O ódio nunca é gratuito
Por David Diesendruck
Co-fundador e Diretor do IBI – Instituto Brasil Israel
No próximo dia 23 de julho, judeus ao redor do mundo estarão em jejum por cerca de 25 horas. É Tishá BeAv, o nono dia do mês hebraico de Av, data que marca a destruição dos dois Templos de Jerusalém — o primeiro, pelos babilônios, e o segundo, pelos romanos, no ano 70 da era comum.
Mas talvez o aspecto mais interessante dessa tradição não seja a lembrança histórica. É a explicação que os próprios sábios judeus deram para a destruição.
Segundo o Talmud, o Segundo Templo foi destruído por sinat chinam — expressão geralmente traduzida como “ódio gratuito”.
A tradução sempre me pareceu insuficiente.
Afinal, poucas pessoas acreditam odiar alguém “gratuitamente”. Quase todos nós temos excelentes justificativas para nossas antipatias. O outro nos ofendeu. Está errado. É ignorante. É perigoso. Apoia pessoas ou ideias que consideramos inaceitáveis.
Talvez sinat chinam possa ser entendido de outra maneira: o momento em que a intensidade do nosso ódio se torna desproporcional à divergência que o originou.
Quando deixamos de discordar de uma ideia e passamos a questionar a legitimidade de quem a defende.
É difícil imaginar uma reflexão mais atual.
Vivemos em uma época na qual discordar parece já não ser suficiente. É preciso desqualificar, rotular e transformar o adversário em inimigo.
As redes sociais não inventaram essa tendência, mas criaram um ambiente especialmente favorável à sua expansão. Seus sistemas selecionam aquilo que vemos e podem premiar conteúdos capazes de provocar reação imediata — frequentemente indignação, medo ou ressentimento.
A inteligência artificial acrescenta agora uma dimensão nova. Ela permite produzir, rapidamente e em escala, textos, imagens, vozes e vídeos falsos ou manipulados. Mais do que isso: estudos recentes mostram a capacidade de modelos de inteligência artificial de produzir mensagens politicamente persuasivas e, em determinadas condições, adaptar seus argumentos às características do interlocutor.
A propaganda deixa de ser apenas massiva. Pode tornar-se individual.
O risco, portanto, não é apenas deixarmos de distinguir o verdadeiro do falso. É perdermos até mesmo uma realidade comum sobre a qual possamos discordar.
Quando cada grupo recebe seus próprios fatos, seus próprios inimigos e sua própria versão do mundo, a divergência deixa de ser uma discussão sobre a sociedade e passa a ser uma disputa entre sociedades paralelas.
Mas seria confortável demais culpar apenas a tecnologia.
Há líderes políticos que descobriram a fórmula da polarização muito antes dos algoritmos. E há líderes religiosos que, em nome de Deus, transformam divergências políticas e nacionais em batalhas absolutas entre o bem e o mal.
O regime teocrático iraniano é um exemplo extremo dessa instrumentalização. Quando conflitos políticos e geopolíticos são revestidos de linguagem religiosa, negociar pode parecer traição e destruir o inimigo pode ser apresentado como missão moral.
O problema, evidentemente, não pertence a uma religião específica. A história está repleta de cristãos, muçulmanos e judeus que usaram Deus para legitimar aquilo que provavelmente desejavam fazer em nome de seus próprios projetos de poder.
Deus, afinal, é o aliado perfeito para um fundamentalista: nunca concede entrevistas para contestar aquilo que dizem em Seu nome.
A tradição judaica oferece um contraponto interessante.
Em Pirkei Avot, um texto escrito há quase dois mil anos, encontramos o conceito de machloket leshem shamayim — uma “divergência em nome dos Céus”.
O exemplo clássico são Hillel e Shammai, dois sábios que discordavam profundamente sobre questões fundamentais da vida judaica.
A tradição não apagou essas divergências. Fez exatamente o contrário: preservou-as.
O Talmud registra não apenas a opinião vencedora, mas também inúmeras opiniões derrotadas.
Talvez porque uma sociedade saudável não seja aquela em que todos concordam. É aquela em que ainda conseguimos reconhecer algum valor — e alguma humanidade — em quem pensa diferente.
Essa reflexão ganha uma urgência particular em 2026.
Brasil e Israel terão eleições nacionais em outubro. Nos dois países, embora em contextos profundamente diferentes, o debate político acontece em sociedades marcadas por fortes divisões e por perguntas fundamentais sobre seu futuro.
As divergências são reais.
Não precisamos fingir que todas as opiniões são igualmente razoáveis. Não precisamos renunciar a convicções. Não precisamos aceitar discursos antidemocráticos, racistas ou violentos em nome de uma falsa tolerância.
Mas talvez devêssemos recuperar uma pergunta simples antes de entrar na próxima discussão política — ou escrever o próximo post indignado:
O que posso fazer para que minha voz contribua para uma sociedade com mais escuta, mais empatia e mais justiça?
Nenhuma tecnologia, governo ou liderança construirá essa sociedade por nós.
Ela dependerá também da nossa disposição de ouvir antes de julgar, de compreender antes de desqualificar e de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.
Talvez essa seja a responsabilidade individual que sinat chinam nos obriga a enfrentar.
Há quase dois mil anos, os sábios judeus fizeram uma afirmação extraordinariamente dura sobre sua própria sociedade: Jerusalém não foi destruída apenas pela força de um inimigo externo. Antes disso, ela já havia sido enfraquecida pela incapacidade de seus próprios grupos conviverem entre si.
É uma interpretação religiosa da história, evidentemente.
Mas talvez seja também um alerta político.
Sociedades raramente percebem o momento exato em que a divergência deixa de ser fonte de vitalidade e passa a ser instrumento de autodestruição.
Talvez Tishá BeAv, mesmo para quem não é judeu e não acredita em Deus, seja um bom dia para fazer essa pergunta.
Especialmente em um ano de eleições.
Especialmente agora.
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