Cinco anos depois, para onde vão os Acordos de Abraão?
08 set 25

Cinco anos depois, para onde vão os Acordos de Abraão?

Revital Poleg

Revital Poleg

Há cinco anos, em 15 de setembro de 2020, no gramado da Casa Branca, estabeleceu-se um marco dramático no Oriente Médio: os Acordos de Abraão. O presidente Donald Trump mediou a iniciativa que levou à assinatura, por parte do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, do ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos e do ministro das Relações Exteriores do Bahrein, de acordos de paz entre as partes. Pouco tempo depois, também foram formalizados acordos de normalização de Israel com Marrocos e Sudão. Esses acordos não foram apenas mais um documento diplomático, mas sim um verdadeiro ponto de inflexão regional, amplamente descritos como transformadores da realidade.

Por outro lado, não se pode ignorar a tempestade provocada pelos recentes debates no governo de Israel sobre a anexação de partes da Cisjordânia, nem o duro alerta transmitido pelos Emirados Árabes Unidos tanto a Netanyahu quanto a Trump sobre o futuro dos acordos e sobre a ameaça que paira sobre sua continuidade, assim como sobre as tentativas do presidente dos EUA de ampliá-los. Uma medida de anexação – como deixaram claro os emiradenses – seria, a seus olhos, a ultrapassagem de uma “linha vermelha” impossível de tolerar e poderia levar ao desmantelamento dos Acordos de Abraão. 

Pode-se afirmar que os Acordos de Abraão representam o principal feito diplomático de Trump e Netanyahu até agora – o avanço mais significativo no processo político no Oriente Médio em mais de três décadas, desde o acordo de paz com a Jordânia. Diferentemente dos acordos de paz bilaterais assinados com o Egito, em 1979, e com a Jordânia, em 1994 – ambos países inimigos à época e vizinhos de Israel -, os Acordos de Abraão possuem caráter regional: foram firmados com países que não compartilham fronteiras com Israel e, ao contrário dos modelos anteriores, não houve guerras entre as partes. Pelo contrário, relações de segurança e econômicas já vinham ocorrendo, em diferentes formatos, discretamente e ao longo de anos.

Além do imenso potencial econômico gerado para todas as partes, esses acordos possibilitaram a primeira inserção de Israel como parte integrante do espaço do Oriente Médio e estabeleceram uma nova estrutura para o desenvolvimento de uma integração de segurança regional sob patrocínio americano, destinada a servir como barreira e dissuasão contra o Irã e seus aliados. No plano palestino – ainda que os acordos não incluíssem qualquer compromisso para a resolução do conflito -, eles apontaram para um potencial de reconciliação histórica com respaldo regional.

O que de fato foi definido, e constituiu condição central para a assinatura, foi a exigência dos Emirados Árabes Unidos: o compromisso de Israel de não anexar partes da Cisjordânia. Agora paira um temor concreto de que essa condição possa ser rompida.

Enquanto autoridades israelenses afirmam que o compromisso era “limitado no tempo” e que sua validade “já expirou” – uma formulação que, na melhor das versões, soa como uma desculpa frágil -, altos representantes dos Emirados enfatizam que a anexação contradiz o espírito do acordo de paz entre os países.

Como as intenções de anexação de Israel impactarão o futuro dos Acordos de Abraão? Na análise dos riscos em pauta, vale recordar o primeiro acordo de paz: Camp David, entre Israel e Egito. Apenas três anos e três meses após sua assinatura, eclodiu a Primeira Guerra do Líbano, que gerou tensão significativa entre os dois países, a ponto de levantar dúvidas sobre a sobrevivência do acordo. Como isso o afetou? Por um lado, não foi rompido; por outro, a guerra acabou por endurecer o acordo e criar uma situação de estagnação: permaneceu estável, porém congelado. O imenso potencial do Acordo de Camp David acabou se transformando em uma “paz fria”, que preservou a estabilidade e os interesses políticos e de segurança básicos no âmbito do status quo, mas bloqueou qualquer avanço em outras áreas. Será esse também o destino dos Acordos de Abraão? Não é certo.

Nos cinco anos que se seguiram, os Acordos de Abraão demonstraram ser um modelo bem-sucedido, gerando em pouco tempo inúmeras cooperações em diferentes áreas e projetos, contatos diretos entre pessoas e empresas, além das relações oficiais entre os países, incluindo a instalação recíproca de embaixadas. Se os acordos forem abalados, as consequências serão ainda mais abrangentes do que o teste enfrentado pelo Acordo de Camp David com o Egito, podendo causar um dano irreversível à visão de integração regional. Mais ainda, também Egito e Jordânia poderão se ver diante de um dilema inédito.

O alerta dos Emirados é ainda mais significativo, pois foi o primeiro país árabe a condenar o ataque de 7 de outubro, manteve canais abertos com Israel durante todo o conflito e até mesmo trabalhou em conjunto com o governo israelense em um plano para o “dia seguinte”. Em muitos aspectos, Israel se encontra agora diante de uma escolha crucial: anexação ou integração regional.

A disputa diplomática, como de costume em Israel, é muito mais complexa. Diante da mensagem dos Emirados, autoridades em Jerusalém tentam explicar que a intenção de anexação atual não está desvinculada do contexto, mas constitui uma resposta à iniciativa franco-saudita de reconhecimento unilateral de um Estado palestino e à conferência internacional sobre o tema, prevista para 22 de setembro, em paralelo à Assembleia Geral da ONU. 

Para o ministro de extrema-direita Bezalel Smotrich, que lidera a iniciativa e para quem a anexação é a missão de sua vida, o reconhecimento unilateral de um Estado palestino é uma excelente oportunidade de concretizar sua visão: há anos ele prega pela retirada oficial dos Acordos de Oslo e, agora, segundo ele, França e Arábia Saudita “fazem o trabalho por ele”. Nesse sentido, enfatiza: “um passo unilateral será respondido com um passo unilateral”. Para ele, a questão não é se anexar, mas quanto, já que o próprio calendário político é determinado pela movimentação esperada na ONU.

Os Estados Unidos, por sua vez, atuam em paralelo em vários níveis. Perante a possibilidade de declarações na ONU sobre o reconhecimento unilateral de um Estado palestino, o governo Trump cancelou os vistos de entrada de altos dirigentes palestinos, incluindo Mahmoud Abbas, afirmando tratar-se de uma medida para conter a iniciativa que poderia comprometer futuras negociações políticas. Em resposta ao alerta dos Emirados, o secretário de Estado destacou que uma eventual anexação da Cisjordânia ainda não é decisão definitiva, mas sim um tema ainda em debate em setores do governo israelense, acrescentando que o reconhecimento unilateral de um Estado palestino apenas agravaria o cenário e forçaria Israel a reagir.

Nas pesquisas de opinião pública em Israel, o apoio à criação de um Estado palestino está em nível historicamente baixo, tendência que se intensificou ainda mais após o 7 de outubro. Já em 18 de julho de 2024, a Knesset aprovou, em uma decisão declaratória inédita e com maioria de 68 parlamentares, sua oposição ao reconhecimento unilateral de um Estado palestino e rejeitou qualquer imposição internacional quanto ao acordo final. A decisão também estabeleceu que a criação de um Estado palestino no coração da Terra de Israel constitui uma ameaça existencial ao Estado e a seus cidadãos, perpetua o conflito e desestabiliza a região. Ressaltou-se ainda que tal medida poderia levar o Hamas a assumir o controle do Estado palestino, transformando-o em uma base de terror apoiada pelo Irã, funcionando como um “prêmio ao terror” após o massacre de 7 de outubro.

E onde está Netanyahu em todo esse cenário?

Ciente do desafio que tem pela frente, Netanyahu já adiou duas vezes uma reunião de governo sobre a aplicação da soberania, embora discussões sobre o tema estejam ocorrendo em diferentes fóruns da estrutura governamental. Não há dúvida de que ele também tem plena consciência do peso da ameaça europeia caso a anexação se concretize: uma série de sanções econômicas e de outras naturezas, significativas e dolorosas, que vão afetar gravemente Israel e toda a sua população. Ainda assim, isso não o levou até agora a se pronunciar diretamente sobre o assunto. Os embaixadores dos países europeus que pretendem reconhecer unilateralmente um Estado palestino não escondem sua frustração diante da falta de atenção do governo israelense a seus alertas.

Hoje, está claro que Netanyahu está mais preocupado com a ameaça dos Emirados Árabes Unidos de cancelar os Acordos de Abraão do que com as sanções europeias. Esses acordos ocupam um lugar de destaque em sua herança política, e sua anulação – em tão pouco tempo desde a assinatura, justamente quando o potencial de expansão está sobre a mesa – seria para ele um golpe severo. O que prevalecerá? Esta é uma questão em aberto. Até agora vimos que o futuro da “cadeira” se sobrepõe a qualquer outra consideração. Será também desta vez?

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Flickr/WhiteHouse

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