Parada LGBTQ+ de Jerusalém: tensão e prisões
Daniela KreschTEL AVIV – Foi um alívio. A tensão estava no ar, mas não houve violência extrema da Marcha pelo Orgulho e Tolerância de Jerusalém, que aconteceu na última quinta-feira, 2 de junho. Cerca de 10 mil pessoas participaram do evento, que marcou 20 anos de paradas LGBTQ+ na cidade e sete desde que uma participante, Shira Banki, foi assassinada em uma delas. Shira tinha só 16 anos.
Pouco antes da marcha, a polícia anunciou que havia apreendido um homem do Sul de Jerusalém que havia enviado ameaças anônimas de morte a alguns organizadores e parlamentares progressistas. Ele mandou as ameaças de um perfil chamado “Os irmãos de Yishai Schlissel”, referindo-se ao homem ultraortodoxo que assassinou Shira Banki durante a parada de 2015. A ameaça dizia que os organizadores teriam o mesmo “destino de Shira Banki”.
A intolerância de grupos que não admitem que Jerusalém tenha uma comemoração como essa é enorme. Durante o evento, a polícia ainda prendeu dois suspeitos com gás lacrimogêneo, luvas e cassetetes que aparentemente tentavam chegar à marcha. Fora isso, o movimento de extrema-direita “Lehava” (“Chama”) e outros ativistas conservadores realizaram um contraprotesto no ponto de partida da passeata. Eles levaram cartazes dizendo “Um pai e um pai não são uma família”, “Jerusalém não é Sodoma” e “Chega de terror LGBT”.
“Nos 20 anos em que marchamos em Jerusalém, experimentamos violência e, mesmo em 2022, ainda há quem tente nos expulsar da cidade”, disse Alon Shachar, o CEO da Casa Aberta para Orgulho e Tolerância de Jerusalém, que organiza o evento.
Diante das ameaças, o orador do Knesset, Mickey Levy, decidiu discursar no evento, o que é um precedente: “Nos últimos dias assistimos a uma terrível campanha de incitação contra a comunidade LGBTQ+ que atingiu o auge ontem quando foram enviadas ameaças de morte. Fiquei chocado até o fundo da minha alma com essa incitação selvagem, pela difamação contra a comunidade gay, os xingamentos e as ameaças de morte”, disse Levy.
O ministro da Saúde, Nitzan Horowitz, que é abertamente gay, também discursou: “Ninguém vai nos ameaçar, ninguém vai nos assustar, ninguém vai nos colocar de volta no armário!”, disse ele, acrescentando, no entanto, que, apesar de tudo, a comunidade LGBTQ+ de Israel registrou várias vitórias, nos últimos anos, como permissão para que casais do mesmo sexo e pais solteiros tenham filhos por barriga de aluguel. “Estamos no meio de uma revolução, e temos muito a fazer. Não vamos parar. Haverá mais conquistas e mais passos para a igualdade”.
A luta da comunidade LGBTQ+ de Israel parece uma valsa: dois passos para frente e um para trás. Israel é um país diverso e complexo, com uma enorme população liberal e progressista. Marchas do orgulho são realizadas anualmente em vários locais do país. Tel Aviv realiza a maior delas, sempre com muita animação e aprovação da população. Este ano, ela acontecerá na próxima sexta-feira, 10 de junho. Tel Aviv, aliás, é considerada uma das cidades mais “gay friendly” do mundo.
Mas, por outro lado, também há uma grande população de conservadores e reacionários. Além da hostilidade em Jerusalém – uma cidade cada vez mais religiosa e intolerante –, a marcha do orgulho LGBTQ+ que aconteceria pela primeira vez em Netivot, cidade no Sul de Israel bem próxima à fronteira com a Faixa de Gaza, foi cancelada. Isso porque alguém enviou uma bala (de arma de fogo) à mãe de um dos organizadores. Os rabinos do Netivot haviam se manifestado contra a marcha e pediram aos moradores que fizessem de tudo para impedir o evento “dentro dos limites da lei”.
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