Israel e Líbano: por que a via diplomática se tornou mais importante do que nunca
Revital Poleg
Israel se viu esta semana diante de um complexo dilema estratégico. Enquanto Washington e Teerã consolidam um Memorando de Entendimento (MoU) destinado a encerrar a guerra, incluindo um cessar-fogo no Líbano, a frente norte permanece instável. O Hezbollah, organização terrorista e representante iraniano no Líbano que não se considera vinculado a acordos firmados entre Estados, preserva ampla margem de manobra e poderá inclusive explorar as restrições impostas a Israel no sul do Líbano para se rearmar, reorganizar suas estruturas e reconstruir suas capacidades. Paralelamente, Israel vê-se cada vez mais submetido a regras e limitações definidas por outros atores, sem participar de sua formulação.
Justamente por isso, a via diplomática com Beirute, até agora percebida em Jerusalém como uma iniciativa secundária, destinada sobretudo a atender a uma exigência americana, precisa se transformar em um componente central da estratégia israelense. Se Israel deseja influenciar a realidade que emergirá em sua fronteira norte no período pós-conflito, deverá assumir a iniciativa e tornar-se um ator ativo na definição dos entendimentos políticos e de segurança com o Líbano.
Não se trata de uma avaliação meramente teórica. No momento em que estas linhas são escritas, o presidente do Líbano, Joseph Aoun, já deixou claro que seu país apoia um cessar-fogo e acolherá positivamente qualquer Estado que contribua para sua concretização – “incluindo o Irã”. Essa declaração evidencia o quanto o cenário político libanês continua sendo moldado em tempo real e o quanto é essencial que Israel participe da construção dos entendimentos em formação, influenciando seu conteúdo, e não apenas reagindo a decisões tomadas por terceiros.
As minutas do Memorando de Entendimento (MoU) entre os Estados Unidos e o Irã divulgadas nos últimos dias reforçam o quanto a questão libanesa se tornou um componente central das negociações entre as partes. Para Teerã, uma condição fundamental para qualquer acordo é a interrupção imediata e permanente dos combates em todas as frentes, acompanhada da retirada das Forças de Defesa de Israel do sul do Líbano. O Irã chegou inclusive a comprometer-se perante o Hezbollah a não assinar um acordo definitivo com Washington sem incorporar essa exigência. Embora Israel não seja parte das negociações, os entendimentos em construção já influenciam sua liberdade de ação por meio da pressão americana e da forma como Washington define os limites do que considera uma atuação legítima no norte.
O acordo em formação entre Washington e Teerã representa outro êxito estratégico para o Irã: a transição de patrocinador e financiador do Hezbollah para a condição de ator político legítimo na questão libanesa. Durante anos, Teerã investiu na construção do Hezbollah como seu principal instrumento de influência e dissuasão no Líbano; agora, busca converter essa influência militar e política em legitimidade para participar da definição dos arranjos regionais. Dessa forma, consolida-se, na prática, como interlocutor direto dos Estados Unidos e como um ator com influência sobre o futuro da arena libanesa, enquanto Israel se vê impactado pelos entendimentos em formação sem participar de sua elaboração.
Em um contexto no qual se amplia um significativo desalinhamento de interesses estratégicos entre Jerusalém e Washington – pela primeira vez desde o início do mandato de Donald Trump – Israel precisa adotar uma reflexão estratégica ainda mais profunda e criativa sobre a forma de fortalecer sua segurança nacional. Nesse contexto, torna-se necessário aprofundar a via diplomática em curso com Beirute e atribuir-lhe um peso estratégico muito maior. Isso decorre do reconhecimento de que a complexa realidade na fronteira norte não pode ser moldada apenas pelo uso da força, sem diminuir a importância desta.
Este é também o momento para uma diplomacia baseada na construção gradual de confiança, na criação de mecanismos consensuais e na definição de novas regras do jogo. É importante lembrar: o conflito de Israel não é com o Estado libanês em si. O aprofundamento do diálogo com Beirute, especialmente diante da disposição declarada de sua liderança em promovê-lo, pode fortalecer tanto a estabilidade regional quanto a legitimidade internacional de que Israel necessita neste momento mais do que nunca.
A experiência histórica demonstra que acordos internacionais não garantem necessariamente estabilidade duradoura na arena libanesa. A Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, que encerrou a Segunda Guerra do Líbano em 2006, tinha entre seus objetivos impedir a reconstituição da presença militar do Hezbollah no sul do país. Na prática, porém, a organização continuou, ao longo dos anos, ampliando suas capacidades militares e sua influência política no Líbano.
Essa lição permanece relevante hoje. Qualquer acordo futuro entre Washington e Teerã – inclusive o que está atualmente em discussão – deverá incluir, em conformidade com as exigências iranianas e com o apoio dos Estados Unidos, limitações e regras de atuação que recairão, na prática, sobre Israel na arena libanesa. Isso, entretanto, não garante que o Hezbollah se considere vinculado a essas regras ou que deixe de tentar desafiá-las. Justamente por isso, a importância da via diplomática entre Israel e o Líbano cresce ainda mais.
Quanto mais claros e diretos forem os entendimentos estabelecidos entre os dois Estados, maior será o interesse do Líbano, dos Estados Unidos e de outros atores internacionais em preservá-los e em se opor a qualquer tentativa de miná-los. A diplomacia não constitui uma solução mágica, mas pode criar uma realidade em que qualquer tentativa do Hezbollah de comprometer a estabilidade na fronteira seja percebida não apenas como mais um confronto com Israel, mas também como um ataque aos entendimentos cuja manutenção interessa ao próprio Estado libanês e à comunidade internacional.
O governo libanês declara abertamente que deseja um acordo que leve ao fim dos combates, ao retorno dos deslocados e à reconstrução do sul do país. No governo Netanyahu, por sua vez, ainda prevalece a preferência por considerar o poder militar como o principal instrumento para moldar a realidade na fronteira norte. A importância da força militar não está em discussão, e a necessidade de garantir a segurança dos moradores do norte de Israel é absolutamente incontestável. Ainda assim, a realidade emergente exige que Jerusalém reavalie o peso que atribui à via diplomática já existente entre Israel e o Líbano.
As negociações bilaterais entre Israel e o Líbano oferecem uma oportunidade estratégica que não deve ser subestimada. Trata-se da via por meio da qual Israel pode influenciar diretamente o conteúdo dos entendimentos em construção, definir seus interesses estratégicos e trabalhar para incorporá-los a acordos mutuamente aceitos. Nesse contexto, ganha renovada relevância a célebre frase de Shimon Peres: “No Oriente Médio, se você não está sentado à mesa, corre o risco de acabar no cardápio”. Justamente por isso, é fundamental que Israel escolha ocupar seu lugar à mesa de forma plena, ativa e influente.
Quanto mais Israel adotar essa abordagem, maior será sua capacidade de influenciar a construção de uma realidade mais estável na fronteira norte, capaz de responder melhor aos interesses de segurança de Israel, mas também aos do Líbano. Em um Oriente Médio em processo de reconfiguração, trata-se de um interesse compartilhado que pode contribuir não apenas para a estabilidade da fronteira, mas também para uma estabilidade regional mais ampla.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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