Cinco anos depois, para onde vão os Acordos de Abraão?
Revital PolegRevital Poleg
Há cinco anos, em 15 de setembro de 2020, no gramado da Casa Branca, estabeleceu-se um marco dramático no Oriente Médio: os Acordos de Abraão. O presidente Donald Trump mediou a iniciativa que levou à assinatura, por parte do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, do ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos e do ministro das Relações Exteriores do Bahrein, de acordos de paz entre as partes. Pouco tempo depois, também foram formalizados acordos de normalização de Israel com Marrocos e Sudão. Esses acordos não foram apenas mais um documento diplomático, mas sim um verdadeiro ponto de inflexão regional, amplamente descritos como transformadores da realidade.
Por outro lado, não se pode ignorar a tempestade provocada pelos recentes debates no governo de Israel sobre a anexação de partes da Cisjordânia, nem o duro alerta transmitido pelos Emirados Árabes Unidos tanto a Netanyahu quanto a Trump sobre o futuro dos acordos e sobre a ameaça que paira sobre sua continuidade, assim como sobre as tentativas do presidente dos EUA de ampliá-los. Uma medida de anexação – como deixaram claro os emiradenses – seria, a seus olhos, a ultrapassagem de uma “linha vermelha” impossível de tolerar e poderia levar ao desmantelamento dos Acordos de Abraão.
Pode-se afirmar que os Acordos de Abraão representam o principal feito diplomático de Trump e Netanyahu até agora – o avanço mais significativo no processo político no Oriente Médio em mais de três décadas, desde o acordo de paz com a Jordânia. Diferentemente dos acordos de paz bilaterais assinados com o Egito, em 1979, e com a Jordânia, em 1994 – ambos países inimigos à época e vizinhos de Israel -, os Acordos de Abraão possuem caráter regional: foram firmados com países que não compartilham fronteiras com Israel e, ao contrário dos modelos anteriores, não houve guerras entre as partes. Pelo contrário, relações de segurança e econômicas já vinham ocorrendo, em diferentes formatos, discretamente e ao longo de anos.
Além do imenso potencial econômico gerado para todas as partes, esses acordos possibilitaram a primeira inserção de Israel como parte integrante do espaço do Oriente Médio e estabeleceram uma nova estrutura para o desenvolvimento de uma integração de segurança regional sob patrocínio americano, destinada a servir como barreira e dissuasão contra o Irã e seus aliados. No plano palestino – ainda que os acordos não incluíssem qualquer compromisso para a resolução do conflito -, eles apontaram para um potencial de reconciliação histórica com respaldo regional.
O que de fato foi definido, e constituiu condição central para a assinatura, foi a exigência dos Emirados Árabes Unidos: o compromisso de Israel de não anexar partes da Cisjordânia. Agora paira um temor concreto de que essa condição possa ser rompida.
Enquanto autoridades israelenses afirmam que o compromisso era “limitado no tempo” e que sua validade “já expirou” – uma formulação que, na melhor das versões, soa como uma desculpa frágil -, altos representantes dos Emirados enfatizam que a anexação contradiz o espírito do acordo de paz entre os países.
Como as intenções de anexação de Israel impactarão o futuro dos Acordos de Abraão? Na análise dos riscos em pauta, vale recordar o primeiro acordo de paz: Camp David, entre Israel e Egito. Apenas três anos e três meses após sua assinatura, eclodiu a Primeira Guerra do Líbano, que gerou tensão significativa entre os dois países, a ponto de levantar dúvidas sobre a sobrevivência do acordo. Como isso o afetou? Por um lado, não foi rompido; por outro, a guerra acabou por endurecer o acordo e criar uma situação de estagnação: permaneceu estável, porém congelado. O imenso potencial do Acordo de Camp David acabou se transformando em uma “paz fria”, que preservou a estabilidade e os interesses políticos e de segurança básicos no âmbito do status quo, mas bloqueou qualquer avanço em outras áreas. Será esse também o destino dos Acordos de Abraão? Não é certo.
Nos cinco anos que se seguiram, os Acordos de Abraão demonstraram ser um modelo bem-sucedido, gerando em pouco tempo inúmeras cooperações em diferentes áreas e projetos, contatos diretos entre pessoas e empresas, além das relações oficiais entre os países, incluindo a instalação recíproca de embaixadas. Se os acordos forem abalados, as consequências serão ainda mais abrangentes do que o teste enfrentado pelo Acordo de Camp David com o Egito, podendo causar um dano irreversível à visão de integração regional. Mais ainda, também Egito e Jordânia poderão se ver diante de um dilema inédito.
O alerta dos Emirados é ainda mais significativo, pois foi o primeiro país árabe a condenar o ataque de 7 de outubro, manteve canais abertos com Israel durante todo o conflito e até mesmo trabalhou em conjunto com o governo israelense em um plano para o “dia seguinte”. Em muitos aspectos, Israel se encontra agora diante de uma escolha crucial: anexação ou integração regional.
A disputa diplomática, como de costume em Israel, é muito mais complexa. Diante da mensagem dos Emirados, autoridades em Jerusalém tentam explicar que a intenção de anexação atual não está desvinculada do contexto, mas constitui uma resposta à iniciativa franco-saudita de reconhecimento unilateral de um Estado palestino e à conferência internacional sobre o tema, prevista para 22 de setembro, em paralelo à Assembleia Geral da ONU.
Para o ministro de extrema-direita Bezalel Smotrich, que lidera a iniciativa e para quem a anexação é a missão de sua vida, o reconhecimento unilateral de um Estado palestino é uma excelente oportunidade de concretizar sua visão: há anos ele prega pela retirada oficial dos Acordos de Oslo e, agora, segundo ele, França e Arábia Saudita “fazem o trabalho por ele”. Nesse sentido, enfatiza: “um passo unilateral será respondido com um passo unilateral”. Para ele, a questão não é se anexar, mas quanto, já que o próprio calendário político é determinado pela movimentação esperada na ONU.
Os Estados Unidos, por sua vez, atuam em paralelo em vários níveis. Perante a possibilidade de declarações na ONU sobre o reconhecimento unilateral de um Estado palestino, o governo Trump cancelou os vistos de entrada de altos dirigentes palestinos, incluindo Mahmoud Abbas, afirmando tratar-se de uma medida para conter a iniciativa que poderia comprometer futuras negociações políticas. Em resposta ao alerta dos Emirados, o secretário de Estado destacou que uma eventual anexação da Cisjordânia ainda não é decisão definitiva, mas sim um tema ainda em debate em setores do governo israelense, acrescentando que o reconhecimento unilateral de um Estado palestino apenas agravaria o cenário e forçaria Israel a reagir.
Nas pesquisas de opinião pública em Israel, o apoio à criação de um Estado palestino está em nível historicamente baixo, tendência que se intensificou ainda mais após o 7 de outubro. Já em 18 de julho de 2024, a Knesset aprovou, em uma decisão declaratória inédita e com maioria de 68 parlamentares, sua oposição ao reconhecimento unilateral de um Estado palestino e rejeitou qualquer imposição internacional quanto ao acordo final. A decisão também estabeleceu que a criação de um Estado palestino no coração da Terra de Israel constitui uma ameaça existencial ao Estado e a seus cidadãos, perpetua o conflito e desestabiliza a região. Ressaltou-se ainda que tal medida poderia levar o Hamas a assumir o controle do Estado palestino, transformando-o em uma base de terror apoiada pelo Irã, funcionando como um “prêmio ao terror” após o massacre de 7 de outubro.
E onde está Netanyahu em todo esse cenário?
Ciente do desafio que tem pela frente, Netanyahu já adiou duas vezes uma reunião de governo sobre a aplicação da soberania, embora discussões sobre o tema estejam ocorrendo em diferentes fóruns da estrutura governamental. Não há dúvida de que ele também tem plena consciência do peso da ameaça europeia caso a anexação se concretize: uma série de sanções econômicas e de outras naturezas, significativas e dolorosas, que vão afetar gravemente Israel e toda a sua população. Ainda assim, isso não o levou até agora a se pronunciar diretamente sobre o assunto. Os embaixadores dos países europeus que pretendem reconhecer unilateralmente um Estado palestino não escondem sua frustração diante da falta de atenção do governo israelense a seus alertas.
Hoje, está claro que Netanyahu está mais preocupado com a ameaça dos Emirados Árabes Unidos de cancelar os Acordos de Abraão do que com as sanções europeias. Esses acordos ocupam um lugar de destaque em sua herança política, e sua anulação – em tão pouco tempo desde a assinatura, justamente quando o potencial de expansão está sobre a mesa – seria para ele um golpe severo. O que prevalecerá? Esta é uma questão em aberto. Até agora vimos que o futuro da “cadeira” se sobrepõe a qualquer outra consideração. Será também desta vez?
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Flickr/WhiteHouse
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