O anjo da história e Teerã: reflexões a partir do abrigo
Revital PolegAs sirenes em minha cidade, Kfar Saba, sobem e descem, cortando o ar uma após a outra, numa frequência com a qual é difícil se acostumar. Dentro do abrigo, os telefones celulares rasgam o silêncio com aquele som estridente e alarmante que se tornou a trilha sonora de nossas vidas nos últimos dias. Mais de 35 alertas em menos de 48 horas, no momento que escrevo estas linhas. Os estrondos das interceptações, ora abafados e distantes, ora próximos e arrepiantes em sua intensidade, são o lembrete mais concreto e doloroso de que entramos novamente em um ciclo de confronto direto com o Irã, desta vez em uma escala e intensidade inéditas.
Ao longo do dia, sem interrupção, a sociedade israelense permanece atenta a cada atualização, enquanto o espaço público e a imprensa produzem um fluxo contínuo de análises e interpretações. Trata-se de uma dinâmica característica do debate público em Israel, especialmente em momentos de crise, que facilmente se converte na tentação de antecipar cenários, interpretar desdobramentos previstos e, já neste estágio inicial, desenhar o contorno de um “novo Oriente Médio” para o período que se seguirá ao fim desta guerra. Aqui, no silêncio tenso do abrigo, entre paredes de concreto, torna-se ainda mais evidente a necessidade de sobriedade diante das projeções e certezas prematuras.
O acontecimento que vivenciamos nestes dias tem profundo significado histórico e geopolítico, podendo revelar-se uma das transformações mais significativas que nossa região conheceu desde o colapso da “ordem antiga” estabelecida após a Primeira Guerra Mundial. É preciso reconhecer que o regime terrorista de Teerã ocupa posição central no eixo global de radicalismo e violência. Durante décadas, o regime conduziu uma política externa agressiva e subversiva, promoveu capacidades militares e estratégicas destrutivas, sobretudo o avanço em direção a uma capacidade nuclear militar, e ampliou sua presença em diferentes arenas regionais por meio de proxies regionais, enquanto consolidava internamente um sistema de medo e repressão contra seus próprios cidadãos. Esses movimentos corroeram a estabilidade do sistema regional, agravaram tensões internacionais e colocaram Israel diante de uma ameaça existencial direta.
Diante de uma ameaça persistente e crescente, desenvolve-se agora uma operação militar, política e comunicacional multidimensional e sem precedentes em sua escala, liderada pelos Estados Unidos em plena coordenação e cooperação com Israel. Desde sua concepção, trata-se não apenas de uma iniciativa de contenção militar, mas de um movimento mais amplo que atinge diretamente as estruturas de poder do regime iraniano e declara como objetivo criar as condições para que o próprio povo iraniano possa promover uma mudança de regime.
Ainda assim, mesmo quando a ofensiva americano-israelense avança com considerável intensidade operacional e estratégica, permanece difícil avaliar como esse processo se traduzirá em uma estrutura estável e sustentável no terreno, e qual será o custo total da turbulência atual.
A história do Estado de Israel nos ensina a ter cautela diante da euforia perigosa da ideia de uma “solução rápida e conclusiva”. Em junho de 1967, na Guerra dos Seis Dias, celebramos uma vitória militar extraordinária em três frentes simultaneamente. Naquele momento culminante, contudo, não atentamos para o preço político, moral e ético de longo prazo que acompanharia a ocupação e moldaria, em grande medida, as décadas seguintes. Em contraste, em 1973, na Guerra do Yom Kippur, vivenciamos um abalo nacional doloroso e sangrento, sem imaginar que justamente da ruptura e do sofrimento se abriria o caminho para um acordo de paz histórico com o Egito.
Hoje, quando os Estados Unidos lideram uma operação militar multidimensional junto a Israel, com o apoio de uma coalizão regional inédita que inclui Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito e Jordânia, devemos ter cuidado para não nos deixarmos novamente conduzir pelo slogan da “vitória absoluta”, cunhado por Benjamin Netanyahu após os acontecimentos de 7 de outubro. A campanha em Gaza já evidenciou o abismo entre o slogan e a complexidade estratégica da realidade. Uma vitória militar, por mais impressionante que seja, não substitui uma estratégia política clara e viável.
Aqui convém recorrer à imagem do “anjo da história”, do filósofo Walter Benjamin. Em sua concepção, a história não é um processo linear de progresso contínuo, mas um espaço tenso em que momentos de avanço e de catástrofe entram em tensão. O anjo mantém o olhar voltado para o passado, enquanto uma força poderosa o impele para o futuro. Trata-se de um alerta: nem todo movimento para frente conduz necessariamente à reparação.
Essa distinção é crucial para o debate atual. Uma operação militar ampla, por mais justificada que seja, não garante estabilidade política nem mudança de regime. Se o objetivo é permitir ao povo iraniano moldar uma nova liderança, tal transformação precisa nascer de dentro, e não ser imposta de fora. A questão central é se as iniciativas dos Estados Unidos e de Israel criam as condições para isso ou se apenas desmontam a estrutura existente sem alterar os fundamentos sobre os quais ela se sustenta. Sem mudança estrutural profunda, mesmo um êxito militar significativo pode resultar em uma realidade em que o avanço não se traduza em correção, e o passado continue a ditar o futuro.
Em outras palavras: a queda do regime em Teerã realmente produzirá a “oportunidade de uma geração”, como promete o presidente Trump, e permitirá ao povo iraniano assumir o controle de seu destino, ou apenas aprofundará as crises internas e dará origem a uma nova forma de autoritarismo? A experiência americana no Iraque e no Afeganistão recorda que bombas podem destruir infraestruturas e eliminar líderes, mas não são capazes de criar, do nada, uma alternativa política organizada.
Nestes dias, enquanto a guerra ainda está em curso, é prudente manter uma atitude de sobriedade. A nova realidade geopolítica que se desenha diante de nós é um terremoto cujas implicações ainda estão longe de se revelar em sua totalidade. Quem se apressa em traduzir os acontecimentos em slogans simplificadores corre o risco de perder de vista sua complexidade. Nosso dever, como aqueles que têm interesse vital na neutralização da ameaça representada pelo regime iraniano e que vivem nesta região intrincada, é formular perguntas difíceis sobre o “dia seguinte” e reconhecer que, mesmo quando a ameaça imediata diminui, a história não começa do zero.
A única coisa que se pode afirmar com segurança neste momento é que esses acontecimentos serão vistos de forma diferente com o distanciamento do tempo. Somente então saberemos se de fato se abriu uma oportunidade para uma mudança estável ou se estamos diante de mais um capítulo na tensão permanente entre passado e futuro.
Enquanto isso, seguimos vivendo aqui, entre uma sirene e outra, na esperança de que da turbulência surja não apenas uma vitória militar, mas também um futuro mais livre e digno para o povo iraniano, além de um novo horizonte regional.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Essa imagem foi gerada por inteligência artificial.
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