Desafios enfrentados pelas Forças de Defesa de Israel à luz da reforma judicial
21 ago 23

Desafios enfrentados pelas Forças de Defesa de Israel à luz da reforma judicial

Revital Poleg

Revital Poleg

Desde o início da reforma judicial, cujos efeitos já começam a ser sentidos pelo público israelense, o Ministro da Defesa e o Chefe do Estado-Maior alertaram o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sobre os efeitos negativos estarem permeando o exército e prejudicando a atividade militar do país.

Netanyahu, determinado a prosseguir com a reforma, declarou em resposta, em março passado, a demissão do Ministro da Defesa. O protesto espontâneo e gigante que eclodiu de imediato contra essa ação o fez desistir de sua decisão. Porém, a reforma continuou, assim como os danos perigosos e contínuos à competência e à coesão do exército. As repetidas advertências do chefe do Estado-Maior não foram atendidas pelo primeiro-ministro.

Hoje em dia, e do ponto de vista das autoridades de defesa sênior de Israel, uma coisa já é certa: mesmo se a legislação não for concluída, o dano causado ao exército devido à reforma já foi feito e será muito difícil de reparar por um longo tempo.

No momento em que este artigo foi escrito, e de acordo com Nir Dvori, comentarista militar do Canal 12: “As Forças de Defesa de Israel são competentes, mas menos”. Ou seja, se uma guerra estourar no futuro próximo (uma possibilidade sempre levada em consideração por Israel), o exército terá a capacidade e o pessoal para agir de acordo com os padrões mais altos, como sempre. Porém, os danos à competência estão se aprofundando. Embora isso ainda não se reflita na prática, já está sendo considerado nas avaliações da situação e no planejamento das operações, sendo um elemento realista.

Israel, como a maioria de vocês sabe, enfrenta cinco grandes ameaças à sua segurança ao mesmo tempo: Irã, Síria, Hezbollah no Líbano, terrorismo palestino na Cisjordânia e em Gaza e ameaças de terrorismo internas. Manter a competência e a coesão do exército sempre foi um valor primordial e, neste momento, à luz das perigosas consequências da reforma jurídica, que intensificou essas ameaças, é mais importante que nunca – mas, exatamente pelo mesmo motivo, o exército foi prejudicado.

Desde o início da reforma judicial, milhares de reservistas anunciaram que não compareceriam mais ao serviço voluntário de reserva em protesto contra os planos do governo de reformar o judiciário, alegando que os planos do governo estariam transformando o país em uma “ditadura”. “Ao fazer isso”, eles alegaram, “o Estado quebrou o contrato não escrito com seus cidadãos, para seguir os princípios da Declaração de Independência, que são o centro do consenso da sociedade israelense. Baseados neles, todos nós servimos ao Estado com dedicação sob governos de todo o espectro político”. 

Os reservistas militares de diferentes unidades e funções são fundamentais para a capacidade de defesa de Israel e para um senso compartilhado de missão nacional. As preocupações se concentram sobretudo (mas não somente) na força aérea, dada a sua dependência de pilotos reservistas que, em geral, são mais experientes do que seus colegas mais jovens.

Tal situação afeta imediatamente a competência do exército.

Além disso, e conforme publicado na mídia israelense, os soldados e oficiais poderão ficar expostos a ações judiciais do Tribunal Internacional de Justiça. Tal preocupação pareceu pouco plausível até agora, em virtude da reputação e credibilidade internacional da Suprema Corte israelense, que será prejudicada caso as leis de reforma sejam de fato aprovadas.

Durante vários meses, o Ministro da Defesa, o Chefe do Estado-Maior, o Comandante da Força Aérea e outros altos membros da Defesa vêm alertando o Primeiro-Ministro sobre o dano causado ao exército, o declínio da competência, o prejuízo à coesão interna,  os graves efeitos sobre o futuro recrutamento para o serviço militar, e a necessidade premente de suspender a reforma imediatamente, pois isso coloca em risco a segurança nacional. Netanyahu, até agora, escolheu ignorar isso, o que é algo inédito em sua gravidade ao longo da história do Estado de Israel.

Ao mesmo tempo e de forma orquestrada, vários membros da coalizão se expressaram de maneira bastante desrespeitosa em relação aos voluntários da reserva, chamando-os de nomes pejorativos, como “refusivos”, humilhando-os publicamente, embora sejam eles os primeiros a proteger o povo de Israel, incluindo os membros da coalizão, dos quais muitos nem sequer fizeram o serviço militar.

Uma vez que a questão da competência do Exército se tornou um debate público, Netanyahu foi obrigado a reagir. Na semana passada, ele convocou o Ministro da Defesa e o Chefe do Estado-Maior para conversar urgentemente sobre a situação (apesar de já ter recusado várias vezes reunir-se com o chefe de estado-maior que solicitou informá-lo).

A conversa terminou de forma diferente da exigida. Em vez de agir para suspender a reforma, tendo em vista a situação perturbadora e os dados que lhe foram apresentados, Netanyahu criticou o Chefe do Estado-Maior e exigiu que ele mantivesse a competência do exército, quando esse é justamente o desafio que o sistema de defesa está enfrentando, sobre o qual o Chefe do Estado-Maior tem alertando há meses, decorrente da legislação arriscada que Netanyahu está conduzindo por meio de Ministro da Justiça Levin. 

Para quem tinha alguma dúvida quanto ao futuro da reforma, a resposta de Netanyahu ao Chefe do Estado-Maior indicou claramente o rumo que ele está tomando: a reforma jurídica prossegue conforme planejado.

Em resposta à enquete do Canal 12 do dia 19 de agosto – “Quem você acha responsável pela crise no exército?” 57% do público respondeu que é o governo. 31% dos eleitores do Likud responsabilizam o governo pelo ocorrido. À pergunta “Como você classificaria a conduta do primeiro-ministro na crise com o exército?”, 61% do público disse considerar “ruim”. Entre eles eleitores do Likud, 33% também especificaram o desempenho ruim de Netanyahu.

Os resultados falam por si mesmos. Será que vão influenciar Netanyahu? A história mostra que nenhum dos políticos israelenses jamais “lucrou” em qualquer confronto com o chefe do Estado-Maior (que, em todo caso, nunca atingiu esses níveis extremos). Ao longo dos anos, o chefe do Estado-Maior foi sempre considerado uma pessoa estimada e altamente confiável pelo público, e isso também se aplica ao atual chefe do Estado-Maior.

Netanyahu está bem ciente do fato, mas, por enquanto, parece ignorá-lo. Os danos, os quais torcemos para que não ocorram, serão arcados pelo público israelense.

Foto: Flicker/IDF

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