Um novo começo
David DiesendruckNo Judaísmo, costumamos dizer que coincidências não acontecem por acaso. Neste ano, a libertação de reféns em Gaza ocorreu no período em que celebramos Simchat Torá, a festa que marca o fim e o reinício do ciclo anual de leitura da Bíblia judaica.
Ao encerrar o ciclo, lemos o relato da morte de Moisés às portas da Terra Prometida. Depois de libertar seu povo do Egito, atravessar o deserto por quarenta anos e receber os Dez Mandamentos, ele não pôde concluir sua missão entrando na terra. O mesmo ocorreu com outros líderes: o rei David não construiu o Templo, Herzl não viveu para ver o Estado de Israel. Como explica o pensador israelense Micah Goodman, o sentido da liderança, nesses casos, não está em concluir a obra, mas em garantir que a próxima geração tenha forças e convicção para avançar. Não completar não é fracassar; é legar.
Logo em seguida, ao reiniciar o ciclo, lemos a criação do ser humano “à imagem e semelhança de Deus”. Um paradoxo, já que Deus não tem imagem. Quando Moisés pergunta Seu nome, a resposta é: “Serei o que serei.” Como interpreta o rabino Jonathan Sacks, se Deus transcende a natureza e é livre, então ao criar o ser humano à Sua imagem nos deu também liberdade, escolha e responsabilidade. Somos chamados não apenas a existir, mas a criar e a transformar inclusive a nós mesmos.
Essas duas leituras, lidas lado a lado, ganham novo significado diante dos acontecimentos destes dias. Elas nos lembram que a história é feita de começos e recomeços, de projetos que atravessam gerações e de uma liberdade que traz consigo responsabilidade. A libertação dos reféns quase na mesma data do sequestro e no mesmo momento em que fechamos e reabrimos o rolo da Torá nos lembra que a dor pode abrir espaço para novos inícios.
Este deve ser o nosso chamado agora: usar o cessar-fogo em Gaza não apenas como um alívio temporário, mas como uma oportunidade de reacender, no espírito da nossa tradição, a busca por nossa história, valores e identidade judaica. Um novo ciclo começa — a pergunta é como escolheremos escrevê-lo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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