47 anos depois: Lições de Camp David para o Israel de hoje
Revital PolegNestes dias, enquanto o Oriente Médio segura a respiração diante dos movimentos rápidos de Donald Trump, e quando ainda é cedo para determinar, neste momento, se o seu anúncio de uma possível negociação com o Irã amadurecerá em um diálogo real ou permanecerá apenas como uma tática de pressão coercitiva, vale a pena parar e olhar para trás. Nesta semana, em 26 de março, completam-se 47 anos do momento em que a realidade regional mudou de rumo: a assinatura, em 1979, dos Acordos de Paz de Camp David, entre Israel e o Egito.
Os Acordos de Camp David não são apenas um capítulo nos livros de história; eles são um dos modelos mais claros do poder e da importância da diplomacia como ferramenta estratégica, com ênfase na resolução de conflitos que pareciam insolúveis. As lições de Begin, Sadat e Carter são hoje mais relevantes do que nunca – não como nostalgia, mas como um roteiro para a liderança em tempos de crise existencial, onde se exige uma decisão entre uma guerra contínua com um horizonte incerto ou uma nova estabilidade regional.
A história de Israel e do Egito que precedeu Camp David foi uma história de sangue e profunda hostilidade. Em apenas 25 anos, os dois países lutaram entre si em quatro guerras difíceis (1948, 1956, 1967 e 1973), e o confronto era visto como um destino inevitável entre inimigos jurados. Contudo, foi desse abismo que emergiu um dos arranjos mais resilientes da região, um marco que não apenas transformou a relação entre os signatários, mas também gerou reflexos em toda a dinâmica do Oriente Médio. A lição central de Camp David não é ingênua; ela não afirma que a diplomacia substitui a força militar, mas que permite alcançar objetivos que a força sozinha jamais alcançaria. A diplomacia é o ‘segundo andar’ do poder militar; é ela que transforma a conquista no campo de batalha em um ativo político sustentável.
Na era atual, o termo “Peace through Strength” (Paz através da Força) volta ao centro do debate. Trata-se de uma formulação associada a Ronald Reagan e retomada com entusiasmo pelo presidente Trump. No entanto, uma análise profunda revela nela uma falha intrínseca: ela assume que um arranjo político é criado a partir de uma hierarquia de poder, na qual o lado forte dita, e o lado fraco se alinha. Quando um líder coloca a força como condição prévia exclusiva, ele não entra em um espaço diplomático clássico, mas, na melhor das hipóteses, em um espaço de negociação sob pressão. Trata-se de uma tentativa de moldar uma realidade na qual o fim do conflito não é um objetivo comum, mas um subproduto da submissão.
Por outro lado, a diplomacia de Camp David baseou-se em outra compreensão: acordos sustentáveis devem criar um espaço em que ambos os lados possam viver com o resultado. Quem busca “vencer” no âmbito de um arranjo político corre o risco de descobrir que construiu uma estrutura de bases frágeis, cuja validade depende apenas da força que a sustenta em um dado momento.
Aqui cabe lembrar também a concepção estratégica de Yitzhak Rabin, que ecoa a abordagem de Menahem Begin à sua época. Na reunião de gabinete em 1993 que aprovou os Acordos de Oslo, Rabin disse palavras que ressoam hoje com toda a sua força: “Precisamos reduzir o círculo de conflito próximo a nós… A longo prazo, o perigo maior é a possibilidade de o Irã alcançar armas nucleares. Portanto, é importante reduzir o atrito no círculo próximo para que possamos enfrentar a ameaça no círculo distante”. Rabin entendeu que a diplomacia é uma ferramenta para gerenciar prioridades; para conter a ameaça iraniana de forma eficaz, Israel precisa se desvencilhar de outros conflitos e construir alianças regionais. Esta é uma compreensão lúcida das limitações do poder.
Em contrapartida, Benjamin Netanyahu, ele próprio um ex-diplomata sênior, escolheu nos últimos anos o caminho militar, deixando de lado a via diplomática. Embora Netanyahu não seja o responsável pela existência em si das ameaças a Israel, a estratégia que ele adotou sob o slogan ‘até a vitória total’ foca no poder militar enquanto evita apresentar um horizonte político. Em vez de agir para reduzir frentes onde for possível, como no contexto palestino na Cisjordânia, a política atual gera tensões com aliados como Egito e Jordânia, além de deixar de lado possíveis oportunidades de construção de relações com atores como o Líbano, em paralelo ao contexto atual do enfrentamento ao Hezbollah. Com isso, enfraquece-se a capacidade de Israel de se concentrar em seu objetivo estratégico central, a contenção do Irã.
Camp David não teria acontecido sem uma liderança corajosa que assumiu enormes riscos políticos. Menachem Begin, um homem de direita convicta, soube reconhecer que a paz com o Egito era um ativo estratégico que valia concessões dolorosas. Ele provou que Israel sabe escolher o caminho político não por fraqueza, mas por visão estratégica mais ampla. 47 anos de desafios e crises marcaram as relações Israel-Egito, mas a guerra não voltou e o acordo de paz permanece firme. Esta é a verdadeira vitória da diplomacia.
Hoje, enquanto Trump considera uma nova iniciativa frente ao Irã, devemos perguntar se se trata da “Rota de Islamabad” que levará a uma estabilização real, ou apenas pressão destinada a trazer uma rendição que pode, ao contrário, levar a uma intensificação da guerra. A lição de Camp David é que mesmo inimigos jurados podem olhar para frente sem humilhar uns aos outros. A diplomacia é a única ferramenta que pode tirar essa concepção do papel, desde que o processo seja construído a partir de um mínimo elementar de confiança na própria possibilidade de mudança.
Como nos ensinou Carl von Clausewitz, a diplomacia é a continuação da guerra por outros meios. Camp David nos mostrou que ela também pode ser o fim da guerra por meios melhores. Enquanto os cinco dias do ultimato americano ao Irã se esgotam, a lição de 1979 ecoa: a força militar nos dá a capacidade de sobreviver, mas a diplomacia é o que nos dá a capacidade de viver. Israel deve garantir que não seja apenas parceira na redação do capítulo final de uma guerra cujo fim ainda é desconhecido, mas também a arquiteta da realidade que virá depois dela. A escolha pelo caminho político não é fraqueza; é a expressão suprema da força nacional que reconhece as limitações do poder e as vantagens do bom senso. A verdadeira vitória não é medida apenas pelo silêncio dos canhões, mas pela capacidade de transformar a força militar em uma realidade política onde o interesse em viver é mais forte que o impulso de matar.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Jimmy Carter Presidential Library and Museum/NARA
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