A parceria judaico-árabe que pode romper um tabu na política israelense
Revital PolegEm meio a uma campanha eleitoral particularmente acirrada e decisiva para o futuro de Israel, uma notícia extremamente surpreendente se destacou há poucos dias: a possibilidade de Yoav Segalovitz, ex-vice-ministro da Segurança Interna no governo Bennett-Lapid e atualmente deputado pelo Yesh Atid, concorrer ao lado de Mansour Abbas na lista do Ra’am (Lista Árabe Unida). Se a iniciativa for aprovada na convenção do Ra’am, em 22 de agosto, poderá alterar a composição do próximo Parlamento, mas também as regras declaradas do jogo político: a atitude em relação à participação de um partido árabe em uma coalizão de governo, a percepção da sociedade árabe como uma base eleitoral fechada e a compreensão de que o combate à criminalidade na sociedade árabe não é um “problema setorial” desse segmento, mas um desafio social e de governança para o Estado de Israel como um todo.
Em meio a uma sequência interminável de manobras eleitorais e spins políticos, essa notícia é excepcional. Não se trata apenas de mais uma mudança tática nas listas partidárias, mas de um sinal de uma tentativa, ainda pouco convencional, de redefinir o que é um partido árabe, o que significa uma parceria judaico-árabe e quais são os limites do aceitável e do inaceitável no debate sobre uma coalizão com um partido que representa a minoria árabe.
Mesmo que, ao final, a iniciativa não se concretize, o simples fato de ter sido colocada sobre a mesa reflete um processo mais profundo: a formação de um novo modelo de parceria árabe-judaica, pragmático e cívico, centrado em governança e segurança pública, sustentado por mudanças nas posições da população árabe e potencialmente capaz de dificultar que os partidos de oposição que pretendem substituir o atual governo continuem a se esconder atrás do tabu retórico contra a participação de um partido árabe no futuro governo.
Para compreender a profundidade dessa ideia, é preciso começar por um terreno ao qual a maior parte da população judaica quase não tem acesso: as posições e nuances de opinião dentro da sociedade árabe. A pesquisa aprofundada “Integração e Influência”, realizada em maio de 2026 entre cidadãos árabes de Israel pelo Centro Moshe Dayan e pela Fundação Konrad Adenauer, mostra que mais de 70% da população árabe apoia a entrada de um partido árabe na coalizão após as eleições; quase metade está disposta a integrar qualquer governo que venha a ser formado, enquanto cerca de um terço prefere um governo de centro-esquerda. Aproximadamente dois terços apoiam explicitamente uma parceria política árabe-judaica. E o dado mais marcante: cerca de 74% dos entrevistados apontam o combate à violência e à criminalidade como a questão mais urgente, à frente da discriminação institucional, do emprego ou do conflito israelo-palestino. Em termos simples: a sociedade árabe deseja parceria política e quer que essa parceria se traduza, antes de tudo, no combate à violência.
A partir dessa perspectiva, a possibilidade de Segalovitz se juntar ao Ra’am está longe de ser um mero artifício eleitoral. Ela se situa exatamente no ponto em que a demanda árabe por parceria encontra a necessidade concreta de governança e segurança pública. É aqui que entra a dimensão pessoal: ao contrário de muitos políticos judeus que falam à população árabe à distância, quando chegam a fazê-lo, Segalovitz é visto nesse meio como uma figura que já demonstrou resultados concretos. Como ex-oficial de alta patente da polícia e vice-ministro da Segurança Interna no governo Bennett-Lapid, ele liderou o combate à criminalidade na sociedade árabe. Nessa função, formulou, em conjunto com especialistas e prefeitos árabes, um plano que levou a uma redução significativa nos casos de homicídio.
Confiança, porém, não se traduz necessariamente em força eleitoral. As pesquisas iniciais divulgadas logo após a notícia apresentam um quadro complexo: o canal Kan 11 e o jornal Maariv estimaram que a inclusão de Segalovitz não alteraria o número de cadeiras do Ra’am, que permaneceria em quatro, enquanto o Canal 12 projetou um ganho de uma cadeira. Esses números deixam claro que a questão não se resume a “quantos mandatos ele traz”, mas ao tipo de lista e de mensagem política que essa iniciativa pode produzir. É plausível que parte dos eleitores do Ra’am, assim como outros integrantes da sociedade árabe que respeitam Segalovitz, ainda hesitem em apoiar uma lista islâmica pragmática, por razões religiosas, ideológicas ou partidárias. Portanto, a questão central é saber se está se formando aqui um novo modelo político, e não se ele já se manifesta nas pesquisas.
Um partido judaico-árabe não é, em si, uma novidade. O Hadash (Frente Democrática pela Paz e Igualdade) sempre foi uma estrutura árabe-judaica (hoje parte do bloco Hadash-Ta’al) e, ao longo de sua trajetória, manteve uma base ideológica de esquerda e de classe, percebida por muitos setores do centro e da direita como radical e ameaçadora. O Ra’am de Mansour Abbas, que já integrou o governo Bennett-Lapid na primeira participação desse tipo de um partido árabe em uma coalizão de governo, operou de maneira distinta: de forma pragmática e cívica, concentrada em produzir impacto sobre a vida cotidiana, por meio de orçamentos, infraestrutura e serviços públicos, e sobretudo no combate à criminalidade, ao mesmo tempo em que manteve relações com as instituições do Estado, reconhecendo sua importância.
É precisamente aí que reside a novidade: a eventual integração de Segalovitz ao Ra’am poderia produzir, pela primeira vez, uma lista judaico-árabe não baseada em uma ideologia de esquerda radical, mas em uma concepção de parceria funcional, com uma liderança árabe que busca poder governamental e influência prática ao lado de um político judeu de alto nível identificado com o centro institucionalista e com uma visão de segurança pública e governança.
Nesse ponto, a questão deixa de ser apenas interna à sociedade árabe e passa a ser sistêmica para Israel. Até agora, a maioria dos partidos de oposição, com exceção dos Democratas, tem se mantido distante, pelo menos retoricamente, da possibilidade de incluir um partido árabe em uma futura coalizão. A radicalização das posições na sociedade israelense desde 7 de outubro de 2023 transformou essa rejeição em uma espécie de apólice de seguro político para os partidos de centro que procuram atrair eleitores de direita. É fácil manter essa posição durante a campanha, quando o custo se resume a uma declaração; é muito mais difícil sustentá-la quando, após as eleições, é necessário formar um governo com pelo menos 61 cadeiras em um sistema político fragmentado.
É precisamente aqui que a “iniciativa Abbas-Segalovitz” pode alterar as regras declaradas do jogo: não porque apague a identidade árabe do Ra’am, mas porque, caso se concretize, poderá transformá-lo em uma lista mais facilmente enquadrada, aos olhos de setores do centro judaico, como um parceiro legítimo de coalizão: uma lista judaico-árabe que declara reconhecer o Estado de Israel como Estado judeu, apresenta um judeu para o cargo de ministro da Segurança Nacional e concentra sua atuação em questões civis que a própria sociedade árabe define como urgentes.
Justamente por isso, o verdadeiro significado da iniciativa não depende apenas de Segalovitz efetivamente integrar ou não a lista do Ra’am. Mesmo que a proposta não se concretize, e esperemos que se concretize, o simples fato de ter sido colocada sobre a mesa já altera o quadro: expõe a distância entre aquilo que o sistema político judaico continua a dizer sobre a sociedade árabe, retratando-a como desinteressada em parceria e indisposta a assumir responsabilidades, e aquilo que parcelas cada vez maiores da população árabe já dizem sobre si mesmas. Elas querem influência, aspiram à parceria e pedem, antes de tudo, soluções práticas para o combate à violência. A questão verdadeiramente interessante é saber se a política israelense permanecerá prisioneira do modelo antigo, no qual os árabes permanecem na oposição e os judeus explicam que não há alternativa, ou se será capaz de reconhecer o novo modelo de parceria que começa a emergir da realidade complexa no terreno, para o qual as próximas eleições poderão representar o primeiro grande teste.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
Artigos Relacionados
O que o acordo EUA-Irã revela sobre Israel hoje?
26 de junho de 2026
Nesta aula aberta, João Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel, abordou o desenvolvimento histórico das relações entre Israel e o Irã, desde a criação do Estado de Israel até o memorando assinado recentemente. Foram discutidas as transformação das relações após a Revolução Islâmica, o papel do regime dos aiatolás e da causa palestina, as relações comerciais […]
IBI indica! Vem aí a 27ª Festa do Livro da USP
26 de novembro de 2025
De 26 a 30 de novembro, a Universidade de São Paulo (USP) realiza a sua 27ª Edição da Festa do Livro da USP. São milhares de títulos de diversas editoras disponibilizados com grande desconto. Entra as diversas opções, estão os primeiros livros da Coleção livros “A Questão Judaica Contemporânea”, lançada pela Editora Perspectiva em parceria […]
Tensão em Jerusalém: a contagem regressiva pelo fim do Ramadã
23 de abril de 2022
Por Daniela Kresch