Parada LGBTQ+ de Jerusalém: tensão e prisões
03 jun 22

Parada LGBTQ+ de Jerusalém: tensão e prisões

Daniela Kresch

TEL AVIV – Foi um alívio. A tensão estava no ar, mas não houve violência extrema da Marcha pelo Orgulho e Tolerância de Jerusalém, que aconteceu na última quinta-feira, 2 de junho. Cerca de 10 mil pessoas participaram do evento, que marcou 20 anos de paradas LGBTQ+ na cidade e sete desde que uma participante, Shira Banki, foi assassinada em uma delas. Shira tinha só 16 anos. 

Pouco antes da marcha, a polícia anunciou que havia apreendido um homem do Sul de Jerusalém que havia enviado ameaças anônimas de morte a alguns organizadores e parlamentares progressistas. Ele mandou as ameaças de um perfil chamado “Os irmãos de Yishai Schlissel”, referindo-se ao homem ultraortodoxo que assassinou Shira Banki durante a parada de 2015. A ameaça dizia que os organizadores teriam o mesmo “destino de Shira Banki”.

A intolerância de grupos que não admitem que Jerusalém tenha uma comemoração como essa é enorme. Durante o evento, a polícia ainda prendeu dois suspeitos com gás lacrimogêneo, luvas e cassetetes que aparentemente tentavam chegar à marcha. Fora isso, o movimento de extrema-direita “Lehava” (“Chama”) e outros ativistas conservadores realizaram um contraprotesto no ponto de partida da passeata. Eles levaram cartazes dizendo “Um pai e um pai não são uma família”, “Jerusalém não é Sodoma” e “Chega de terror LGBT”.

“Nos 20 anos em que marchamos em Jerusalém, experimentamos violência e, mesmo em 2022, ainda há quem tente nos expulsar da cidade”, disse Alon Shachar, o CEO da Casa Aberta para Orgulho e Tolerância de Jerusalém, que organiza o evento. 

Diante das ameaças, o orador do Knesset, Mickey Levy, decidiu discursar no evento, o que é um precedente: “Nos últimos dias assistimos a uma terrível campanha de incitação contra a comunidade LGBTQ+ que atingiu o auge ontem quando foram enviadas ameaças de morte. Fiquei chocado até o fundo da minha alma com essa incitação selvagem, pela difamação contra a comunidade gay, os xingamentos e as ameaças de morte”, disse Levy.

O ministro da Saúde, Nitzan Horowitz, que é abertamente gay, também discursou: “Ninguém vai nos ameaçar, ninguém vai nos assustar, ninguém vai nos colocar de volta no armário!”, disse ele, acrescentando, no entanto, que, apesar de tudo, a comunidade LGBTQ+ de Israel registrou várias vitórias, nos últimos anos, como permissão para que casais do mesmo sexo e pais solteiros tenham filhos por barriga de aluguel. “Estamos no meio de uma revolução, e temos muito a fazer. Não vamos parar. Haverá mais conquistas e mais passos para a igualdade”.

A luta da comunidade LGBTQ+ de Israel parece uma valsa: dois passos para frente e um para trás. Israel é um país diverso e complexo, com uma enorme população liberal e progressista. Marchas do orgulho são realizadas anualmente em vários locais do país. Tel Aviv realiza a maior delas, sempre com muita animação e aprovação da população. Este ano, ela acontecerá na próxima sexta-feira, 10 de junho. Tel Aviv, aliás, é considerada uma das cidades mais “gay friendly” do mundo.

Mas, por outro lado, também há uma grande população de conservadores e reacionários. Além da hostilidade em Jerusalém – uma cidade cada vez mais religiosa e intolerante –, a marcha do orgulho LGBTQ+ que aconteceria pela primeira vez em Netivot, cidade no Sul de Israel bem próxima à fronteira com a Faixa de Gaza, foi cancelada. Isso porque alguém enviou uma bala (de arma de fogo) à mãe de um dos organizadores. Os rabinos do Netivot haviam se manifestado contra a marcha e pediram aos moradores que fizessem de tudo para impedir o evento “dentro dos limites da lei”.

Artigos Relacionados

<strong>Parceria entre Arábia Saudita e Irã sinaliza novo momento no Oriente Médio</strong>
Parceria entre Arábia Saudita e Irã sinaliza novo momento no Oriente Médio

Calendar icon 20 de março de 2023

Karina Calandrin Historicamente, a relação entre Arábia Saudita e Irã tem sido marcada por tensões e caracterizada por rivalidade, competição e conflitos ocasionais. Essa tensão se deve em parte às suas posições geopolíticas no Oriente Médio, já que ambos os países são grandes potências regionais com influência significativa na região. Entre os fatores que alimentam a rivalidade entre Arábia […]

Arrow right icon Leia mais
Rosh Hashaná e Yom Kippur | 5786/2025
Rosh Hashaná e Yom Kippur | 5786/2025

Calendar icon 15 de setembro de 2025

Bernardo Sorj Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de construir. Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de gemer, e tempo de dançar. Tempo de atirar pedras, e tempo de recolher; tempo de abraçar, e tempo de se separar. Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de […]

Arrow right icon Leia mais
A casa ainda não caiu
A casa ainda não caiu

Calendar icon 22 de abril de 2026

João Miragaya Os judeus construíram, na antiguidade, dois Templos Sagrados no Monte Moriá, em Jerusalém. O primeiro foi supostamente erguido pelo Rei Salomão, no século X AEC. Este templo teria sido destruído pelos babilônios em 536 AEC, no contexto da conquista do reino de Judá e da expulsão dos judeus para a Babilônia. O segundo […]

Arrow right icon Leia mais