As duas “Nakbas”: Que refugiados sofreram mais?
Daniela Kresch
TEL AVIV – A missão de Israel na ONU lançou uma nova exposição na terça-feira, dia 29 de novembro, na sede das Nações Unidas, em Nova York. Não sobre os 75 anos da Partilha de Palestina, a resolução aprovada em 29 de novembro de 1947 que, no final das contas, abriu caminho para a criação do Estado de Israel, seis meses depois. A exposição tenta contar uma nova narrativa sobre o que aconteceu naquele momento crucial da História.
Trata-se da mostra “Nakba Judaica”, sobre a expulsão de cerca de 850 mil judeus de países árabes e do Irã nos anos 40 e 50 do século passado, começando antes mesmo da criação de Israel, mas se acirrando assim que David Ben Gurion declarou a independência do país.
O nome do evento (“Nakba”, que significa tragédia ou catástrofe em árabe) não foi escolhido por acaso. É, obviamente, uma tentativa de contrapor esse relato pouco conhecido com o que os palestinos chamam de sua “Nakba”: a criação de Israel, quando 700 mil árabes foram expulsos ou fugiram de Israel.
Os dados dão conta de que, em 1948, havia 881 mil judeus morando em nove países árabes (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbano, Egito, Iraque, Síria, Líbano e Iêmen). Na década de 70, esse número havia caído para apenas 25 mil. Isso sem contar a expulsão de dezenas de milhares de judeus do Irã.
O “Dia de Lembrança da Partida e Expulsão dos Judeus dos Países Árabes e do Irã” é uma data também recente e não muito conhecida em Israel, aliás. Só existe desde 2014. Mas há uma tentativa clara das autoridades de estabelecer essa ideia de que não foram apenas palestinos que se tornaram refugiados por causa da criação de Israel. Judeus também tiveram que fugir e deixar tudo para trás, perderam suas comunidades, seus bens e sua dignidade.
A Nakba palestina, sim, é um relato conhecido, principalmente na ONU, que criou uma agência de refugiados particular (a UNRWA) somente para lidar com os refugiados palestinos ao fim da guerra que países vizinhos deslancharam contra o recém-criado Estado Judeu por não concordarem com sua criação (mesmo que ela tenha sido aprovada pela ONU, bem como a criação de um Estado Árabe vizinho, que nunca foi declarado justamente por essa insistência em não aceitar Israel).
Aliás, a Nakba palestina é lembrada anualmente na ONU a cada 30 de novembro. As Nações Unidas são um dos principais fóruns do mundo em que a narrativa palestina é sempre a única lembrada.
É difícil escrever sobre isso porque fica parecendo que se trata apenas de um mimimi de Israel, de competir com a narrativa palestina só para ganhar pontos na guerra midiática entre israelenses e palestinos – a qual, aliás, Israel só perde há décadas. Mas, apesar de existir sim esse lado mimizento de “reclamar” que o mundo só se interessa pelo êxodo palestino, não se pode negar que poucos se importam com o que aconteceu com os judeus mizrahim (orientais) que viviam há milênios no Oriente Médio e Norte da África. Tudo isso poucos anos depois que 6 milhões de judeus (a grande maioria ashkenazitas, europeus) foram dizimados no Holocausto.
Sem querer criar uma competição de refugiados (e existem muitos níveis e aspectos para essa história), acho importante olhar para trás para o terremoto regional que a criação de Israel causou na vida de comunidades judaicas milenares, em processos migratórios pouco estudados. A grande maioria dessas populações buscou refúgio num Israel, que tinha acabado de surgir, e sofreu para se integrar ao país. Um país que tinha só 600 mil pessoas e teve que absorver quase esse mesmo número de imigrantes sem ter nenhuma infraestrutura para isso.
Pode-se discutir a decisão das autoridades israelenses de tentar criar uma equivalência com a Nakba palestina. Mas não se pode negar que os palestinos promovem fortemente sua própria narrativa unilateral na tentativa de buscar apoio internacional, em geral demonizando Israel.
O mais recente exemplo disso é um filme que já está no catálogo da Netflix em diversos países. Trata-se de “Farha”, a estreia do cineasta jordaniano Darin Sallam. Autoridades israelenses condenaram o filme e apelaram à Netflix para que desistisse de distribuir o filme, que chamam de incitação anti-Israel. A obra conta a história de uma menina palestina de 14 anos que testemunha o assassinato de uma família inteira por soldados israelenses em 1948, incluindo duas crianças pequenas e um bebê.
O filme perpetua a narrativa da Nakba palestina, que não se interessa em mostrar absolutamente nenhum aspecto do lado israelense da História. Minha (ingênua) esperança é que a novíssima narrativa da “Nakba” israelense não cometa o mesmo erro.
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