Conflito intratável? Reflexões com base nas perspectivas palestinas
Revital PolegRevital Poleg
Enquanto a necessidade de uma política israelense clara para o “dia seguinte” à guerra em Gaza se torna cada vez mais urgente, torna-se igualmente relevante explorar como a sociedade palestina enxerga a realidade do conflito e as possibilidades de resolução. Em setembro de 2024, foram realizadas várias pesquisas de opinião pública entre palestinos na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza, oferecendo uma visão das percepções e opiniões do público palestino naquele momento. Os resultados dessas pesquisas foram publicados nos últimos dias, reforçando sua relevância e atualidade.
A análise a seguir baseia-se nos resultados de Khalil Shikaki, diretor do Centro Palestino de Pesquisa e Políticas (PCPSR), uma das instituições de pesquisa mais respeitadas e confiáveis da região. Embora seja importante lembrar que as pesquisas capturam atitudes em momentos específicos, elas fornecem insights valiosos e permitem identificar tendências e desenvolvimentos de longo prazo.
É interessante observar, por meio dos resultados, a complexidade interna da própria sociedade palestina. As diferenças nas respostas entre os habitantes da Cisjordânia e os residentes da Faixa de Gaza destacam a disparidade dentro dessa sociedade e mostram como a realidade cotidiana de cada região molda seus padrões de pensamento e atitudes. Essas distinções indicam também necessidades específicas de cada comunidade, que deverão ser consideradas no tão aguardado “dia seguinte”.
A maioria do público palestino (54%) continua vendo o ataque do Hamas em 7 de outubro como justificado, embora esse índice represente uma queda em relação a pesquisas anteriores (72% de apoio em dezembro de 2023 e 67% em junho de 2024). As diferenças entre as duas populações permanecem significativas: enquanto 64% dos habitantes da Cisjordânia consideram o ataque justificado, “apenas” 39% dos moradores de Gaza compartilham dessa visão.
Além disso, 50% do total dos entrevistados acreditam que o Hamas, e não Israel, vencerá a guerra. Aqui também há uma diferença notável entre as populações: apenas 28% dos moradores de Gaza acreditam nessa possibilidade, em contraste com 65% dos habitantes da Cisjordânia. Essa avaliação de quem vive em Gaza representa uma diminuição na confiança na vitória do Hamas, uma vez que, em junho, 48% dos moradores de Gaza acreditavam que o Hamas venceria, e, em março, esse número chegou a 56%. Vale notar que a pesquisa foi realizada antes da morte de Yahya Sinwar, de modo que os efeitos desse evento não estão refletidos nos resultados.
Sob o mesmo resultado que prevê a vitória do Hamas sobre Israel, 57% do total dos entrevistados acreditam que a Faixa de Gaza permanecerá sob controle do Hamas, mas apenas 37% dos habitantes de Gaza acreditam nisso, em comparação com 70% dos entrevistados da Cisjordânia. É interessante observar uma “inversão de posições” nesta questão, com os residentes de Gaza expressando um apoio maior ao controle da Autoridade Palestina e acreditando que essa seria também a preferência pública, enquanto um percentual significativamente menor na Cisjordânia compartilha dessa opinião.
A pesquisa também revela que 70% dos entrevistados se opõem ao retorno da Autoridade Palestina, liderada por Mahmoud Abbas, ao controle da Faixa de Gaza, enquanto apenas 27% apoiam essa possibilidade. Aqui novamente, o nível de apoio entre os residentes de Gaza – 42% – é significativamente mais alto do que entre os moradores da Cisjordânia, onde apenas 17% apoiam essa medida. Também foi registrada uma alta oposição (66%) à possibilidade de implantação de uma força de segurança árabe do Egito e da Jordânia na Faixa de Gaza para auxiliar as forças de segurança palestinas, enquanto 32% apoiaram a ideia.
O apoio à continuação da luta armada permanece como a alternativa preferida pela maioria do público, 48%, embora haja uma leve queda em relação a pesquisas anteriores. Aqui também, observa-se uma diferença significativa entre o apoio à luta armada entre os residentes de Gaza, com 36%, e os da Cisjordânia, com 56%.
E quanto à solução de dois estados para dois povos? Cerca de 65% expressaram oposição à ideia, enquanto 32% a apoiaram. É interessante notar que, nesta questão, o percentual de apoio foi o mesmo tanto entre os participantes da Cisjordânia quanto da Faixa de Gaza. No entanto, isso representa uma queda significativa no apoio a essa solução em comparação com a pesquisa realizada em março deste ano, quando 45% expressaram apoio a essa ideia (34% dos residentes da Cisjordânia e 62% dos habitantes de Gaza).
Os resultados da pesquisa refletem uma realidade preocupante em relação ao horizonte político. Com a radicalização também presente na sociedade israelense sobre a natureza da solução para o conflito após os eventos de 7 de outubro, e especialmente sobre a ideia de uma solução de dois estados para dois povos, pode-se afirmar, com certa precisão, que o conflito israelense-palestino é o que se chama de “conflito intratável”. Será mesmo?
Segundo o psicólogo social professor Daniel Bar-Tal, em seu livro Living with the Conflict, esse termo se refere a situações em que os objetivos, intenções e/ou ações das partes são percebidos como completamente opostos. Sociedades presas em um “conflito intratável”, como israelenses e palestinos, tendem a desenvolver uma infraestrutura psicossocial que as ajuda a lidar com os desafios do conflito e a conviver com ele, mas não a resolvê-lo.
Essa infraestrutura, que pode variar de um lado para o outro, geralmente emerge de tentativas fracassadas de solucionar o conflito no passado, da frustração gerada por esses fracassos, ou de lideranças que se recusam a buscar uma resolução. Além disso, podem existir barreiras ideológicas que impedem qualquer caminho rumo à paz. Conflitos desse tipo costumam ser extremos e violentos e, consequentemente, prolongados. Isso resulta em um acúmulo de hostilidade e ressentimento entre as partes envolvidas.
Com o passar do tempo, cada sociedade absorve essas experiências negativas, o que leva à transmissão intergeracional do conflito. A geração mais jovem adota as posições dos pais, muitas vezes sem conhecer o contexto histórico, o que contribui para a continuidade e até para a radicalização do conflito.
A menos que ocorra uma mudança significativa nas circunstâncias e no espírito de ambas as sociedades, a israelense e a palestina (spoiler: é pouco provável que isso aconteça tão cedo). Ou então, que uma conjuntura internacional surja, exercendo pressão sobre as partes ou oferecendo incentivos suficientes para que ambas sintam que vale a pena integrar um processo de paz, mesmo que de forma relutante (spoiler: essa possibilidade pode ter alguma chance após as eleições nos EUA).
Apesar deste cenário desafiador, escolho encerrar este artigo com uma dose de otimismo. Aqui, em Israel, ao refletirmos sobre o que mais poderia transformar a realidade descrita nas pesquisas, a resposta, na minha visão, é: liderança. Uma liderança corajosa, visionária e comprometida, disposta a assumir riscos, que compreenda que um conflito intratável prejudica, antes de tudo, a própria sociedade israelense. Uma liderança que entenda que não é viável “continuar vivendo pela espada”… É a partir desse entendimento que pode surgir uma verdadeira mudança.
Vimos isso claramente em 1993, com os Acordos de Oslo, assinados poucos anos após uma Intifada sangrenta. Ao marcar o 29º aniversário do assassinato de Itzhak Rabin, sua ausência é sentida ainda mais profundamente. Será que podemos ter outro líder assim? Eu acredito que sim. Isso não acontecerá “amanhã” e não será um “Rabin 2”. Mas acredito que essa liderança surgirá.
E quanto aos palestinos? Será que algo semelhante poderia acontecer entre eles? Quero acreditar e manter a esperança de que sim.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
(Foto: Flickr/GlobalPanorama)
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