Operação quebra-mar: A atual Guerra desconhecida em Israel
Daniela Kresch
TEL AVIV – Pouca gente sabe, mas Israel está em meio a uma operação de suas forças de segurança: a “Quebra-mar”. Quando uma operação ganha um nome formal, é sinal de que se trata de algo mais sério e que aponta para mais uma escalada nas tensões entre israelenses e palestinos.
A preocupação, agora, é a de que essa escalada se acirre ainda mais durante a próxima temporada de importantes feriados judaicos – que, este ano, começa em 25 de setembro: Rosh Hashaná (Ano Novo judaico), o YomKipur (Dia do Perdão) e Sucot (Festa dos Tabernáculos).
A Operação Quebra-mar começou em março, quando um número de atentados terroristas (190, no total, entre ataques maiores ou menores a civis e militares em Israel e na Cisjordânia) abalou os israelenses, com um saldo de 11 mortos e 27 feridos. Nos meses seguintes (abril até julho), houve outros 800 ataques, com mais 8 israelenses mortos e 23 feridos.
Entre os palestinos, o saldo de mortes chega a 80 desde março, contando com os 49 durante o conflito de três dias entre Israel a o grupo palestino Jihad Islâmica, da Faixa de Gaza (que também ganhou nome oficial: “Operação Alvorada”), e o caso do confronto em Jenin, na Cisjordânia, no qual morreu a jornalista da Al Jazeera Shireen Abu Akleh.
Tudo isso junto aponta para uma tensão em alta. O que os israelenses experimentam é uma série de ataques a conta-gotas. Quase todos os dias, um incidente – maior ou menor – chega às manchetes. Isso leva a uma sensação de insegurança e a um clamor público por uma atuação mais efetiva das forças de segurança. Na experiência dos israelenses, Israel está sob ataque diário e constante.
O caso mais recente aconteceu nesta quinta-feira, 8 de setembro. Foi a prisão por um triz de um palestino de Nablus que estava prestes a cometer um atentado a tiros em Tel Aviv e, por sorte, foi detido por dois policiais em patrulha.
Antes disso, na semana passada, dois palestinos que estavam dentro de um jipe atiraram rajadas de metralhadora contra um ônibus repleto de soldados que estava numa estrada do Vale do Jordão. O motorista foi atingido e está internado em estado grave no hospital. Alguns soldados foram baleados, mas nenhum morreu. Por sorte, os atiradores não conseguiram lançar um coquetel molotov dentro do ônibus. O explosivo pegou fogo dentro do próprio jipe. Os atiradores se queimaram, mas não gravemente. Eles foram presos.
Casos como esses têm acontecido com uma frequência incomum. Em contrapartida, o exército tem lançado incursões a cidades palestinas na Cisjordânia (a Operação Quebra-mar). Pelo menos 1.500 palestinos foram presos, cerca de 30 morreram e dezenas ficaram feridos. Estima-se que uns 80% dos mortos eram combatentes palestinos que estavam armados e entraram em confronto direto com os soldados. Mas houve vítimas civis, como a jornalista da Al Jazeera.
Na experiência dos palestinos, Israel está violando diariamente sua soberania, prendendo e ferindo seus conterrâneos com mais frequência do que o normal. Como sempre, por aqui, as narrativas e as experiências dos dois povos são distintas. Muitas vezes, contrárias.
Em um discurso recente, o comandante do exército, o general Aviv Kohavi, disse que “centenas de ataques terroristas foram evitados” por causa dessas incursões. Kohavi tem criticado abertamente a Autoridade Palestina, de Mahmoud Abbas, por não agir com suficiente força para prevenir os ataques contra Israel, justificando assim as incursões israelenses.
Mas, segundo o jornalista israelense Amos Harel, as ações das forças de segurança acabam realmente ajudando na escalada da violência. Quer dizer: para evitar atentados, o exército entra em cidades palestinas para prender suspeitos apontados pela Inteligência militar. E essas incursões para realizar prisões – nas quais, muitas vezes, o procurado ou alguém não envolvido é morto ou ferido – levam ao planejamento de mais atentados por parte dos palestinos, em vingança.
E mais atentados, tentativas de atentados e alertas de preparação de atentados levam a mais incursões israelenses para prender suspeitos. Um verdadeiro “ciclo de violência”, como chamamos. Infelizmente, nesses casos, nunca sabemos como e quando o ciclo vai terminar.
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