As novas direita e esquerda e a força dos evangélicos no Brasil
Daniela KreschApós três dias de palestras e debates acalorados, terminou nesta quarta-feira (15 de janeiro) o seminário “Política e religião no Brasil e nas Américas: Igrejas evangélicas e suas relações com judaísmo, sionismo, Israel e comunidades judaicas”, realizado em Haifa, Norte de Israel, por iniciativa da Universidade de Haifa, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes (Niej) da UFRJ e do Instituto Brasil Israel (IBI).
No terceiro e último dia, a discussão entre especialistas brasileiros e estrangeiros se tornou mais política, focando na tentativa de definir a “nova direita” e a “nova esquerda” no Brasil e no mundo neste começo de 2020, além de pensar na real força política – inflada ou não – dos evangélicos atualmente.
O Dr. Franco Iacomini, da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro), falou sobre a Teologia Dispensacionalista e como “mitos messiânicos e comunidades imaginadas ameaçam o uso político dos símbolos judeus pelos brasileiros direitistas”. Por dispensacionalismo, entende-se a ideia de que, antes da volta de Jesus Cristo ao mundo físico, haverá sete anos de tribulações, incluindo a batalha do Armagedon.
“Tratei das relações entre igrejas evangélicas, pentecostais, e o uso eventualmente político, inclusive, de símbolos judaicos, um fenômeno recente no Brasil. Tem uma vertentes da teologia, a Dispensacionalista, que é bastante popular, bastante influente entre os meios pentecostais brasileiros, talvez por influência de missionários americanos. Essa teologia acredita que existe uma função para o povo israelita no fim dos tempos”, disse Iacomini. “O fato de o Brasil se alinhar com Israel, simbolicamente faz com que eles entendam o Brasil como um país também debaixo da autoridade de Deus dentro desse nível imaginado. Uma nação alinhada com os planos de Deus”.
Mas, ao contrário de quem pensa que a religiosidade dos evangélicos tem um viés político latente, Iacomini vê manifestações sinceras de religiosidade por trás disso que talvez estejam sendo mal-entendidas. “A força política da população evangélica é uma questão que não está tão clara. Vejo que agora há um alinhamento com o governo, que torna os evangélicos mais ouvidos e mais temidos. Existe uma reação do Brasil tradicional, do Brasil antigo, que pergunta: quem é esse povo que agora está querendo ganhar espaço na política? Por que nós devemos aceitá-los?”.
A Dra. Deborah Hornblas Travassos, da USP, também falou sobre a “Subida da Nova Direita no Brasil: o relacionamento entre a eleição da Jair Bolsonaro e a apropriação dos símbolos judeus e de Israel pelas igrejas neopentecostais”. Ela comentou o fato de que a nova direita é neoliberal em termos econômicos, mas ultraconservadora em termos de liberdades pessoais.
Uma das conclusões foi a de que a nova direita é composta por grupos distintos – religiosos ou não – que se uniram para uma missão específica: derrubar Lula. Depois que conseguiram isso, estariam percebendo suas diferenças.
O professor Paul Freston, da Universidade Wildrid Laurier, no Canadá, concluiu o seminário afirmando que é contraproducente dizer que se trata de irracionalidade o que os evangélicos pensam: “Há um racional interno em tudo isso e se não o entendermos, temos que estudar mais”.
Ele sugeriu que o filossemitimo evangélico atual no Hemisfério Sul representa uma aspiração de branqueamento, de riqueza, de ser parte do Povo Escolhido: “É uma maneira de os evangélicos se tornarem importantes e não atores coadjuvantes no mundo”.
O professor, no entanto, lembrou que o estudo do sionismo cristão e o uso de símbolos judaicos por comunidades evangélicas é um tema novo que existe muito mais atenção: “Temos que pesquisar muito mais. Só não podemos exagerar o papel dos evangélicos na mudança de governo do Brasil. Mesmo onde são fortes, não quer dizer que sejam fortes em todas as áreas da vida nacional”.
Ao fim do seminário, o Dr. Michel Gherman (UFRJ e Universidade Ben Gurion), disse que é preciso pensar em como ir adiante na discussão que começou com o seminário idealizado e apoiado pelo IBI e agradeceu à parceria da Universidade de Haifa.
Rafael Kruchin, coordenador executivo do IBI, encerrou afirmando que símbolos não existem no vácuo. E deixou claro: “No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores esquecem como Israel é um país progressista em questões como aborto, direitos dos LGBTQ e legalização de cannabis medicinal. O que vemos é a substituição por uma Israel imaginária para moralizar a sociedade, transformando os judeus em algo monolítico e sem complexidade. É por isso que nós, do IBI, estamos realizando seminários, palestras e debates, além de apoio para grupos de pesquisa, além de outras atividades focando no mundo judaico e Israel como um todo, com todas as suas nuances“.
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