Anne Frank na Bienal: a distância que uma opinião não percorre
Karl Schurster
Pós-doutor em História pela Universidade de Berlim, pesquisador do CNPq e assessor do Instituto Brasil Israel
Conta-se que, em 1923, Franz Kafka caminhava pelo parque de Steglitz, em Berlim, quando encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca. Ele poderia ter lhe explicado o óbvio, que bonecas se perdem, que objetos desaparecem, que crianças precisam aprender a conviver com isso, mas optou por um caminho diferente e disse que a boneca havia viajado, que ele, por acaso, era o carteiro encarregado de trazer suas cartas. Durante algumas semanas, escreveu para a menina, narrando as aventuras da boneca pelo mundo; ainda que as cartas tenham desaparecido, a história sobreviveu, recriada por Jordi Sierra i Fabra em Kafka e a boneca viajante.
Há algo de profundamente humano neste pequeno episódio, algo que Kafka sabia e que talvez estejamos desaprendendo: compreender a dor do outro exige, algumas vezes, entrar provisoriamente em seu mundo. A menina sabia que sua boneca desaparecera, e Kafka sabia que bonecas não escrevem cartas; entre uma verdade e outra havia uma experiência que merecia ser compreendida.
A história de Kafka ajuda a pensar na repercussão de um vídeo recente, gravado na Bienal do Livro, no qual uma jovem, perguntada sobre o pior livro que havia lido no ano, mencionou O diário de Anne Frank. Até aí, nenhuma questão, porque livros podem nos entediar, irritar, decepcionar, e os clássicos também. O desconforto surgiu na explicação dada para a booktoker (tiktoker de livros) que realizava a entrevista. Anne, segundo a jovem, seria muito “vítimis…”, frase que ficou suspensa e que as redes sociais trataram de completar depressa, com “vitimista”, “vitimização”, “se fazia de vítima”, até que a própria repercussão virasse uma história sobre quem tem direito de ser chamado de vítima.
Daniele Giglioli afirmou em Crítica da vítima que esta seria “o herói do nosso tempo”. Seu argumento foi construído a partir da percepção da transformação contemporânea da condição de vítima em dispositivo de reconhecimento, identidade e autoridade. O autor italiano procura separar a existência histórica da vítima daquilo que chama de “máquina vitimária”, quando ocupar esse lugar passa a oferecer uma espécie de imunidade moral, uma crítica dirigida à apropriação dessa posição, e não àqueles sobre os quais a violência efetivamente se abateu.
O episódio da Bienal permite virar o problema pelo avesso que é a facilidade com que transformamos o desconhecimento em uma posição protegida, na qual “é minha opinião” tornou-se, em certos ambientes, uma frase capaz de encerrar uma conversa antes mesmo que ela tenha começado. A opinião deixa de ser o resultado provisório de um encontro com o mundo e se transforma em propriedade privada: cada um tem a sua, e qualquer exigência de conhecimento parece então uma invasão de território.
Não se trata aqui da ignorância como ausência de inteligência, muito menos como atributo de uma geração; seria confortável demais culpar os jovens, o TikTok ou a velocidade das redes sociais. A ignorância que interessa é outra, aquela que aparece quando perdemos a capacidade de reconhecer o que ainda precisamos saber para formular um julgamento; o ignorante, nesse sentido, pode até ter lido muito, sem nunca perceber onde termina o próprio repertório.
Anne Frank oferece um caso particularmente perturbador porque seu diário jamais foi escrito para desempenhar o papel que posteriormente lhe atribuímos. Anne escreveu antes de saber que seria personagem da memória do Holocausto. Narrou em seu diário conflitos familiares, sexualidade, medo, expectativas, irritações, sonhos e a experiência progressivamente sufocante da clandestinidade, enquanto a história estreitava brutalmente as possibilidades de seu futuro. Chamá-la de “vitimista” produz então uma inversão perversa, projetando sobre uma menina perseguida pelas leis raciais nazistas, escondida durante mais de dois anos e assassinada em Bergen-Belsen, uma categoria que pertence ao nosso presente. O incômodo, no fim, pertence menos a Anne do que a nós.
Há uma diferença importante entre ignorar alguma coisa e construir uma relação confortável com a própria ignorância. A primeira condição acompanha qualquer experiência humana, já que todos ignoramos infinitamente mais do que sabemos, enquanto a segunda transforma uma limitação em identidade. Quando isso acontece, corremos o risco de nos perceber como vítimas de qualquer exigência de contexto, estudo ou complexidade, como se toda correção fosse censura, todo conhecimento, arrogância, toda discordância, violência, e como se bastasse dizer que apenas “demos nossa opinião” para nos tornarmos inocentes de tudo.
Se a condição de vítima pode oferecer inocência, a ignorância contemporânea também aprendeu a reivindicá-la, e aquele que desconhece passa a exigir que seu desconhecimento seja recebido sem consequências, pouco importa se fala de vacinas, escravidão, ditaduras, Holocausto ou de uma guerra que começou a acompanhar pelas redes sociais na semana passada. O acesso à palavra produziu a ilusão de equivalência entre o direito de falar e a autoridade do que é dito. A democracia depende do primeiro; já a cultura só sobrevive se souber não confundi-lo com o segundo.
Por isso, a resposta à jovem da Bienal tem pouco a ganhar com o escárnio público, e transformá-la em personagem exemplar da estupidez de uma geração apenas reproduziria o mecanismo que pretendemos criticar. Aquele pequeno vídeo expõe uma distância inquietante entre ler as palavras de Anne Frank e compreender a experiência histórica que tornou possível a sua escrita. Podemos atravessar suas páginas e, ainda assim, permanecer do lado de fora.
Kafka fez o movimento contrário. Diante de uma menina que chorava por uma boneca, entrou em seu mundo antes de lhe oferecer uma resposta. Talvez ler comece exatamente aí. Não na obrigação de concordar, admirar ou sentir aquilo que esperam de nós, mas na disposição de reconhecer que existe alguma coisa entre nós e o outro que ainda precisa ser compreendida.
Quando essa distância deixa de nos incomodar, a ignorância encontra um lugar confortável, e sua forma mais perigosa aparece exatamente quando, protegidos pelo direito de ter uma opinião, já não percebemos o quanto somos vítimas dela.
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