Sobre a barbárie e os custos humanos de uma guerra
Lilia Schwarcz
Passei o final de semana tentando disfarçar a tristeza, assistindo o Mundial se Ginástica Artística de Antuérpia, e vendo um seriado que a cada episódio ficava ainda mais sem sentido. Tudo isso para tentar compensar as imagens de morte e de destruição, resultado da guerra entre Israel e a Palestina.
Sou contra qualquer forma de terrorismo, até mesmo sabendo que essa guerra é assimétrica, com o poderio bélico de Israel sendo muito maior que o Palestino; não começou apenas sábado passado, e que a violência já faz parte do cotidiano que castiga os dois países, mas é pior na Palestina por causa da política segregacionista de Israel. No acumulado da guerra, nesses anos todos, são mais palestinos que morreram do que israelenses. Sofro por todos eles. Sei também que muitos israelenses e palestinos são contra o terrorismo e a favor da paz. O terror é o fim da utopia; não o começo. A história prova que ele leva ao nacionalismo exacerbado e ao fascismo.
O certo é que o terrorismo atacou sem dó a população civil israelense e hoje, nessa segunda de manhã, são os dois lados que lamentam por tantas vidas desperdiçadas. Os números de domingo à noite chegam a mais de 1.100 pessoas. 700 israelenses e 400 palestinos. A grande maioria das baixas em Israel são civis: são até aqui 27 soldados e 23 policiais mortos. De toda maneira, e com certeza, esses números não chegam perto dos políticos sanguinolentos do governo Benjamin Netanyahu. E são números que mudam a toda hora e dizem respeito a vidas roubadas, insisto,dos dois lados. Essa guerra não para e não começou aqui.
O grande ausente da maior parte das discussões políticas é a reflexão sobre o custo humano da guerra. E nessa área não há o que comemorar. E é isso que assistimos nesse final de semana: o verdadeiro caráter obsceno da guerra, como escreveu Peter Brooks, quando a morte de nossos inimigos é altamente desejável — e até moralmente defensável. Repito: para os dois lados. É nessas horas que subtraímos a moral para viver a própria barbárie.
Me perdoem mas ando sem palavras para descrever a barbárie. Não faça parte dela.
Foto: PHhere/Creative Commons
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