Tanto faz – ou quando a morte e o genocídio deixam de nos dizer alguma coisa
Por Karl Schurster
Pós doutor em História pela Universidade Livre de Berlim, pesquisador do CNPq e Assessor do Instituto Brasil Israel
“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.” Poucas aberturas da literatura do século XX produziram tamanho desconforto com tão poucas palavras. Em O Estrangeiro, de Albert Camus, Meursault atravessa a morte da mãe sem oferecer ao mundo os sinais de sofrimento que dele se esperam. Fuma, bebe café, observa o calor, sente sono. Mais tarde, mata um homem. Quando finalmente é julgado, alguma coisa estranha acontece. O tribunal parece julgar também o filho que não chorou no enterro. O crime está diante dos jurados, mas a ausência de luto acompanha Meursault até a sentença.
Talvez “tanto faz” seja a expressão que melhor condensa essa maneira de estar no mundo. Meursault não desconhece a morte, mas ela parece incapaz de produzir nele a diferença moral que os outros esperam. É precisamente isso que torna o personagem tão perturbador. Camus nos coloca diante da difícil pergunta: o que acontece quando a morte de alguém deixa de significar alguma coisa?
É difícil não pensar em Meursault diante da circulação recente de uma velha falsificação negacionista do Holocausto. Nas redes sociais, “271k” foi utilizada nesses últimos dias como senha para sugerir que não teriam sido aproximadamente seis milhões os judeus assassinados pelos nazistas, mas 271 mil. A operação parte da manipulação de uma documentação relativa a certidões de óbito de determinados campos de concentração e a transforma fraudulentamente numa contagem das vítimas do Holocausto. Ficam de fora milhões de pessoas assassinadas em centros de extermínio, fuzilamentos em massa, guetos, deportações, marchas da morte e inúmeros outros lugares da Europa ocupada. O número circula acompanhado de memes, ironias e códigos que convertem o extermínio em matéria de escárnio.
Há algo ainda mais inquietante nessa história do que a falsificação de um número. O negacionismo percebeu há muito tempo que transformar o Holocausto numa disputa aritmética é uma maneira eficiente de retirar dele as pessoas e pela segunda vez, sua humanidade. Discutem-se seis milhões, 271 mil, documentos, somas e porcentagens até que desapareçam os mortos. Conhecer o Holocausto significa compreender que antes de existirem seis milhões de mortos existiram mais de seis milhões de vidas. Havia famílias, escolas, sindicatos, jornais, sinagogas, partidos políticos, clubes esportivos, teatros, lojas, bibliotecas. Havia crianças que chegavam atrasadas à escola, adultos que discutiam política, gente que se apaixonava, adoecia, trabalhava, brigava com os vizinhos e fazia planos para a semana seguinte. O antissemitismo foi destruindo progressivamente a possibilidade dessas vidas continuarem a existir.
Auschwitz representa a expressão mais radical desse processo, não seu ponto de partida. Antes da câmara de gás houve a palavra que classificou, a lei que excluiu, o vizinho que se acostumou, o funcionário que preencheu o formulário, a propriedade tomada, a escola proibida, o emprego perdido, a estrela costurada à roupa, a deportação observada da janela. O assassinato em massa tornou-se possível dentro de um processo no qual a presença judaica foi sendo transformada, pouco a pouco, em algo cuja desaparição podia ser tolerada.
É nesse ponto que o historiador Dan Stone oferece uma advertência importante no recente livro The Holocaust: an unfinished History, ele questiona a imagem excessivamente confortável do “assassinato industrial”. Auschwitz e as câmaras de gás foram reais, evidentemente, mas não podem definir sozinhos a experiência do Holocausto. Centenas de milhares de judeus foram assassinados perto de suas próprias casas, diante de outras pessoas, por pelotões de fuzilamento, colaboradores e vizinhos. Outros morreram de fome, doenças, espancamentos, trabalho forçado e durante deportações. O genocídio foi também local, próximo, desordenado e brutal.
Essa perspectiva muda inclusive a maneira como pensamos a indiferença. Uma “máquina da morte” parece funcionar sozinha. O Holocausto, não. Ele precisou de pessoas. De perpetradores, colaboradores, beneficiários, espectadores e de diferentes graus de acomodação diante da perseguição. Precisou, sobretudo, que a exclusão dos judeus pudesse integrar a normalidade cotidiana de sociedades europeias antes que sua destruição atingisse a escala que hoje associamos a Auschwitz.
Por isso, responder ao “271k” apenas repetindo “seis milhões” é necessário, mas insuficiente. Evidentemente os números precisam ser defendidos porque são resultado de décadas de pesquisa histórica, para além do imperativo ético com as vítimas. O problema começa quando aceitamos disputar o Holocausto exclusivamente no terreno escolhido pelo negacionista. Se seis milhões forem apenas um número, 271 mil será apenas outro. E então a provocação alcançou seu objetivo. A resposta mais profunda está em devolver nomes, lugares, relações e vidas àquilo que o negacionismo procura transformar em contabilidade.
Talvez seja essa a advertência que O Estrangeiro ainda nos permite formular. Uma sociedade começa a correr perigo quando a morte do outro já não interrompe sua normalidade, quando sabemos que alguém desapareceu e a informação não modifica nada em nós. Se foram seis milhões ou 271 mil? Para o negacionista, a pergunta pretende produzir dúvida. Para uma sociedade indiferente, pode produzir algo ainda pior. Tanto faz.
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