Trump, China e o dragão em Tel Aviv
João Torquato
No dia 2 de abril, o mundo acompanhou o anúncio da implementação de novas tarifas sobre produtos importados pelo governo estadunidense e o início do acirramento de uma guerra comercial entre os EUA e a China. Israel, cujo primeiro-ministro se considera um aliado de Donald Trump, sofreu uma taxação de 17% – enquanto a tarifa para o Brasil foi de 10%. Netanyahu correu para a Casa Branca, ao apagar das luzes, para tentar negociar uma diminuição da taxa e ouviu de Trump um “talvez sim, talvez não”, em pleno Salão Oval — uma cena, no mínimo, constrangedora. De todos os países taxados, o principal alvo de Trump foi a China, que demonstrou não temer a medida e também elevou sua própria taxa sobre produtos americanos. É um fato que a China, hoje, é o principal país capaz de bater de frente com os Estados Unidos, especialmente no aspecto tecnológico, com o aumento na produção de carros elétricos e com uma inteligência artificial muito mais barata e acessível do que as desenvolvidas no Vale do Silício. Mas, em um possível avanço chinês para além dos países tradicionalmente aliados, onde Israel entraria nessa história? Qual é o histórico das relações entre os dois países?
As relações entre China e Israel são muito mais profundas do que o senso comum imagina. Os países estabeleceram relações diplomáticas formais em 1992, porém Israel foi o primeiro país do Oriente Médio a reconhecer o governo comunista chinês nos anos 1950. Mesmo antes do início das relações diplomáticas oficiais, China e Israel já haviam criado seus respectivos escritórios de representação em Pequim e Tel Aviv, que atuavam como “embaixadas de fato”. O escritório israelense em Pequim, oficialmente chamado de “Escritório de Ligação da Academia Israelense de Ciências e Humanidades”, foi inaugurado em junho de 1990. No mesmo ano, o governo chinês abriu uma filial do “Serviço Internacional de Viagens da China” em Tel Aviv. Desde então, China e Israel têm aprimorado gradualmente suas relações, que alcançaram um ponto alto com a visita do presidente Jiang Zemin a Israel, em 2000. A parti daí, quatro presidentes israelenses e três primeiros-ministros realizaram visitas oficiais a Pequim, incluindo, mais recentemente, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em março de 2017.
Nas últimas três décadas, os países desenvolveram parcerias em áreas econômicas e tecnológicas, com Washington vendo com maus olhos a cooperação sino-israelense. Segundo dados do Observatório de Complexidade Econômica, em 2023, a China exportou aproximadamente US$ 13 bilhões em produtos para Israel, enquanto Israel exportou US$ 7 bilhões em produtos para a China. De acordo com o China Global Investment Tracker, Israel foi o país que mais recebeu investimentos chineses entre os países do Oriente Médio, de 2015 a 2018. Em fevereiro de 2025, as exportações israelenses para a China atingiram US$ 638 milhões, representando um crescimento de 31,7% em relação ao mesmo mês de 2024, quando o valor exportado foi de US$ 484 milhões. Considerando os últimos cinco anos, o comércio entre os dois países apresentou uma taxa média de crescimento anual de 12,7%. Do lado chinês, o aumento das exportações para Israel foi impulsionado principalmente por automóveis, commodities diversas e ônibus. Já as importações da China provenientes de Israel cresceram, com destaque para circuitos integrados, instrumentos de medição e derivados de fenol. Muitos descrevem a relação entre os dois países como “política fria, economia quente”.
Apesar do crescimento nos números da balança comercial entre os dois países, a relação entre Pequim e Tel Aviv mudou após o brutal ataque terrorista de 7 de outubro de 2023. Lembrando que, antes de o Hamas entrar em Israel e assassinar mais de 1.200 israelenses, Netanyahu tentava (e ainda tenta) dar um golpe na Suprema Corte de Israel, o que levou o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a não receber o premiê israelense em março de 2023. Foi então que Netanyahu anunciou uma viagem para visitar o presidente Xi Jinping, na China. Para Israel, a viagem foi um lembrete a Washington de que existem outras superpotências buscando aprofundar seus laços com o país. Para a China, foi uma oportunidade de aumentar os custos da mudança de foco dos EUA do Oriente Médio para a Ásia, sinalizando que Pequim poderia preencher parte do vazio.
Porém, após o atentado, Ma Xinmin, funcionário do departamento jurídico do Ministério das Relações Exteriores chinês, expôs a posição de Pequim em uma audiência no Tribunal Internacional de Justiça, em fevereiro de 2024: “Na busca pelo direito à autodeterminação, o uso da força pelo povo palestino para resistir à opressão estrangeira e concluir o estabelecimento de um Estado independente é um direito inalienável bem fundamentado no direito internacional”. De modo semelhante, após o ataque do Irã contra Israel — envolvendo uma grande quantidade de mísseis e drones — a China classificou a ação como um “ato de autodefesa”, justificando-a como reação a um bombardeio israelense contra uma instalação diplomática iraniana em Damasco. Em conversa com o ministro das Relações Exteriores do Irã após o ocorrido, o chanceler chinês Wang Yi declarou: “O Irã sabe administrar bem a situação”. Ou seja, em vez de a China buscar construir um processo de paz, combater a radicalização e ecoar vozes que buscam a coexistência, seja em Israel ou em Gaza, Pequim classifica o assassinato de centenas de inocentes, incluindo mulheres e crianças, como “autodefesa”.
Apesar do giro político e de empresários israelenses relatarem uma mudança de percepção após 7 de outubro, os números mostram que ambos os países continuam cooperando um com o outro. Israel pode ajudar a China em seu principal desafio atual: a demanda por supercondutores para a fabricação de chips, um fator que limita o desenvolvimento tecnológico chinês em relação a outros países do Ocidente. Trump, que se diz aliado de Israel e instrumentaliza o país e os judeus para limpar a imagem dos supremacistas brancos e antissemitas de seu governo, mostrou que não é um aliado confiável de Israel e joga o país à própria sorte. Por isso, hoje é mais que fundamental que Israel tenha um governo democrático, humanista e que assuma o controle de seu futuro econômico.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Wikimediacommons
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