Tu biShvat, sobre o humano e a árvores
23 jan 24

Tu biShvat, sobre o humano e a árvores

Prédica da Parashat Bo, feita pelo Rabino Uri Lam em 23 de janeiro de 2024

Há algumas semanas, o instrumentista Daniel Szafran, colega e amigo da minha sinagoga, o Templo Beth-El de São Paulo, me passou uma playlist de canções de Branca Brener, também ela instrumentista, compositora talentosa e professora de música. A Branca compôs seis Canções para a Paz. Uma das canções diz:

Se a sua bala fere, espere; se a sua palavra fere, espere!

Antes de disparar balas e palavras ofensivas, ESPERE!

Balas e palavras ofensivas podem ferir e levar à morte; mas precisam de um gatilho. O gatilho é um sinal. Estamos prontos para reconhecê-lo – e travá-lo a tempo?

Na semana passada foi lida na sinagoga a porção semanal da Torá conhecida como , focada nas três últimas pragas de Deus contra o Egito; e no início do Êxodo do Povo de Israel, que finalmente deixaria a Terra da Servidão em direção à Terra da Liberdade. 

Por mais que Deus desse sinais ao Faraó de que era hora de abrir mão da escravidão, o déspota egípcio – cujo coração teria sido endurecido de propósito por Deus – não reconheceu a gravidade dos sinais e continuou a oprimir o Povo de Israel.

Falando de hoje, nós judeus, comemoramos no próximo dia 25 de janeiro o feriado de Tu biShvat, o Ano Novo das Árvores. Em Israel é inverno; as flores das amendoeiras são o sinal de que o Ano das Árvores começou. 

E no Brasil? Qual é o sinal para se comemorar Tu Bishvat neste ano? O sinal é Israel. O sinal são os reféns em Gaza. Temos que enxergá-los; não podemos esquecê-los. Mas qual é a relação entre eles e as árvores? 

Neste Tu Bishvat, esta deve ser a pergunta: qual é a semelhança entre o ser humano e as árvores? Há quase mil anos, o sábio judeu Rashi se questionou: “Será que uma árvore do campo se assemelha a um ser humano? Então deveria uma árvore ser introduzida no cerco à cidade… e sofrer de fome e sede? (cf. Rashi sobre Deut. 20:19)

Ao lermos esta reflexão, devemos nos lembrar imediatamente dos reféns israelenses. Arrancados de suas casas como troncos de árvores levados para o cativeiro – se não foram mortos, estão sofrendo de fome, sede e todo tipo de crueldade. Foram arrancados na nossa frente, ao vivo pela TV e pelas redes sociais: homens e mulheres, de idosos a bebês.

Como se fossem árvores, estas pessoas não tinham como correr. Por que o bebê Kfir Bibas, que acaba de completar um ano de vida, deveria ter sido levado para os túneis de Gaza como um broto recém germinado e já arrancado da terra? E por que deveria sofrer de fome e sede, assim como seu irmão, sua mãe e mais de 200 outros reféns? Por que alguém faria algo isso com eles? 

Não é pela terra, nem por valores nacionalistas ou históricos. Não é por “antissionismo”. É por ódio aos judeus; é por antissemitismo. Os sinais estão todos lá. A luta do povo palestino por sua autodeterminação é justa; mas não há justificativa para tal nível de crueldade com os indivíduos israelenses. Quem faz isso não quer construir um Estado, mas somente destruir outro.

Como judeus e judias, reconhecemos na nossa história estes sinais de crueldade extrema. Contaremos sobre 7 de outubro e seus desdobramentos aos nossos filhos e filhas, para sempre. 

No entanto, por mais explícitos que tenham sido os sinais de ódio e violência – em vídeos no youtube, comentários em podcasts e artigos nos jornais – estes mesmos sinais permanecem voluntariamente invisibilizados aos olhos de quem nos odeia e vibra ao ver Israel ou o povo judeu sofrer: toda essa gente ao redor do mundo, o Brasil incluído, que sente prazer em ver o povo judeu sofrer e não só os israelenses (cujos habitantes são judeus, muçulmanos e cristãos). Gente de todo arco ideológico – especialmente os extremistas, que se fundem no ódio e se confundem na história, transformando 1933 em 2023. Gente que acha interessante propor boicote às empresas e lojas de judeus para pressionar Israel – e apesar do óbvio, não admitem o quanto repetem os nazistas em suas falas antissemitas.

Neste clima, tem quem diga que, enquanto os reféns não voltarem para casa, não há como celebrarmos Tu Bishvat.

Discordo. Nós comemoramos o Ano Novo das Árvores no momento mais desolador, escuro e frio do ano em Israel. E é justamente em momentos como este que devemos marcar posição em favor da vida, da luz e do calor humano. Se o antissemitismo cresce, devemos protestar, iluminar e esperançar. Não podemos nos deixar abater, nem no sentido literal, tampouco no sentido psicológico e simbólico.

Pelos reféns, temos a obrigação de fazer de tudo para sairmos de outubro de 2023 e irmos para o tempo presente. Só o retorno deles será o sinal de que a Primavera Existencial chegou. Só a volta deles e, em decorrência disso, o cessar-fogo, nos permitirá voltar a ter esperança na existência de uma nova realidade para a região, com os estados de Israel e da Palestina vivendo lado a lado, em paz.

Voltando aos nossos dias, que chegue logo a hora de abraçar, cuidar e fazer de tudo pela recuperação dos frutos das nossas árvores, nossos filhos e filhas, nossos bebês. Que seja o quanto antes; QUEREMOS ELES E ELAS DE VOLTA: AGORA.

Foto: David Clark/Needpix

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