Entre Teerã, Washington e Jerusalém: para onde caminha a crise no Irã
13 jan 26

Entre Teerã, Washington e Jerusalém: para onde caminha a crise no Irã

Revital Poleg

 

A onda de protestos que atinge o Irã desde o final de dezembro não constitui mais uma irrupção pontual de descontentamento econômico ou político do tipo que o regime iraniano soube, no passado, conter, reprimir e reconduzir à normalidade. Ainda que seja prematuro afirmar com certeza que se trata de uma ameaça concreta à própria sobrevivência do regime, os padrões de atuação que se desdobram diante do público e da comunidade internacional apontam claramente para algo mais profundo e grave: a liderança da República Islâmica está agindo a partir de uma percepção de luta pela sobrevivência e de pressão extrema, e não como quem administra uma crise pontual e passageira.

Diferentemente de ondas anteriores de protestos, o padrão atual de resposta do regime não se concentra apenas na restauração da ordem pública ou na repressão de focos isolados de manifestação, mas reflete uma tentativa de lidar com o acúmulo de pressões estruturais de longo prazo, econômicas, sociais e políticas, que limitam sua capacidade de absorver protestos recorrentes ao longo do tempo, ainda mais quando se trata de uma mobilização tão intensa quanto a atual. Essas pressões se agravaram no contexto da guerra de doze dias, ocorrida em junho de 2025, e colocaram à prova a resiliência do sistema político e de segurança do Irã diante de abalos internos.

Nesse contexto, os acontecimentos recentes no Irã podem, em retrospecto, revelar-se um ponto de inflexão, ainda que, neste momento, não seja possível avaliar seus desdobramentos. Eles podem aprofundar o confronto entre forças que buscam uma mudança revolucionária e defensores da ordem existente, dispostos a preservá-la a qualquer custo, ou, alternativamente, desencadear uma dinâmica política distinta, cujas características e implicações ainda são difíceis de medir. De todo modo, pode-se afirmar com cautela que o Irã se encontra atualmente em uma fase sensível de instabilidade interna, cujos efeitos podem ter conexão também com o cenário regional mais amplo.

A mobilização atual cruza fronteiras setoriais e geográficas de maneira incomum. Ela não se concentra em um único grupo social nem em uma reivindicação específica, mas expressa uma efervescência ampla que envolve comerciantes e donos de lojas, caminhoneiros, estudantes, regiões periféricas e minorias étnicas. A combinação entre uma penúria econômica existencial, marcada por inflação extrema, colapso da moeda a níveis sem precedentes e escassez de água e energia, e uma oposição política profunda gera um protesto que não busca ajustes pontuais, mas questiona a própria base de legitimidade do regime.

Em uma medida drástica destinada a tentar sufocar os protestos e dificultar a organização de manifestações, o regime cortou, há poucos dias, o acesso à internet em todo o país. Essa ação teve também o objetivo de reduzir ao máximo a exposição dos acontecimentos e a dimensão da crise perante o mundo, com especial atenção aos Estados Unidos e a Israel, que acompanham os eventos com elevada vigilância, e de permitir ao regime dos aiatolás continuar a agir com extrema violência contra seus próprios cidadãos. Segundo informações admitidas até o momento pelas autoridades iranianas, ao menos dois mil manifestantes foram mortos, muitos deles com menos de 30 anos, incluindo também vítimas menores de idade. Estimativas de fontes de inteligência israelenses consideram que o número real de mortos é substancialmente mais elevado.

 

Após uma noite particularmente sangrenta, marcada pela divulgação de imagens de mortos e de familiares em prantos, o regime organizou uma manifestação de apoio, divulgando nos canais estatais imagens de marchas em várias províncias do Irã, com milhares de participantes empunhando bandeiras da República Islâmica, clamando por “solidariedade nacional” e dirigindo insultos a Israel e aos Estados Unidos. Ainda assim, a iniciativa não foi suficiente para conter a mobilização, e os protestos seguem em curso.

 

Passadas mais de duas semanas de manifestações em dezenas de grandes cidades iranianas, torna-se claro que o entrelaçamento de fatores econômicos, políticos e de segurança produziu um evento excepcional para o regime dos aiatolás desde sua fundação. De um lado, uma economia em crise sem precedentes, marcada por corrupção profunda que ampliou o abismo entre a população e a elite governante. De outro, um golpe severo nos pilares da segurança nacional do Irã em decorrência da guerra de doze dias, somado a danos significativos infligidos por Israel a seus principais aliados regionais, além de isolamento internacional crescente e da ameaça concreta de um novo conflito. Esses fatores, em conjunto, aprofundaram a perda de legitimidade do regime aos olhos do público.

 

Como de costume, também desta vez o regime iraniano acusa os Estados Unidos e Israel de incitar a população, vinculando os protestos atuais a declarações feitas por Israel e pelo presidente Trump durante a guerra, e apresentando os acontecimentos como uma continuação direta daquele confronto. Assim, ambos os lados veem na guerra um ponto de inflexão, ainda que, evidentemente, a partir de perspectivas completamente distintas.

Nesse cenário, o regime iraniano encara sua resposta aos acontecimentos como uma luta pela própria sobrevivência, razão pela qual considera legítimos todos os meios. À medida que os dias passam e a dimensão das mortes perpetradas pelo Estado contra seus próprios cidadãos se torna mais clara, aproxima-se a decisão americana quanto à forma de reagir. O leque de opções à disposição de Trump é amplo, variando entre um ataque militar simbólico ou de maior envergadura, ofensivas cibernéticas severas ou o endurecimento das sanções, o que certamente levaria a um agravamento substancial da situação econômica. Na visão americana, qualquer passo adotado deve conduzir a um desfecho claro e evitar o arrastamento para uma guerra prolongada, algo que contraria a abordagem de Trump. Ainda assim, apesar das ameaças iranianas de que, em caso de ataque, responderá contra Israel, bases americanas na região e com o fechamento do Estreito de Hormuz, cada uma das opções em discussão em Washington representa um risco mais grave para o regime do que aquele colocado pelos manifestantes internos.

Não é surpreendente, portanto, que se observe uma tentativa iraniana de deslocar a crise para o terreno diplomático em relação ao governo americano. O que está claro é que o momento decisório está muito próximo. Nos últimos dias, o ministro das Relações Exteriores do Irã manteve contato direto com o enviado do presidente Trump, Steve Witkoff, e propôs retomar as negociações entre os dois países sobre a questão nuclear. Trata-se, na prática, da última carta de que os iranianos dispõem para evitar uma escalada, mas ela está condicionada à aceitação da exigência americana de cessação total do enriquecimento de urânio, o que, na prática, significa o encerramento do programa nuclear, além de medidas adicionais destinadas a restringir as ações malignas do Irã, incluindo a ameaça representada por seus mísseis.

A aceitação dessas condições, às quais o Irã se opôs no passado, seria interpretada pelo líder supremo como uma humilhação difícil de suportar. Por outro lado, caso ele decida avançar com a proposta, à semelhança de seu antecessor Khomeini, que buscou salvar o regime, isso representaria um golpe duro para a sociedade iraniana, que se animou com as declarações de apoio de Trump e alimentou a esperança de que ele viesse em seu socorro.

Estaria o Irã realmente disposto ao diálogo? Israel sustenta de forma clara e inequívoca que se trata de uma manobra tática iraniana. Isso porque, se o regime estivesse de fato interessado em um avanço diplomático real, seria mais provável que atuasse por canais confidenciais, longe dos holofotes. A exposição pública da iniciativa, o momento escolhido e a ligação direta estabelecida entre os protestos, a repressão interna e os sinais diplomáticos levam o sistema de segurança israelense a avaliar que o objetivo principal dessa iniciativa é ganhar tempo, reduzir a pressão e conter uma escalada americana em um momento particularmente sensível.

Trata-se de momentos críticos em qualquer escala, e o que está claro é que Israel precisa estar preparada para a possibilidade de um contra-ataque direcionado contra si – e, de fato, já vem se preparando para isso, tanto no plano militar quanto no civil.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

 

 

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