Gaza no impasse da “Fase Dois”: entre o plano de desmilitarização e a realidade
Revital PolegA transição do “Plano de Reconstrução de Gaza”, do cessar-fogo da primeira etapa para a chamada “Fase Dois” – a fase de desmilitarização e reconstrução – atingiu, no último dia 15 de abril, um ponto de inflexão estratégico.
No centro dos acontecimentos está o mandato do “Conselho da Paz” (Board of Peace), órgão estabelecido pelo presidente Trump como o principal braço executivo para supervisionar o futuro da região, com a missão de liderar o complexo processo de transformar a Faixa de Gaza de uma entidade militar em uma área civil reabilitada.
O Conselho fixou o prazo final (15 de abril) para a resposta do Hamas à proposta de desmilitarização. O objetivo deste plano é claro e inequívoco: o desmantelamento total, em um período de 90 dias, de todas as infraestruturas militares do Hamas e de todas as organizações armadas na Faixa, incluindo a destruição de túneis, instalações de produção de foguetes e a entrega de armamento pesado.
No entanto, a reunião crucial no Cairo, há poucos dias, entre o diretor-executivo do Conselho, Nickolay Mladenov, e o chefe da equipe de negociação do Hamas, revelou que a ambiciosa arquitetura diplomática de Washington colide com a realidade política e de segurança complexa.
A “Fase Dois” não é apenas uma continuação técnica do acordo; ela representa o cerne do plano americano para redesenhar Gaza no “dia seguinte” à guerra. O mandato do Conselho da Paz condiciona a reconstrução da Faixa e o fluxo de bilhões de dólares à desmilitarização absoluta.
Contudo, para o Hamas, tal exigência constitui uma “linha vermelha” existencial (o que, em grande medida, era previsível). A renúncia às capacidades militares é vista pelo movimento como um suicídio político e a perda do único trunfo de pressão que ainda possui.
Esta posição reflete também a dinâmica entre a liderança externa do Hamas, que conduz os contatos no Cairo, e a liderança de campo na Faixa. Para a liderança interna do Hamas, o prolongamento das negociações não é apenas uma questão de princípios, mas uma ferramenta tática que permite “ganhar tempo” precioso para a recuperação de capacidades e consolidação de controle no terreno, enquanto a comunidade internacional permanece imersa em discussões sobre modelos teóricos.
A posição do Hamas no Cairo permanece obstinada: não há espaço para discutir desmilitarização sem garantias internacionais vinculativas de que Israel completará sua retirada e cumprirá integralmente os compromissos da primeira fase, incluindo a cessação total das operações militares.
O Hamas identifica a fragmentação da atenção de Washington e de Jerusalém, avaliando que, quanto mais a campanha contra o Irã escalar, maior será a pressão sobre Israel e sobre o Conselho da Paz para ceder nos termos da desmilitarização em busca de uma “calmaria industrial” no front sul. O Hamas, na prática, utiliza o conflito iraniano como um escudo estratégico que lhe permite arrastar as negociações. Consequentemente, continua a recrutar combatentes, fortalecer seu controle no terreno e, ao que tudo indica, tentar reconstruir a produção de foguetes à sombra da distração internacional.
O impasse nas negociações não decorre apenas de um choque ideológico ou do contexto regional, mas também de uma instabilidade interna nos próprios mecanismos do Conselho.
Um dos fatores que mais comprometem a credibilidade do plano é a crise financeira que afeta o “Conselho da Paz”. Embora o plano econômico tenha se baseado em uma promessa declarada de captação de 17 bilhões de dólares, relatórios recentes revelam que, na prática, menos de um bilhão de dólares foi efetivamente transferido para os cofres do órgão.
Essa lacuna significativa compromete seriamente a capacidade do Conselho de atuar como uma autoridade efetiva e de estabelecer o “comitê de tecnocratas” encarregado de gerir a vida cotidiana na Faixa.
Além disso, evidencia-se outra falha fundamental: a criação da “Força de Estabilização” internacional, que deveria servir como o braço executor da desmilitarização no terreno, permanece, por ora, apenas no nível declaratório.
Na ausência de orçamento e de países dispostos a arriscar a vida de seus soldados em uma missão tão complexa, o mandato do Conselho carece de instrumentos executivos diante da realidade armada.
O Hamas identifica essa dificuldade do Conselho em cumprir suas promessas de reconstrução e compreende que o incentivo econômico oferecido em troca do desarmamento não está, de fato, garantido – o que reforça sua determinação em preservar seus ativos militares.
Paralelamente, a administração americana exerce fortes alavancas de pressão sobre os mediadores, Catar e Egito. A pressão sobre Doha, que inclui ameaças quanto ao futuro da presença militar americana na base de Al-Udeid, visa forçar o Catar a produzir uma decisão rápida.
No entanto, também aqui o Hamas aposta que a necessidade americana de um “resultado” rápido em Gaza levará, em última instância, a uma flexibilização das exigências.
O Hamas espera que o desgaste diplomático, sob a sombra da tensão com o Irã, leve o Conselho da Paz a aceitar fórmulas ambíguas de desmilitarização que lhe permitam preservar capacidades essenciais.
Israel, que na Fase Dois deveria se retirar para uma zona de amortecimento de segurança, cujos limites não foram definidos na proposta, encontra-se em uma posição complexa e limitada. O principal temor em Jerusalém é um acordo de compromisso que permita ao Hamas preservar capacidades militares sob cobertura civil. Além disso, a confirmação do envolvimento futuro da Autoridade Palestina na gestão da Faixa é vista como um desvio relevante do plano original, em relação ao qual já existiam reservas.
Diante das exigências de desmilitarização, Israel enfrenta pressão internacional para cumprir seus compromissos humanitários. Isso inclui a abertura da passagem de Rafah para o retorno dos residentes, bem como a ampliação da entrada de ajuda humanitária. O fluxo de ajuda foi totalmente interrompido por vários dias e retomado apenas sob forte pressão americana. Ambas as medidas estão condicionadas a complexas considerações de segurança e coordenação regional.
O prazo originalmente fixado para 15 de abril, e posteriormente adiado apesar da oposição de Israel, coloca todas as partes diante de um momento decisivo: se o Hamas persistir em sua recusa ao plano de desmilitarização, o Conselho da Paz poderá se ver impotente diante do colapso da iniciativa. O impasse nas negociações no Cairo reflete a dificuldade de conciliar as exigências de segurança de Israel, as ambições americanas de reconstrução e as condições impostas pelo Hamas.
A “Fase Dois” do plano para Gaza não é apenas um teste da capacidade de desmilitarização do Hamas, mas também da capacidade de Israel de preservar seus ativos estratégicos em uma arquitetura regional em rápida transformação.
Sob o impacto da campanha contra o Irã, Israel atua, neste momento, mais como um ator que reage à realidade do que como um ator que a molda.
Nesse cenário, Gaza corre o risco de permanecer um barril de pólvora político e militar, e, desta vez, Israel poderá ter dificuldades para agir contra ela sem comprometer suas alianças mais vitais.
O principal desafio de Israel é, portanto, assegurar a desmilitarização da Faixa no âmbito de um modelo que equilibra estabilidade rápida e limitações de segurança, ao mesmo tempo em que cumpre suas obrigações no acordo, tudo isso com os olhos voltados para Teerã.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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