As luzes que buscamos: Chanucá hoje
David DiesendruckDiz o humor judaico que nosso calendário é marcado pelas datas em que tentaram nos eliminar. Não conseguiram; então vamos comer e celebrar. No próximo domingo, ao final do dia, começa Chanucá e ela é também um convite a pensar o que significa ser judeu hoje e continuar existindo como povo.
A história de Chanucá se passa no século II Antes da Era Comum, em um período de autonomia judaica na Terra de Israel. O Reino Hasmoneu e o Segundo Templo são o centro da vida judaica, até que os gregos selêucidas passam a impor sua cultura. Eles não buscam, de início, o extermínio físico, mas a diluição da identidade: vivam, mas vivam como nós.
A mensagem é clara: abandonem sua lei, seus costumes, seu calendário. Podem continuar vivos, desde que deixem de ser, na prática, judeus.
Em Purim, no século V Antes da Era Comum, a ameaça é outra: os persas, na figura de Haman, não pedem que os judeus mudem. Pedem que desapareçam. É o decreto de extermínio físico.
Se olharmos para hoje, podemos arriscar um paralelo: o antissemitismo clássico se parece com a lógica de Purim onde o problema é o judeu em si; já o antissionismo radical se aproxima da lógica de Chanucá e afirma que o problema é “apenas” o sionismo, não o judaísmo.
Mas, na prática, essa separação é ilusória. Hoje, o sionismo é parte essencial da identidade judaica enquanto povo que reivindica autodeterminação, território, Estado e símbolos nacionais. Negar a legitimidade dessa dimensão é, no limite, negar a possibilidade de uma existência judaica plena. O resultado se aproxima da ideia de desaparecimento do povo judeu se não pelo corpo, pela identidade.
Nesse sentido, podemos aproximar o sionismo de uma espécie de “religião” do século XXI não no sentido teológico, mas como eixo estruturante da identidade judaica contemporânea. Para muitos judeus, Israel não é tema de política externa: é parte do “quem somos”.
Um mundo em que se diga: “Nada contra os judeus, apenas contra o sionismo, contra Israel, contra qualquer forma de Estado judeu” não é tão diferente, em seu desfecho, de um mundo que diga simplesmente: “Nada de judeus”. Em ambos os casos, há o risco de desaparecimento: do corpo, no modelo de Purim; ou da identidade nacional judaica, no modelo de Chanucá.
Três critérios ajudam a perceber quando a crítica cruza a linha e se torna antissemitismo: quando deslegitima o direito de Israel existir; demoniza Israel; e aplica um duplo padrão em relação a outras nações. Quando esses elementos aparecem, já não estamos discutindo políticas públicas, mas o direito de um povo existir.
Ao mesmo tempo, é preciso recusar o atalho de transformar qualquer crítica a um governo israelense em antissemitismo.
Críticas ao atual governo de Israel a decisões militares, políticas na Cisjordânia, erros antes, durante e depois do 7/10 são legítimas e necessárias.
De um lado, há quem use o antissionismo como escudo para evitar responsabilidades. De outro, há quem instrumentalize a causa palestina para negar o direito de Israel existir. Chanucá nos convida a recusar as duas simplificações.
No debate público, algumas vozes, como a professora Marta Topel, têm chamado atenção para duas armadilhas: o silêncio e o vitimismo. Tornar Israel um tabu “não falo sobre isso para evitar conflito” pode ser confortável, mas não protege identidades ameaçadas.
Por outro lado, assumir-se apenas como vítima também não ajuda. Sim, fomos vítimas em muitos momentos com a Shoá como ápice e voltamos a sê-lo no 7 de outubro. Mas não somos as únicas vítimas. Há também o sofrimento de civis palestinos na Faixa de Gaza.
Ignorar essa dor nos desumaniza. Reconhecer o sofrimento do outro não enfraquece nossa narrativa; ao contrário, a torna mais ética e coerente com a melhor tradição judaica.
Se Chanucá é a história de um pequeno grupo que recusou renunciar a sua identidade, a pergunta para nós, hoje, é: como acendemos luz, em vez de apenas reagir à escuridão?
Acredito no caminho da afirmação de Israel e do sionismo como partes legítimas da identidade judaica; distinguir crítica política de antissemitismo; recusar o papel de vítima eterna, reconhecendo também a dor do outro; e defender um sionismo democrático, inclusivo e plural.
As velas de Chanucá são pequenas, mas teimosas. Não eliminam a noite, mas a desafiam. Que neste Hanucá a gente renove o compromisso com um futuro em que Israel exista dentro de seus valores fundacionais, em que a identidade judaica possa florescer e em que haja espaço, dignidade e segurança para todos os povos da região.
Que as luzes da chanukiá tragam menos slogans e mais reflexão.
Menos ódio automático e mais coragem de enxergar o outro.
Feliz Chanucá!
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