Trump, Riad e Gaza: o tabuleiro estratégico de Israel
10 nov 25

Trump, Riad e Gaza: o tabuleiro estratégico de Israel

Revital Poleg

Revital Poleg

A brisa do outono que sopra nestes dias ameniza um pouco o calor intenso do verão e os ventos de guerra que marcaram nossa região nos últimos dois anos – e até bem recentemente. Isso ocorre em meio ao cessar-fogo com o Hamas, frágil e desafiador como é, e ao retorno para casa da maioria dos reféns – os vivos para a reabilitação e os mortos para o sepultamento – o que nos permite respirar um pouco mais aliviados, olhar adiante e ter esperança. Sim, esperança de mudança.

Com a iniciativa de Trump para encerrar o conflito em pauta, juntamente com a expansão prevista dos Acordos de Abraão e o aprofundamento da cooperação regional, Israel se depara com uma oportunidade estratégica concreta, portadora de potencial para uma virada positiva na realidade do Oriente Médio, ainda que complexa e longe de ser perfeita. A iniciativa é liderada por Trump, que não está disposto a aceitar um “não” como resposta de nenhuma das partes envolvidas.

Trump – por suas próprias razões – tem pressa. Por um lado, isso é preocupante: ele raramente se detém nos detalhes e não costuma aprofundar-se nas complexidades e riscos que podem determinar se uma iniciativa diplomática terá sucesso ou fracassará. Como diz o provérbio conhecido, o diabo está nos detalhes.

Por outro lado, talvez seja justamente a motivação obstinada e o estilo exuberante do presidente americano, que não se prende às regras convencionais da diplomacia, o que se faz necessário para impulsionar uma verdadeira mudança regional: sacudir sistemas há anos presos em um círculo vicioso, remover a poeira de paradigmas antigos e exigir das partes uma cooperação voltada à implementação de uma nova visão regional com amplas implicações globais – da qual elas próprias serão as primeiras beneficiárias.

Mesmo o observador mais experiente, que acompanha de perto a variedade de movimentos políticos, de segurança e econômicos que se desenrolam neste momento sob a liderança americana, encontra dificuldade em não se surpreender com o ritmo das transformações e com o número crescente de atores envolvidos.

Assim, por exemplo, e tendo em vista a expectativa de expansão dos Acordos de Abraão, realizou-se dias atrás uma cúpula de energia e política, liderada pelos Estados Unidos e com a participação de Israel, Chipre e Grécia, que discutiu um plano para a criação de um corredor de energia e infraestrutura destinado a contornar os houthis pelo Sul e os iranianos pelo Norte, estendendo-se a partir do Leste, através da Arábia Saudita e de Israel, até Chipre, Grécia e Europa. Haverá desdobramentos, inclusive em outros temas.

Também recentemente, Trump anunciou a adesão do Cazaquistão aos Acordos de Abraão – o maior país muçulmano da Ásia Central. Embora Israel mantenha relações diplomáticas sólidas com o Cazaquistão há três décadas, e sob esse aspecto sua adesão não represente uma mudança substancial nos vínculos bilaterais, sua inclusão nos Acordos de Abraão reforça o eixo pró-Ocidente na disputa contra a influência iraniana na Ásia Central, à qual Rússia e China podem vir a se alinhar. 

Não se pode descartar a possibilidade de que, nos próximos dias, outros países venham a aderir aos Acordos de Abraão.

Mas, os desdobramentos mais significativos ocorrerão em Washington nessas próximas duas semanas. O primeiro deles é a visita do presidente da Síria, Ahmad al-Sharaa, que pode ser considerada histórica, pois é a primeira vez que um presidente sírio visita a Casa Branca. Desse encontro é plausível supor que surjam sinais de disposição, por parte do novo presidente sírio – que, até cerca de dez meses atrás, era classificado como terrorista – para unir-se à coalizão internacional contra o ISIS, aceitar em princípio a assinatura de acordos de segurança com Israel e declarar sua intenção de aderir aos Acordos de Abraão. É de se esperar, evidentemente, que tais entendimentos venham acompanhados de incentivos americanos.

A visita mais significativa de todas ocorrerá em meados de novembro, quando o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, chegará a Washington. Em pauta, um acordo de defesa mútua entre os dois países. Bin Salman está particularmente interessado em incluir no pacto a compra dos caças F-35, as aeronaves de combate mais avançadas dos Estados Unidos, e em obter acesso à tecnologia americana para o desenvolvimento de um programa nuclear civil.

Vale lembrar que o Congresso americano estabeleceu por lei o compromisso de preservar a vantagem militar qualitativa de Israel, garantindo-lhe superioridade tecnológica e tática em relação aos países vizinhos. Sob o governo Trump, porém, esse compromisso legal foi, na prática, ignorado nas negociações com Riad.

Será anunciada a normalização durante a visita? É improvável que haja uma declaração tão abrangente. Basta recordar que as recentes declarações de Netanyahu – especialmente aquela que expressa seu compromisso com a “Terra de Israel completa” – e sua firme recusa em aceitar a criação de um Estado palestino provocaram uma forte reação na Arábia Saudita, que declarou de forma inequívoca não haver espaço para concessões nesse ponto, além de ter afirmado publicamente: “Conversem conosco depois que trocarem de governo – e, sobretudo, de primeiro-ministro.”

Ainda assim, essa não é toda a história. Um acordo de normalização completo não virá tão rapidamente, mas é provável que haja um início de processo nesse sentido, com foco inicial em medidas econômicas limitadas.

Para Netanyahu, a normalização com a Arábia Saudita representa o auge de suas aspirações diplomáticas. Embora ainda não se saiba o que resultará da visita a Washington, ele já se prepara para algum tipo de anúncio proveniente de lá – que será apresentado como um importante êxito (com certa razão), alcançado com o apoio de Trump. 

Todas as suas manobras políticas atuais concentram-se em limpar o terreno de “minas políticas”, como a lei do alistamento dos ultraortodoxos ou outras legislações draconianas destinadas a restringir a oposição e a sociedade civil, abrindo caminho para o acordo com Riad, que poderá ajudá-lo a garantir mais uma vitória nas próximas eleições.

Em segundo plano, continuarão Gaza e a Cisjordânia – que, para Netanyahu, representam sobretudo uma “dor de cabeça” monumental, repleta de obstáculos políticos e ideológicos, tratadas por ele quase exclusivamente através da lente militar e de segurança. Mesmo um acordo com a Arábia Saudita, ou com outros países que venham a se juntar aos Acordos de Abraão não eliminará o problema; ao contrário, tornará ainda mais premente a necessidade de sua solução. É uma questão complexa, repleta de riscos concretos, mas inevitável.

É importante lembrar que a segurança não se constrói apenas pela força militar, mas também depende de iniciativas políticas, como a integração regional, que reduzem os incentivos à violência e elevam o custo de reacender o conflito. Durante décadas, o Oriente Médio permaneceu prisioneiro da crença de que a paz decorre da segurança, e não o contrário. A experiência dos últimos anos demonstra que essa concepção não funciona. A espera por “condições ideais” ou por uma “vitória total” apenas aumentou a instabilidade.

Agora, é preciso inverter a equação: a segurança deve ser coletiva, e a integração regional pode ser o motor para criar as condições da paz. 

Como disse Herzl: se você quiser, não será um sonho.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.


Foto: WikimediaCommons

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