantidos nas masmorras do Hamas em Gaza pelo fim desta guerra que já dura quase dois anos. Nos 697 dias desde o começo do conflito, mais de 1.900 soldados e civis morreram do lado israelense. As fotos, as histórias e os rostos de cada um deles são lembrados diariamente. Nos sites de notícia, nos protestos e manifestações, nos adesivos que adornam as ruas, as paredes dos prédios, os carros.

A batalha pela volta dos reféns é a mesma pelo fim desta guerra. Mais de 70% dos israelenses querem isso e estão saindo às ruas por isso: pelos reféns e para evitar mais morte de soldados jovens e reservistas que apenas querem voltar para casa. Mas é uma luta também pela alma do Estado de Israel. Sim, o país precisa de um exército, tem inimigos sérios e que realmente querem exterminá-lo. Ninguém discute isso. Mas Israel também precisa ser uma nação entre nações, não um pária internacional. Um país que possa desenvolver empatia pelos milhares de mortos inocentes entre seus inimigos, apesar de todo o trauma interno.

Há um quarto motivo que explica a emoção que tomou conta do país após a morte de Ariel Lubliner. O brasileiro foi morto por fogo amigo. Um soldado israelense o alvejou por engano. Ao que tudo indica, de 25% a 30% das fatalidades entre as tropas israelenses acontecem por erro das próprias tropas. Não é um percentual incomum em guerras. Mas é um percentual insuportável. Doloroso demais.

O fim da guerra em Gaza é a maior bandeira da grande maioria dos israelenses, neste momento. Seja pelo motivo que for. E o brasileiro Ariel Lubliner, que caiu tragicamente, se tornou um símbolo dessa luta justa. Sua morte é uma tragédia pessoal para a esposa Bárbara, o filho Lior, além de toda a família e os amigos de Ariel em Israel e no Brasil. Já a guerra, defendida pelo atual governo de extrema-direita de Israel e que acontece à revelia da maior parte dos cidadãos do país, é uma tragédia coletiva que precisa acabar.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Reprodução

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