A guerra no Irã como laboratório para uma (des)ordem mundial multipolar
Revital PolegEnquanto os tomadores de decisão nas principais capitais mundiais acompanham com preocupação o turbilhão estratégico cujo fim ainda não se vislumbra e tentam compreender a direção da campanha americano-israelense contra o Irã, surge uma questão ainda mais inquietante: estaria ocorrendo diante de nossos olhos um “Big Bang” que redefinirá as relações de poder globais no século 21? Sob qualquer perspectiva, o mundo encontra-se agora mergulhado no “vórtice”, aquele redemoinho estratégico que atrai interesses conflitantes, alianças frágeis e grandes economias.
A atual guerra contra o Irã é muito mais que um conflito regional: é o “laboratório” no qual se testa a ordem mundial multipolar. Não seria exagero afirmar que esta é uma das campanhas globais mais significativas da nossa geração, na qual se testa a capacidade do governo Trump de alcançar supremacia econômica e tecnológica decisiva por meio da derrota do eixo autocrático que tenta minar a hegemonia americana.
A isso soma-se o sentimento de impotência de muitos dos aliados mais próximos dos Estados Unidos diante das manobras de Trump e dos processos decisórios da administração, vistos como impulsivos e incapazes de levar em conta os efeitos de repercussão globais. Informações provenientes de conversas reservadas entre líderes do G7 pintam um quadro preocupante de erosão da confiança no principal aliado. Entre os líderes, do Canadá e do Japão à Alemanha e ao Reino Unido, impera a ansiedade diante de uma dinâmica em que, apesar da relutância dos países em se envolver ativamente na guerra, o vórtice estratégico pode tragá-los involuntariamente em decorrência de desenvolvimentos no terreno que escapam ao seu controle. Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, observa que os líderes testemunham processos nos quais a dinâmica operacional passa a ditar a realidade política, e não o contrário.
Deve-se lembrar que a campanha começou a partir de uma avaliação estratégica conjunta entre Trump e Netanyahu quanto à capacidade de enfraquecer decisivamente o regime iraniano. Para Israel, a motivação inicial era clara e existencial: a remoção da ameaça nuclear e balística, combinada com a aspiração de promover uma mudança de regime em Teerã como um passo que permitiria alcançar um objetivo máximo de segurança. Trump, por sua vez, apresentou a campanha em termos retóricos de proteção ao povo americano e de eliminação das ameaças iranianas acumuladas ao longo de décadas, tentando aproveitar o ponto de fraqueza do regime iraniano – uma intenção que rapidamente se transformou em uma declaração aberta de intenção de derrubar o regime.
Em retrospecto, percebe-se que tanto Israel quanto os Estados Unidos subestimaram significativamente a determinação e a obstinação do regime iraniano e sua capacidade de resistência.
A consciência iraniana de sua inferioridade diante da força combinada de Estados Unidos e Israel levou Teerã a deslocar o peso de sua resposta, de forma calculada, para uma guerra econômica focada em energia, através do bloqueio do Estreito de Ormuz. Para executar tal manobra, o Irã nem sequer precisa de uma marinha forte; bastam mísseis terra-mar de alta qualidade, capacidades de minagem e drones capazes de explodir contra os petroleiros que aguardam na fila, suficientes para paralisar o mercado energético mundial. Paralelamente, o Irã realiza ataques diretos contra os países do Golfo – um movimento que o próprio Trump admitiu tê-lo surpreendido. Esses desenvolvimentos foram o que levou, entre outros fatores, os Estados Unidos e Israel a reverem a retórica sobre a mudança de regime, passando a se contentar em criar as condições que permitam ao próprio povo iraniano concretizar o processo de transição.
O impacto já é visível na prática: a cadeia de suprimentos global está travada, com um “engarrafamento internacional” de mais de 3.000 navios no Estreito de Ormuz, uma rota marítima crítica para o comércio global de petróleo. Essa situação impõe um desafio dramático, primordialmente aos Estados Unidos, não apenas em relação ao Irã, mas também no contexto de sua disputa entre grandes potências. Apesar das avaliações iniciais da administração americana de que o Irã não conseguiria perturbar significativamente o fluxo comercial no estreito, a realidade mostra que Teerã passou a controlar, na prática, quem pode atravessar a passagem, forçando potências como a Índia a estabelecer acordos urgentes com Teerã apenas para garantir a passagem dos petroleiros de que dependem.
O bombardeio americano das instalações militares na Ilha de Kharg, em resposta aos desdobramentos no Estreito de Ormuz, elevou o nível da guerra, colocando os Estados Unidos diante do “eixo contrário”, liderado por China e Rússia. Enquanto a China mantém, por ora, um silêncio ensurdecedor, apesar do dano potencial aos seus interesses energéticos (cerca de 15% do seu petróleo provém de Kharg), a Rússia já está ativamente envolvida na guerra, fornecendo ao Irã informações de inteligência sobre ativos militares dos Estados Unidos. Para Putin, o objetivo é desgastar o Ocidente e forçá-lo a desviar recursos críticos da frente de guerra na Ucrânia para o Oriente Médio.
E como tudo isso afeta Israel e os objetivos da guerra?
Embora a questão do petróleo preocupe principalmente os Estados Unidos e represente, em grande medida, um desvio do foco da campanha para Israel, os dois objetivos definidos como ameaças existenciais permanecem vigentes: o arsenal de mísseis balísticos e a questão nuclear. A destruição do sistema de mísseis está sendo tratada de forma sistemática, mas ainda está longe de ser decidida, e, acima de tudo, permanece aberta a questão nuclear: a localização e o confisco de cerca de 440 kg de combustível nuclear enriquecido armazenados em instalações subterrâneas na região de Isfahan – um passo que exigirá uma participação americana ativa e de liderança. Esse descompasso entre o interesse econômico-energético americano e o interesse existencial-estratégico israelense tende a tornar o vórtice ainda mais complexo.
Cerca de duas semanas e meia após o início da guerra, a administração americana compreende que tanto a continuação dos combates quanto a retirada acarretam riscos graves. Por um lado, a manutenção da campanha pode elevar os custos econômicos e agravar as tensões com aliados, além das críticas dentro dos EUA, a maioria dos quais já respondeu negativamente ao apelo de Trump para se juntarem à defesa dos estreitos ou apoiarem a presença de forças americanas em solo iraniano. Por outro lado, uma retirada neste momento poderia deixar nas mãos do Irã capacidades militares significativas, sobretudo um estoque de urânio enriquecido quase em nível de armamento nuclear.
Além disso, caso a guerra se prolongue nas próximas semanas, o conflito deverá afetar a visita planejada de Trump à China no final do mês. Uma visita que originalmente deveria tratar de comércio e segurança pode transformar-se em um campo de disputa em torno da questão do petróleo e das tensões entre potências, que seguem se intensificando.
Trata-se de uma encruzilhada que pode levar Trump a tomar decisões cruciais, oscilando entre cenários que vão desde o arrastamento para uma guerra prolongada devido à dificuldade de resolver o problema do Estreito de Ormuz; uma decisão unilateral de Trump de encerrar a guerra sob uma declaração de vitória, o que, na prática, deixaria sobre Israel a continuidade da ameaça iraniana; um cessar-fogo mútuo decidido pelas próprias partes, o que permitiria adiar temporariamente a ameaça iraniana em função de sua relativa fragilidade militar e dar a Israel um fôlego para recuperação; ou a queda do regime em circunstâncias difíceis de prever agora. O que está claro é que não existe aqui uma opção simples ou isenta de consequências, e que o privilégio de decidir por uma “saída do jogo”, que os Estados Unidos possuem, não está disponível para Israel.
É exatamente aqui que se exige de Israel uma compreensão estratégica da magnitude do momento: a transição de uma percepção de alvo ameaçado que reage com força para o status de um ator central que participa do desenho de uma nova arquitetura regional. O objetivo não pode se limitar apenas à queda da República Islâmica, mas sim à preparação do terreno para o retorno da nação iraniana como um Estado nacional estável dentro da família das nações, em vez de uma entidade ideológica exportadora de terror. Com o apoio dos Estados Unidos e em cooperação com os países da região, Israel deve começar já hoje a construir pontes para uma alternativa estratégica ao eixo de contestação, uma alternativa que conecte as necessidades econômicas do Ocidente aos interesses dos Estados pragmáticos da região.
A história já começou a escrever o próximo capítulo, e a guerra no Irã é o lugar onde as regras do futuro jogo multipolar estão sendo definidas. A questão é se Israel saberá segurar a caneta e atuar como parceiro significativo na moldagem da nova realidade, ou se contentará com o papel de combatente arrastado pela corrente do “vórtice”, sem compreender que esse turbilhão exige uma bússola política e não apenas força militar.
Esta guerra não diz respeito apenas às nossas fronteiras; diz respeito também à configuração do mundo e ao lugar de Israel nele no século 21.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Pixabay
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