Israelenses estão incendiando a Patagônia?
Antes de ir direto ao assunto, é importante recordar brevemente alguns antecedentes históricos que auxiliam em uma melhor compreensão dos fatos.
A Semana Trágica e as simpatias nazifascistas na Argentina
O antissemitismo, como era de se esperar, não é um fenômeno novo na Argentina, e da mesma maneira que em outros países, há muito tempo é parte de sua realidade social. Sua primeira expressão de grande violência se deu entre os dias 7 e 14 de janeiro de 1919. Este período, conhecido como a “Semana Trágica”, foi de intensa perseguição e repressão às camadas populares, devido a uma série de greves em Buenos Aires. Nesse momento, forças de segurança pública, militares e civis liderados pela Liga Patriótica Argentina, um grupo de extrema-direita, perpetraram o único pogrom da história na América Latina, atacando a comunidade judaica, concentrada essencialmente no bairro Once, sob o pretexto de eliminar elementos anarquistas, comunistas e socialistas. Judeus e judias de todas as idades foram detidos às centenas, submetidos a linchamentos, violências sexuais, torturas e assassinatos.
A partir da década de 1920, o antissemitismo ganhou mais força com a crescente presença de nazifascistas. Assim como em outras partes, houve um partido e outras organizações nazistas na Argentina que respondiam diretamente à Alemanha. Apenas a seção nacional da Frente Alemã de Trabalho chegou a contar com mais de 10 mil membros. Havia outros milhares de simpatizantes, em especial entre a comunidade alemã local e seus descendentes, que se dividiu entre esses grupos e os antinazistas. O Luna Park, o mais icônico centro de eventos do país, recebeu três comícios nazistas entre 1936 e 1938. O último ato, realizado em comemoração à anexação da Áustria, reuniu entre 12 e 15 mil assistentes, sendo uma das maiores mobilizações nazistas fora da Europa.
Governos germanófilos e com integrantes simpáticos ao nazismo, como as ditaduras do general José Félix Uriburu (1931-1932) e do Grupo de Oficiais Unidos (GOU, 1943-1946), contribuíram para a expansão e normalização da presença de elementos nazistas e suas atividades. O general Juan Domingo Perón, ex-integrante do GOU e presidente da Argentina entre 1946 e 1955, foi um dos mais célebres anfitriões de nazistas e colaboracionistas após a Segunda Guerra Mundial. Perón, no entanto, era mais próximo ao fascismo da Itália onde viveu em missão oficial entre 1939 e 1941.
O Plano Andinia
O Plano Andinia teve origem em movimentos ultranacionalistas argentinos, vinculados ao nazismo e ao fascismo, que contavam, inclusive, com a presença de criminosos de guerra. Foi formulado logo após a captura de Adolf Eichmann por Israel, no início da década de 1960. Dois filhos do criminoso nazista, Klaus e Horst Adolf, participaram da criação e da promoção da teoria da conspiração, bem como a Frente Nacional Socialista Argentina, de extrema-direita, e o Movimento Nacionalista Tacuara, afim aos setores mais conservadores e
reacionários do peronismo. Esses grupos tinham como características básicas e que os uniam o antissemitismo e o anticomunismo.
A argumentação se baseou na distorção de documentos e debates que ocorreram no seio da comunidade judaica europeia entre o fim do século XIX e princípio do século XX, principalmente a sugestão de Theodor Herzl em “O Estado Judeu”, para a criação de um lar nacional judaico temporário na Argentina. Proposta que foi rechaçada pelos seus pares e nunca chegou perto de se concretizar. Isso foi resgatado e tirado de contexto pelos extremistas argentinos com o objetivo de dar corpo à fantasia de uma ameaça externa representada por Israel, que seria apoiada internamente pela comunidade judaica local. Mais tarde, a teoria da conspiração seria usada pelas ditaduras civil-militares argentinas autodenominadas “Revolução Argentina”(1966-197) e “Processo de Reorganização Nacional” (1976-1983) para perseguir judeus e judias.
A última ditadura civil-militar
No último período ditatorial, o antissemitismo arraigado na sociedade argentina se tornou mais visível. A concepção de uma nação católica conservadora pelas alas reacionárias que dominaram as Forças Armadas, se somou a teorias conspiratórias fabricadas e alimentadas pela extrema-direita, como o Plano Andinia. Essa união de mitos preconceituosos levou a que presas e presos políticos de origem judaica, recebessem o que seus algozes chamavam de “tratamento especial”. Conforme depoimentos de vítimas e testemunhas, judias ou não, a violência infligida pelas forças de defesa e segurança do regime era intensificada quando o alvo das crueldades era identificado como judeu.
Segundo a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP) – que contou com uma participação importante de indivíduos e entidades da comunidade judaica, lideradas pelo rabino Marshall T. Meyer – o número oficial de mortos e desaparecidos corresponde a 8961 pessoas, das quais ao menos 937 teriam origem judaica (10,45% do total). Diversas organizações de Direitos Humanos, argentinas e internacionais, estimam o número absoluto de vítimas em 30 mil pessoas, incluídas entre 1500 e 2000 judias (entre 5% e 6% do total). Relatórios da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA) indicam entre 800 e 1600 vítimas judias, tendo como referência 10 mil e 30 mil pessoas em total, respectivamente (entre 8% e 5,3%, nessa ordem).
Devido às dificuldades para estimar a quantidade exata de vítimas, impostas pelo modus operandi repressivo, essas mesmas organizações reconhecem que o número real pode ser maior. Em seus documentos, a DAIA afirma que os judeus mortos e desaparecidos podem alcançar dois ou três pontos percentuais a mais que o mínimo de 5%, ou mesmo chegar a ser o dobro.
De todas as formas, o certo é que a comunidade judaica argentina, que então era equivalente a algo entre 0,8% e 1,2% de toda a população do país, foi sobrerrepresentada entre os indivíduos-alvo da repressão estatal. E caso o Estado de Israel não houvesse agido em socorro de judeus argentinos, ainda que não o haja feito da maneira ideal que a situação exigia, essa quantidade teria sido maior.
Os incêndios na Patagônia e o ressurgimento do Plano Andinia
Hoje, vemos um amplo leque de grupos de esquerda adotando a linha argumentativa antissemita construída pela extrema-direita, como nas teorias sobre os incêndios na Patagônia. A presença constante de turistas israelenses na região – inferior à de turistas de muitos outros países – tem contribuído para o reavivamento desse libelo antissemita nos últimos anos. Após o 7 de outubro, a HispanTV, um canal de notícias iraniano voltado para a Espanha e América Latina, passou a promover conteúdos relacionados ao Plano Andinia.
Os incêndios na Patagônia, que este ano têm chegado a uma proporção superior a dos anos anteriores, serviram de gatilho para que esse discurso ganhasse relevância no debate público. A propagação de notícias falsas por meios de comunicação como “El Destape”, alinhado a um dos setores da esquerda peronista, ajudam a alimentar o conspiracionismo. A história de que dois israelenses teriam sido detidos por atear fogo na área já foi desmentida, mas não deixa de ser compartilhada.
O fato que, em 2011, um israelense foi detido no Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia chilena, por provocar acidentalmente um incêndio, também serviu a essa narrativa. Na época, o indivíduo não apagou corretamente um rolo de papel higiênico que havia incendiado, o que iniciou uma queimada de grandes proporções. As autoridades chilenas o detiveram por horas e o acusaram de provocar o incêndio por negligência, o que foi reconhecido por ele. O cidadão de Israel foi processado e obrigado a pagar uma multa. Não houve, em nenhum momento, ingerência do governo israelense ou da comunidade judaica para favorecê-lo.
As verdadeiras causas da amplitude dos incêndios este ano têm a ver com a utilização de apenas 76% do orçamento para prevenção, o qual é 71% inferior ao do ano anterior. Além disso, o governo de Javier Milei, que nega a crise climática, busca flexibilizar a Lei das Geleiras e derrogar a Lei de Terras e a Lei de Manejo do Fogo, para facilitar a venda de terras a empresas estrangeiras e permiti-lhes o acesso às zonas ricas em recursos naturais, em especial aquelas que são fontes de terras raras e de água doce na Patagônia.
Entre os investidores atualmente presentes e interessados em adquirir propriedades na Patagônia estão britânicos, suíços, chineses, cataris, emiradenses, italianos e chilenos, mas nenhum israelense ou mesmo judeu, seja estrangeiro ou argentino. É nesse cenário em que os israelenses e judeus mais uma vez estão sendo utilizados como bodes expiatórios para ocultar interesses com os quais não possuem nenhum tipo de vínculo.
É evidente que os laços do governo Milei com uma ala específica e minoritária da comunidade judaica argentina colaboram com a construção dessas acusações antissemitas. Contudo, é preciso notar que quando nomes como Eurnekian, Menem, Bullrich, Caputo ou Macri se aliam ao governo ou mesmo o integram, não há uma busca por responsabilização ou culpabilização das comunidades armênia, árabe, alemã ou italiana, como ocorre com a judaica.
1- Raphael Fernandes Vieira. Analista internacional e mestrando em Relações Internacionais no Instituto de Relaciones Internacionales da Universidad Nacional de La Plata (IRI-UNLP, Argentina). Pesquisador nas áreas de Análise de Política Externa, Estudos Estratégicos e Cooperação Internacional.
2 – Essa estimativa, que compreende o período de violência política entre 1975 e 1983, é parcialmente corroborada por documentos do Departamento de Estado dos EUA, que calculam em 22 mil os mortos e desaparecidos entre 1975 e 1978, intervalo em que houve maior intensidade repressiva.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Wikimecommons
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