A violência na sociedade árabe: um teste estratégico interno para a democracia israelense
10 fev 26

A violência na sociedade árabe: um teste estratégico interno para a democracia israelense

Revital Poleg

Revital Poleg

Para quem observa Israel de fora, o país costuma ser visto sobretudo através do prisma de seus conflitos externos – nas fronteiras e no entorno regional. No entanto, abaixo da superfície, dentro de casa, desenrola-se nos últimos anos uma tragédia humana e estratégica que ameaça a coesão social de todo o país: a onda de violência e criminalidade na sociedade árabe em Israel.

Os dados chocantes falam por si. O ano de 2025 terminou com um número recorde e inimaginável de 255 assassinatos. E essa tendência letal se recusa a desacelerar: nos primeiros 39 dias de 2026, já foram registrados 39 homicídios, em média, uma pessoa assassinada por dia. As estatísticas mostram que a maioria das vítimas (cerca de 72%) são jovens com menos de 40 anos, um dado que ceifa o futuro e a esperança de toda uma geração.

É fundamental deixar claro: não se trata de uma “questão cultural”, como alguns tentam argumentar e atribuir à sociedade árabe, mas sim de um grave fracasso de governança. Até cerca de quinze anos atrás, as taxas de homicídio na sociedade árabe eram semelhantes às da sociedade judaica e, nos anos 1980, eram inclusive mais baixas.

A conduta do Estado nesse campo produziu, na prática, uma verdadeira “socialização do crime”: quando o Estado recua, organizações criminosas ocupam o vácuo. Elas passam a atuar como instâncias de resolução de conflitos, cobrança de dívidas, concessão de empréstimos no mercado ilegal e alimentam uma expansão sem precedentes do fenômeno da extorsão (protection rackets).

O abismo atual é extremo e alarmante: a probabilidade de um cidadão árabe ser assassinado em Israel é hoje 14 vezes maior do que a de um cidadão judeu. Enquanto, do ponto de vista estatístico, o nível de segurança pessoal – não a percepção subjetiva, mas os dados objetivos – da população judaica em Israel se assemelha ao de países como a Suíça ou a Alemanha, os cidadãos árabes vivem uma realidade de insegurança comparável à de países como o México ou a Colômbia.

A criminalidade, por mais grave que seja, não é um destino inevitável. Durante o curto período do chamado “governo da mudança” (Bennett-Lapid), foi implementado um plano governamental abrangente de cinco anos para enfrentar a violência e o crime na sociedade árabe, com forte coordenação entre todos os ministérios, os órgãos de segurança pública e os serviços de assistência social. Em apenas um ano, registrou-se uma redução de cerca de 16% no número de assassinatos.

Nos últimos três anos, no entanto, desde a formação do governo Netanyahu e a entrega do Ministério da Segurança Nacional ao ministro Itamar Ben-Gvir, representante da extrema-direita, ocorreu uma mudança dramática na abordagem governamental, algo que pode ser descrito como uma política deliberada de negligência. Entre as primeiras medidas do novo ministro estiveram o corte de orçamentos, a demissão de profissionais designados para o programa e o afastamento de parceiros técnicos (como a organização Joint – JDC), sob a alegação de que seriam “de esquerda”. Tudo isso ocorreu paralelamente a processos significativos de politização dentro da polícia, que afetam o conjunto dos cidadãos e minam profundamente a confiança pública na capacidade da instituição de atuar de forma profissional.

Uma pesquisa recente realizada pelo Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) revelou que, enquanto 82% dos eleitores da oposição se dizem muito preocupados com a situação da sociedade árabe, apenas 40% dos eleitores da coalizão governista demonstram preocupação semelhante. Essa disparidade contribui para a ausência de pressão política sobre o governo por parte de sua própria base de apoio e para a falta de exigência de que o tema seja tratado como uma prioridade nacional.

Um dos dados mais surpreendentes dessa pesquisa mostra que 75% da população árabe apoiam atualmente o envolvimento do Shin Bet no combate à criminalidade. Uma decisão nesse sentido – que, por sua própria natureza, levanta sérias questões democráticas e que não partiu de uma iniciativa do próprio Shin Bet – foi aprovada pelo governo, por exigência de Ben-Gvir, em dezembro passado.

Trata-se de uma ampliação significativa do escopo de atuação do Shin Bet, que historicamente intervém tanto na sociedade árabe quanto na judaica apenas em casos ligados ao terrorismo ou a ameaças diretas às instituições do Estado. O amplo apoio da sociedade árabe a essa medida é quase impensável à luz da relação historicamente complexa e marcada pela desconfiança entre a população árabe e os órgãos de segurança. Esse apoio expressa, acima de tudo, desespero e profunda frustração diante da inoperância da polícia.

Na noite de sábado, 31 de janeiro, realizou-se em Tel Aviv uma marcha de indignação e uma manifestação conjunta de judeus e árabes, com a participação de dezenas de milhares de protestantes, incluindo familiares de vítimas de assassinato. Embora não tenha sido a primeira manifestação desse tipo, sua dimensão, composição mista, momento político e localização central foram mais significativos do que em todas as anteriores. No domingo seguinte (8 de fevereiro), ocorreu outro ato de protesto: uma carreata em baixa velocidade partiu da cidade árabe de Shefar’am, no norte do país, em direção a Jerusalém, até a sede do gabinete do primeiro-ministro, denunciando a “negligência deliberada e o crime organizado na sociedade árabe” e exigindo a demissão do ministro Ben-Gvir. Esse protesto também foi organizado pelo Comitê de Acompanhamento Superior da População Árabe, a principal entidade representativa da sociedade árabe, em conjunto com o Comitê das Autoridades Locais, com o apoio de dezenas de organizações árabes e judaicas.

Diversos fatores contribuíram para o surgimento dessa onda de protestos neste momento específico. Antes de tudo, chegou-se ao limite: o sangue de cidadãos árabes israelenses tornou-se objeto de uma permissividade aterradora, e essa situação precisa cessar imediatamente.

Há ainda o fim da guerra e a retomada da atenção pública. Após um longo período em que o foco da sociedade esteve voltado para a guerra, em todas as suas frentes e impactos sobre o cotidiano, a sociedade israelense começa agora a voltar seu olhar para os problemas internos. A adesão do público judeu aos protestos é uma mensagem de sanidade diante de uma realidade profundamente insana. Cidadãos se unem para exigir o que deveria ser óbvio: o direito básico a uma vida segura.

Outro fator central é o medo do transbordamento da violência. Até recentemente, muitos judeus em Israel tendiam a tratar a violência na sociedade árabe como algo restrito ao “quintal dos fundos”. Nas últimas semanas, porém, observa-se uma mudança clara. A manifestação em Tel Aviv, com expressiva participação judaica, sinaliza o reconhecimento da profunda interdependência entre a segurança pessoal em Rahat ou Tira e a segurança pessoal em Ra’anana ou Netanya.

Por fim, há as eleições no horizonte. O processo eleitoral que se aproxima atua como um catalisador da conscientização. A sociedade árabe envia um recado claro à sua liderança e ao sistema político como um todo: não está mais disposta a aceitar essa realidade.

A violência na sociedade árabe não é uma “fatalidade”. Não é uma “questão dos árabes”, nem tampouco um problema “causado pelos próprios árabes”, como afirmam setores da direita, entre eles o Canal 14, porta-voz do governo. A luta contra essa violência é uma luta pelo caráter do Estado de Israel como um país democrático, soberano e funcional. É possível combatê-la e é possível vencê-la. Mas, para isso, é necessária uma liderança que se importe e que atue em favor de todos os seus cidadãos – sem distinção de religião, origem ou gênero.

A manifestação conjunta em Tel Aviv, representa também um ponto de inflexão social? É cedo para afirmar. Sua importância não reside na reação do governo nem tampouco na da extrema-direita, mas no que ela produziu: uma base para a esperança. Muitos participantes relataram a sensação de que algo havia mudado. Já não se trata de um protesto setorial, nem de lutas fragmentadas, mas de uma irrupção cívica compartilhada de cidadãos árabes e judeus, juntos, que talvez, quem sabe, possa também conduzir a uma mudança política mais responsável e digna no futuro próximo. Acima de tudo, porém, este é um teste estratégico para o Estado de Israel como um todo – nada menos do que isso.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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