EDITORIAL: Um inimigo comum de árabes, negros e judeus
O reconhecimento de que a proteção dos espaços de manifestação política constitui parte do sistema contemporâneo de liberdade de expressão coloca novos desafios para a democracia. Manifestações de grupos com convicções abertamente racistas, xenófobas e antissemitas, como a que ocorreu recentemente nos Estados Unidos, têm causado sérios danos a integrantes de comunidades étnicas e sociais minoritárias. A permissibilidade com que tais discursos são tratados pode ser vista como parte do processo de corrosão da igualdade política e mesmo da integridade, física e moral, das minorias atacadas.
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Na marcha de Charlottesville, além do número considerável de pessoas presentes, chamou a atenção a quantidade de referências que os participantes carregavam consigo: tochas fazendo alusão à KKK (Ku Klux Kan), suásticas, gritos de guerra discriminatórios, bandeiras escravocratas. A ideologia supremacista tomava igualmente como alvo árabes, judeus, negros, gays e outras tantas minorias. É importante que se perceba nos símbolos utilizados os ideais em que neles sobrevivem para que se possa compreender sua função ideológica e política.
Em sociedades multiétnicas, com muitos milhões de pessoas, a organização democrática consiste em discussões e resoluções fluidas, frequentemente sobrepostas e divergentes. Assim sendo, pessoas ou grupos podem assumir múltiplos lugares nos espaços de deliberação e luta política. Nesse sentido, comunidades percebidas a priori e vulgarmente como inimigas (por exemplo, árabes e judeus) têm, na verdade, atributos comuns, podendo atuar em conjunto ao tornarem-se vítimas do mesmo pensamento excludente.
Ao atuar de maneira violenta, impondo uma lógica arbitrária e retrógrada, tais manifestações ratificam e reproduzem preconceitos, racismos e antissemitismos. O enfrentamento a elas deve ser construído em conjunto, envolvendo todas as pessoas e grupos que se sentiram ultrajados.
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