Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: a memória está se tornando um ritual e o ódio, uma realidade?
Revital PolegRevital Poleg
Como acontece todos os anos desde que o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 27 de janeiro, são realizados em todo o mundo numerosos eventos e cerimônias que marcam a data. Coroas de flores são depositadas, discursos oficiais são proferidos e declarações de caráter estatal ecoam nos parlamentos sob o lema “Nunca Mais”.
A data foi criada com um objetivo claro: não apenas lembrar o passado, mas educar para o futuro, a fim de evitar a repetição das atrocidades. Todos os 193 Estados-membros da ONU apoiaram a resolução por consenso e sem votação, comprometendo-se a marcar a data, desenvolver programas educacionais, rejeitar o negacionismo e combater o antissemitismo em todas as suas formas. No papel, trata-se de um compromisso universal e impressionante; na prática, o último ano e meio revelou um abismo profundo entre as declarações oficiais e a realidade.
Sob o verniz institucional da memória, desenrola-se um processo preocupante. O ano de 2025, recém-encerrado, entrou para o registro como um dos períodos mais graves de manifestações antissemitas na diáspora desde o fim da Segunda Guerra Mundial, não apenas pelos números, mas sobretudo pela natureza e pela diversidade dos episódios de ódio. Não se trata de um antissemitismo reativo e passageiro, mas de um ódio autônomo e normalizado, que encurta de forma perigosa o caminho entre palavras e atos.
Segundo dados da Organização Sionista Mundial, o número de incidentes antissemitas físicos aumentou em relação a 2024, incluindo agressões, atentados contra sinagogas, assédios a comunidades judaicas e ataques a instituições judaicas. Vinte pessoas foram assassinadas em incidentes antissemitas em todo o mundo, quinze delas no massacre ocorrido durante a celebração de Chanucá em Sydney, na Austrália.
Mas, os números não contam toda a história. A própria natureza do ódio mudou.
O 7 de outubro de 2023 marcou um ponto de inflexão também no antissemitismo global. Além das sete frentes militares e diplomáticas, abriu-se uma nova frente: as redes sociais, um espaço que não apenas reflete o ódio, mas o amplifica. Diferentemente de ondas anteriores, o discurso disseminado não se dirige apenas ao Estado de Israel, mas aos judeus enquanto judeus, fenômeno particularmente visível em 2024 nos campi universitários dos Estados Unidos.
Já nos anos 2000, Natan Sharansky formulou o “Teste dos 3D” – demonização, deslegitimação e duplo padrão – como ferramenta para distinguir crítica legítima de antissemitismo. Hoje, porém, esse arcabouço mostra-se insuficiente, como observa a Dra. Rachli Baretz, ex-chefe do Departamento de Combate ao Antissemitismo da Organização Sionista Mundial.
Pesquisa recentemente conduzida na Universidade de Ariel aponta um dado alarmante: ao mesmo tempo em que se observa uma queda de 31,1% no discurso antissemita “politicamente vinculado” – ou seja, menor uso de slogans como Free Palestine, From the River to the Sea ou Genocide -, cresce de forma acentuada o discurso antissemita explícito e violento, com aumento de 100% a 275% em insultos, ameaças e linguagem de desumanização. Menos slogans, mais ódio cru.
A mudança mais profunda ocorre no eixo do tempo. Em 2025, o discurso antissemita manteve crescimento contínuo nas redes sociais, mesmo sem eventos externos que o desencadeassem, indicando que o antissemitismo passou a existir como fenômeno autônomo. Assim, mesmo durante negociações para a libertação de reféns, uma questão de natureza eminentemente humanitária, o ódio online seguiu praticamente inalterado.
O abismo entre a retórica do “Nunca Mais” e as políticas adotadas não se resume à hipocrisia política. Trata-se de um problema estrutural. Instituições internacionais encarregadas, entre outras atribuições, de combater o antissemitismo – a ONU, os tribunais internacionais e outros organismos ligados ao “sistema onusiano” – transformaram-se, na prática, em arenas de ataques unilaterais a Israel, por vezes em linguagem que ultrapassa a crítica legítima e ecoa padrões antissemitas conhecidos. Essa dinâmica contribui para a deslegitimação de Israel e para a normalização do antissemitismo em escala global, em contradição com os próprios princípios da ONU.
Além disso, os Estados comprometeram-se com ações concretas – e não apenas com cerimônias simbólicas. Na prática, porém, a maioria limita-se a rituais, sem políticas públicas efetivas nem mecanismos de responsabilização.
Para onde isso nos leva? O futuro pode seguir por dois caminhos.
No cenário pessimista, as tendências atuais se consolidam: o ódio torna-se socialmente aceitável, a deslegitimação de Israel se aprofunda e comunidades judaicas tornam-se mais vulneráveis. O “Nunca Mais” esvazia-se e transforma-se em retórica sem ação.
Nesse contexto, futuras gerações podem crescer em um mundo no qual o antissemitismo integra o panorama social e midiático; judeus ocultam sua identidade em campi e locais de trabalho; consideram emigrar de países antes seguros; e israelenses receiam ser identificados como tais no exterior. Isso já não é uma distopia: é uma realidade presente em partes da Europa, da Austrália e até dos Estados Unidos.
O cenário mais otimista exige o reconhecimento de que o antissemitismo não é apenas um problema judeu, mas um teste à própria democracia liberal. Esse caminho requer ações coordenadas: legislação contra bots e discursos de ódio, pressão sobre plataformas digitais e programas educacionais que enfrentem o antissemitismo contemporâneo, não apenas o histórico.
Trata-se, porém, de um desafio particularmente complexo, uma vez que as próprias redes sociais operam segundo uma lógica de economia da atenção, na qual conteúdos polarizadores e extremistas impulsionam engajamento e tráfego. Além disso, atores políticos têm, não raro, interesse direto na manutenção de redes de bots, que funcionam como instrumentos de disputa em outros embates políticos.
Na semana do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a pergunta central não é apenas se lembramos, mas se agimos. A resposta diz respeito não só ao mundo judeu, mas à integridade moral da sociedade humana como um todo.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Wikimecommons
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