Além da trégua: os desafios da fase dois do cessar-fogo entre Gaza e Israel
13 nov 25

Além da trégua: os desafios da fase dois do cessar-fogo entre Gaza e Israel

Natalie Rosen

O Plano de Paz de Gaza de 20 Pontos, apresentado pelo presidente americano Donald Trump, em setembro de 2025, foi recebido como um avanço diplomático histórico – um roteiro para transformar a trégua temporária em estabilidade duradoura e, em última instância, encerrar o conflito. Dividido em três etapas, o plano propõe uma transição gradual: da cessação das hostilidades e troca de reféns e prisioneiros, passando pela retirada militar israelense, reformas de governança que abram caminho para a autodeterminação palestina e, por fim, a reconstrução de Gaza.

A fase um, a única formalmente acordada por Israel e pelo Hamas, conseguiu interromper os combates por um período limitado. No entanto, à medida que o processo avança para a segunda fase, as fragilidades desse plano se tornam cada vez mais evidentes.

Momento decisivo em impasse

A fase dois foi concebida como o estágio fundamental do plano. Ela prevê que o Hamas renuncie ao poder político e se desmilitarize; a criação de uma administração palestina tecnocrática de transição; uma retirada adicional de Israel de Gaza e a entrada de uma Força Internacional de Estabilização (ISF) para garantir a segurança durante o período de transição.

No entanto, a transição está tendo dificuldades sob o peso das suas exigências complexas. Os críticos assinalam que o plano está amplamente subdesenvolvido e que a sua carência de um cronograma claro, de mecanismos de fiscalização eficazes e de processos robustos de verificação do cumprimento deixa toda a iniciativa vulnerável ao colapso diante de uma única provocação ou erro tático.

O desafio operacional

O plano propõe um modelo de governança transitória para Gaza, mas nem o aspecto de segurança nem a estrutura política foram devidamente definidos.

O primeiro ponto crítico é a desmilitarização. O plano exige que o Hamas entregue suas armas, mas não especifica quem deve conduzir esse processo, quando ou de que forma. Menciona-se a presença de monitores independentes, sem detalhes sobre sua autoridade ou composição. Poucos acreditam que o Hamas vá se desarmar voluntariamente; sua prioridade continua sendo a sobrevivência institucional e a preservação de sua identidade como movimento de resistência.

Isso é crucial. Sem desmilitarização, a estabilização não avança. As forças internacionais não se sentirão seguras para atuar, e a retirada israelense permanecerá condicionada a garantias concretas de segurança, algo que, por ora, não existe.

O segundo desafio está na questão da governança. O plano prevê que o Hamas abandone o controle político de Gaza e que uma comissão palestina apolítica, formada por técnicos locais e internacionais, governe o território até que a Autoridade Palestina conclua seu processo de reforma. Essa comissão ficaria sob supervisão do Conselho da Paz, liderado pelo presidente Donald Trump.

No entanto, as ações do Hamas imediatamente após o cessar-fogo seguiram em direção oposta. Nos dias logo após a trégua, o grupo reestruturou seus comandos locais, reprimiu duramente facções rivais e reafirmou seu controle sobre o território. Essa consolidação de poder levantou dúvidas sobre a possibilidade de uma nova administração realmente independente se estabelecer. Ainda assim, no fim de outubro, as principais facções palestinas, inclusive o Hamas, concordaram em criar um comitê temporário de tecnocratas para gerir Gaza no pós-guerra.

A Força Internacional de Estabilização, planejada como um contingente de 4 a 5 mil militares liderados por países árabes e muçulmanos, deveria oferecer a proteção necessária à transição. Mas, até agora, a iniciativa existe apenas no papel. Os Estados permanecem relutantes em enviar tropas sem garantias de que não se tornarão alvos do Hamas ou do próprio Exército israelense. Além disso, há a questão da legitimidade: nenhum governo regional deseja parecer estar policiando Gaza em nome de Israel, e muito menos ser responsabilizado se a missão fracassar. Consequentemente, para obter legitimidade internacional, essa força precisaria de um mandato formal do Conselho de Segurança da ONU, o que pode levar meses. Mesmo com o aval, a ISF teria atribuições limitadas: manter a ordem, não realizar operações de desarmamento ou contra-insurgência. Enquanto isso, o Centro de Coordenação Civil-Militar (CMCC), recém-inaugurado em Israel pelo Comando Central dos EUA, atua com cerca de 200 militares americanos focados exclusivamente em ajuda humanitária e coordenação logística, sem previsão de entrada em Gaza.

Mediação fragmentada e disputas de influência

O sucesso da fase dois depende não só dos atores locais, mas também da cooperação – frequentemente delicada – entre potências externas, cada uma com seus próprios interesses estratégicos.

Os Estados Unidos continuam sendo o principal fiador do processo, tentando sustentar a trégua por meio de pressão diplomática, incentivos econômicos e coordenação com aliados regionais. O grande desafio de Washington é conciliar visões opostas sobre o Hamas e garantir a participação dos parceiros tanto no financiamento quanto na execução do plano.

Catar e Turquia, que mantêm relações próximas com o Hamas, exercem papéis ambivalentes, mas indispensáveis. Suas conexões preservam canais de comunicação e asseguram que o grupo continue politicamente relevante. Ambos prometeram recursos para reconstrução e têm servido de mediadores onde EUA e Egito não conseguem atuar.

O Egito, por sua vez, prioriza a segurança nacional. O governo quer evitar instabilidade e o risco de um fluxo de refugiados atravessando a fronteira. Apesar da desconfiança em relação ao Hamas, por seus laços ideológicos com a Irmandade Muçulmana, o Cairo apoia um arranjo em que um Hamas desarmado possa coexistir com uma Autoridade Palestina reformada.

Já Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos detêm as chaves do financiamento para reconstrução. Sua ajuda é altamente condicionada: ambos querem limitar a influência islamista, fortalecer atores moderados e vincular a reconstrução de Gaza a um processo mais amplo de normalização com Israel. Antes de liberar recursos, exigem garantias políticas claras, incluindo a desmilitarização do Hamas, o retorno da Autoridade Palestina ao controle de Gaza e o compromisso renovado com a solução de dois Estados.

Um caminho estreito à frente

A implementação dessa segunda fase enfrenta obstáculos políticos, de segurança e logísticos em todas as frentes. Mesmo assim, seria precipitado descartar completamente o esforço. Apesar das falhas, ele representa uma estrutura multilateral de diálogo, pressão e avanço gradual.

Para sair da estagnação e caminhar rumo à estabilidade, três compromissos são essenciais:

Um horizonte político definido: apenas um compromisso claro de Israel de que uma Autoridade Palestina reformada serviria como alicerce para uma visão de dois Estados mobilizará parceiros regionais a pressionar o Hamas, apoiar as reformas da Autoridade Palestina e contribuir financeiramente. Esse envolvimento regional também ajudará a manter o Presidente Trump pessoalmente engajado no sucesso do plano.

Garantias de segurança credíveis: os países dispostos a contribuir com tropas precisam de garantias firmes de que não serão pegos em meio ao conflito. O processo de desmilitarização precisa ser detalhado, e forças palestinas treinadas e verificadas devem assumir gradualmente a responsabilidade pela ordem interna.

Fiscalização e cumprimento obrigatórios: mecanismos independentes de monitoramento e auditoria transparente são fundamentais para garantir a confiança política necessária, evitar o desvio de recursos e verificar o cumprimento por todas as partes.

No fim, a sobrevivência da fase dois dependerá da vontade política, da capacidade de Israel, Hamas e seus fiadores internacionais de alinhar a necessidade de sobrevivência imediata a interesses estratégicos de longo prazo. O cessar-fogo ainda não é paz, mas continua sendo um ponto de partida. Entre a contenção frágil e o retorno ao caos total, existe um caminho estreito, porém real, rumo a um compromisso pragmático.

Natalie Rosen, israelense radicada em São Paulo, doutora em Direito (Universidade Hebraica de Jerusalém), advogada especializada em Direito Público Internacional e pesquisadora; em colaboração para o Instituto Brasil-Israel (IBI).

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons  

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