Entre Ormuz e Islamabad: escalada e negociação na nova disputa global
14 abr 26

Entre Ormuz e Islamabad: escalada e negociação na nova disputa global

Revital Poleg

O dia 12 de abril de 2026 será lembrado como o dia em que a diplomacia transacional do governo Trump encontrou o muro da realidade iraniana. O colapso das negociações em Islamabad e a imposição do bloqueio no Estreito de Ormuz não indicam uma decisão estratégica, mas sim a transição para uma fase coercitiva e perigosa de “queda de braço” global. Mesmo que se trate de uma tática de negociação visando à retomada das conversas já anunciada por Trump, o uso da escalada e da disrupção de sistemas globais como ferramenta legítima reflete uma mudança profunda nas regras do jogo – uma dinâmica de humilhação mútua que pode levar a consequências devastadoras para todo o sistema internacional.

A transição da fase de combate intenso, como vivenciamos contra o Irã desde 28 de fevereiro, para a fase de negociações por um cessar-fogo, em Islamabad, não representa apenas uma evolução no cenário de guerra. Ela marca o colapso final do paradigma ocidental de “gestão de conflitos” baseada em regras e instituições, que se desenvolveu após a Segunda Guerra Mundial com a aspiração de limitar o uso da força e manter a estabilidade, mesmo sem resolver as raízes do conflito. Em seu lugar, testemunhamos o fortalecimento de uma ordem na qual as potências – EUA, China e Rússia – gerenciam tensões de forma utilitária e ad hoc: a Rússia utiliza a instabilidade como ferramenta, a China gerencia tensões com cautela, e os EUA de Trump – como vimos na Venezuela e agora no Irã – não se sentem comprometidos com quaisquer regras de jogo “aceitáveis”. O resultado é um equilíbrio de interesses temporário, fluido e instável, no qual o uso da força é uma ferramenta legítima.

Ao contrário de todas as avaliações preliminares dos EUA e de Israel na véspera da operação militar, o Irã conseguiu mudar a equação e transformar o Estreito de Ormuz de um ativo de comércio marítimo em um “interruptor” estratégico. Apesar dos golpes militares significativos sofridos em 39 dias de combate, Teerã provou ser capaz de deslocar o foco do confronto para os interesses americanos, interromper a liberdade de navegação internacional e impor um pesado “prêmio de risco” à economia global, demonstrando resiliência e até desafio contra os EUA e, especificamente, contra Trump.

Através de ameaças de mísseis e drones, o Irã conseguiu dissuadir capitães de petroleiros e navios mercantes, especialmente aqueles que transportam energia dos países do Golfo para os mercados da Ásia e da Europa, paralisando efetivamente o tráfego no estreito. Essa realidade expôs uma fraqueza americana surpreendente: a dificuldade de proteger o status quo da liberdade de navegação como um bem global comum (Global Commons). O bloqueio declarado por Trump é uma resposta à contínua disrupção iraniana, implementada consistentemente mesmo após a entrada em vigor do cessar-fogo e antes do início das conversas, sendo uma tentativa americana de retomar o controle do “interruptor”. No entanto, a ruptura na antiga ordem mundial já ocorreu e, neste momento, não está claro como será reparada.

O fracasso inicial rápido nas conversas de Islamabad realizadas sob o patrocínio do Paquistão, um país muçulmano nuclear e hostil a Israel, revelou um impasse estratégico significativo. Ambos os lados chegaram à mesa de negociações a partir de posições de força e com uma percepção de vitória, baseada na aspiração de forçar o outro lado a reconhecer sua derrota. Trump exigiu uma “rendição incondicional” para gerar uma “imagem de vitória” que o ajudasse a frear a queda no apoio popular, no contexto das próximas eleições de meio de mandato (midterms); por outro lado, o Irã apresentou uma narrativa de “vitória através da sobrevivência”, expressando a continuidade do regime – quase contrariando qualquer lógica estratégica.

Embora seja cedo para descartar o diálogo entre as partes, e como mencionado, a retomada das conversas já tenha sido anunciada por Trump, o estilo e a retórica em que a humilhação se torna o nome do jogo criam uma dinâmica que pode gerar uma nuvem de incerteza sobre quaisquer acordos sustentáveis, se e quando forem alcançados.

Israel acompanha com atenção e preocupação os últimos desdobramentos. Embora estivesse claro desde o início que Trump poderia declarar um cessar-fogo de acordo com seus próprios interesses e de forma inesperada, na visão de Israel o movimento ocorreu cedo demais, pois seus objetivos estratégicos centrais (com ênfase na questão nuclear) ainda não foram alcançados. No entanto, embora Israel seja um parceiro pleno no combate, as decisões não estão em suas mãos, e o Netanyahu também está limitado em sua retórica sobre o assunto, devido à sua dependência do governo americano e do Presidente Trump em particular. Para o Governo de Israel, trata-se de uma situação especialmente complexa, pois pode combinar uma incerteza prolongada com a pressão americana para evitar medidas que coloquem em risco o esforço de estabilização marítima.

Contudo, o colapso das conversas – que, segundo relatos, deveu-se à recusa do Irã em se comprometer claramente com as exigências dos EUA de não desenvolver armas nucleares e não manter capacidades de ruptura, como condição fundamental para um acordo – sinaliza que esta questão central permanece no cerne da agenda. Com o “dedo no gatilho”, Israel permanece em estado de alerta para o retorno à guerra, acompanhando de perto os desdobramentos e preparada para o combate.

Atores da guerra

O cenário de guerra americano-israelense no Irã é povoado por atores que já atuavam em campo, principalmente nos bastidores, antes mesmo da declaração do cessar-fogo, mas cuja influência agora se intensifica. O Paquistão, cujo lugar na arena global era limitado até recentemente, embora tenha passado por uma recalibragem em suas relações com Washington desde o início do mandato de Trump, torna-se agora, na prática, um ator central na definição da agenda regional. Isso é um lembrete contundente de que, no clima geopolítico polarizado de hoje, o status e a percepção das nações podem mudar de forma rápida e inesperada.

A China, que foi a força motriz por trás da promoção do Paquistão como mediador, e que está entre as principais prejudicadas pela guerra e pelo bloqueio americano no Estreito de Ormuz, atua como fiadora econômica de Teerã, interessada em desgastar a posição americana e garantir suas rotas de energia, cujo suprimento vindo da Arábia Saudita também foi gravemente afetado.

Para a Rússia, a guerra com o Irã traz lucros, pelo menos a curto prazo: o conflito no Oriente Médio e o bloqueio em Ormuz desviam recursos e atenção da campanha na Ucrânia, enfraquecem a aliança da OTAN e elevam os preços do petróleo russo. Nos bastidores, Moscou concede ao Irã apoio tecnológico e de inteligência crítico, entendendo que quanto mais o confronto em Ormuz se prolongar, maior será seu dividendo geopolítico na desestabilização de todo o sistema ocidental.

Para Israel, o fortalecimento da influência desses atores sinaliza a erosão da exclusividade do “guarda-chuva americano” e a transformação da questão iraniana em uma arena de disputa entre grandes potências. A ascensão do Paquistão nuclear como mediador central (com o apoio de China e Rússia) confere a Teerã legitimidade para exercer pressão contrária adicional sobre os EUA e reduzir o nível de insistência americana na totalidade dos objetivos comuns com Israel. Simultaneamente, as garantias econômicas da China e o apoio tecnológico-militar da Rússia oferecem ao Irã uma “armadura de sobrevivência” que pode neutralizar a capacidade israelense de forçar uma decisão estratégica apenas através do poderio militar.

O envolvimento desses atores pode alterar a própria definição de “sucesso” nas negociações, de modo que se busque um equilíbrio de interesses entre as potências, reduzindo a abrangência da exigência americana (até então categórica) pela remoção total da ameaça existencial contra Israel. Isso significa que Jerusalém pode se encontrar em uma situação na qual a chave para neutralizar a ameaça nuclear dependa de uma arquitetura de forças multipolar, na qual seus próprios instrumentos políticos são mais limitados e complexos do que nunca.

Oportunidade diplomática

No meio do caos geopolítico, abriu-se também uma oportunidade diplomática importante: o início das conversas diretas (15/04) entre representantes dos governos de Israel e do Líbano, sob o patrocínio dos EUA. Embora Israel tenha sido levado às negociações por exigência de Trump, e em grande parte devido à pressão iraniana e à ameaça de retirada do cessar-fogo caso Israel continue atacando no Líbano, o simples retorno do termo “paz” ao discurso regional representa um ponto de luz, ainda que frágil, complexo e repleto de desafios, cujas chances podem se mostrar escassas sem uma decisão na arena iraniana.

Cada uma das partes chega às conversas com agendas distintas, e a tensão é evidente: no Líbano, busca-se promover um cessar-fogo na esperança de conter o Hezbollah, enquanto Israel insiste na manutenção da liberdade de ação operacional para evitar a ameaça contínua contra a população do norte. Sem uma decisão contra o epicentro em Teerã, parece que mesmo o acordo em Beirute pode permanecer em um estado de incerteza, como parte da mesma arquitetura multipolar que dita as novas regras do jogo.

O Oriente Médio de abril de 2026 não se encontra em uma era de soluções, mas em uma era de gestão de riscos coercitiva. No fim das contas, para Israel, o principal teste histórico não será medido pelo prestígio ou pela retórica de humilhação, mas pela capacidade de garantir a remoção da ameaça nuclear existencial – uma missão que permanece, ainda, dependente do fio de uma navalha geopolítica.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

 

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