No 78º Dia da Independência, a Renovação Começa por Dentro
23 abr 26

No 78º Dia da Independência, a Renovação Começa por Dentro

Revital Poleg

Revital Poleg

O Dia em Memória dos Caídos (Yom HaZikaron) e o Dia da Independência de Israel (Yom HaAtzmaut), celebrados em sequência imediata, são os dias mais carregados do calendário israelense. 

Do som da sirene que marca o início do luto até a cerimônia de acendimento das tochas, que sinaliza o seu fim e o início das celebrações da independência, o ar parece mais denso do que nunca; o coração está pesado, vulnerável e dolorido. O país inteiro desacelera, volta-se para dentro, e um véu de tristeza nos envolve, enquanto tantos se recolhem à memória de familiares, amigos e conhecidos que tombaram ao longo dos anos. Milhares de fotos de homens e mulheres que permanecerão jovens para sempre, e cujo número só aumenta a cada ano, aparecem diante de nós nas telas e nas redes sociais, tocando profundamente o coração; são tantos – cada um deles um mundo inteiro que existiu e não existe mais.

A transição abrupta nestes dias entre a sirene da memória e as celebrações da independência sempre foi vivida como uma passagem que não é evidente por si só, expressando, talvez mais do que qualquer outra coisa, o preço elevado da independência.

No entanto, desde 7 de outubro de 2023, essa transição adquiriu um significado muito mais pesado e existencial. Desde aquele dia trágico, e mais do que nunca, passamos a viver essas duas jornadas de memória e independência como uma ferida aberta no coração da sociedade israelense.

Ao completarmos 78 anos da fundação do Estado de Israel, e com mais de 930 dias de uma guerra contínua em múltiplas frentes que ainda não terminou, muitos de nós chegamos a este momento marcados, exaustos e, sobretudo, mais conscientes – talvez mais preocupados do que nunca.

Esperávamos que este ano já fosse diferente, que pudéssemos celebrar nossa independência sem restrições e sem preocupações que nos acompanharam no ano passado, quando tantos ainda estavam mantidos reféns nos túneis do Hamas. É um grande alívio que todos já estejam aqui; mas, infelizmente, a realidade continua volátil e longe de ser simples.

A guerra continua e, mesmo que, no momento em que estas palavras são escritas, haja um cessar-fogo frágil em todas as frentes, cuja duração e resultados permanecem incertos, também este ano o Dia da Independência é acompanhado por uma profunda sensação de falta.

Essa falta é, antes de tudo, a ausência da paz, uma palavra que muitos evitam usar, como se houvesse uma contradição inerente entre ela e a segurança, ou como se fosse uma expressão de ingenuidade frágil e apologética.

Mas, a verdade é o oposto: o propósito das guerras não é santificar o combate, mas sim alcançar a paz. Enquanto ela ainda nos falta, cabe à liderança política do país assegurar que essa ausência não se torne o legado das próximas gerações.

O 78º Dia da Independência nos exige também um exame de consciência em termos de segurança, valores e política, bem como uma reavaliação do conceito de “independência”, tanto no plano interno quanto no externo.

Desde aquele “Sábado Negro”, o conceito de independência tornou-se um indicador concreto da situação estratégica do Estado de Israel.

Devemos reconhecer com honestidade que a independência de Israel foi gradualmente erodida como resultado direto da forma como os eventos foram conduzidos, e da relutância da liderança política em mudar o paradigma e tomar decisões políticas corajosas.

Nesse vácuo de liderança, os Estados Unidos, principal aliado de Israel, passaram a ocupar um papel central, movidos por uma combinação de preocupação genuína e por seus próprios interesses.

O que começou com a presença de representantes da Casa Branca em reuniões de gabinete nas quais são tomadas decisões cruciais para Jerusalém atingiu, recentemente, seu ponto máximo, quando ministros do gabinete foram informados sobre o cessar-fogo no Líbano por meio de uma publicação do presidente Trump nas redes sociais.

Não se trata de uma questão técnica; trata-se de um deslocamento significativo do centro soberano de tomada de decisões.

Ao lado do reconhecimento genuíno e justificado que o público israelense sente pelo apoio americano, com destaque para a libertação dos reféns, que não teria sido possível sem esse apoio, pela cooperação significativa no contexto da guerra com o Irã, e pelo cessar-fogo no Líbano, que esperamos que traga resultados de estabilidade, ou até mesmo de paz, devemos nos perguntar: onde está o limite entre uma cooperação estreita e essencial e a erosão da soberania?

Até mesmo a fileira de bandeiras de Israel que, todos os anos, tremula ao longo da Rodovia 1, no caminho para Jerusalém, como expressão visual festiva do Dia da Independência, passou por uma mudança significativa neste ano. Quando, ao lado de cada bandeira azul e branca, foram acrescentadas bandeiras dos Estados Unidos, trata-se não apenas de uma expressão de gratidão, mas também de um indício da internalização da profundidade da dependência estratégica em que nos encontramos. É uma imagem que ilustra a erosão da soberania que se forma a partir de dentro, aprofundando-se também no plano conceitual, justamente em um momento que deveria estar centrado na nossa independência.

O desgaste da nossa independência também se manifestou no núcleo mais sensível da soberania, quando o presidente Trump, ao que tudo indica a pedido do primeiro-ministro, exerce uma pressão inaceitável sobre o presidente do Estado para anular o julgamento de Netanyahu.

O argumento aqui não é dirigido ao presidente Trump, mas a quem, de dentro, permite que a soberania do Estado que ele próprio lidera seja afetada.

A tentativa de flexibilizar interesses israelenses em favor de interesses pessoais e de submeter o sistema institucional soberano a pressões externas constitui, sem dúvida, motivo de profunda preocupação para os cidadãos do país.

Neste 78º Dia da Independência, quando grandes pontos de interrogação pairam sobre nós, devemos entender que a verdadeira independência começa com uma escolha.

É a escolha de parar de se esconder atrás de eufemismos, de não ter medo da palavra “paz” e de não abrir mão da nossa soberania em troca de um silêncio momentâneo, da sobrevivência pessoal de líderes ou da rendição a tendências de messianismo e extremismo.

Devemos devolver o centro da tomada de decisões a Jerusalém, não por meio de uma confrontação estéril com nossos aliados, mas por meio da construção de uma alternativa política inspiradora e baseada em valores, que expresse as melhores qualidades e capacidades do Estado de Israel, um Estado judeu e democrático que coloca os valores humanistas e universais como guia para suas ações.

Para além do nevoeiro da batalha e da dor no coração por todos aqueles que já não estão conosco, escolho ver a oportunidade que emerge justamente do desafio. O retorno aos valores fundamentais e a construção da capacidade de vivermos juntos como uma sociedade diversa, sob um contrato civil compartilhado, não são mais apenas um anseio; são uma missão nacional urgente.

Essa esperança é mais concreta do que parece e se baseia na compreensão de que nossa renovação interna não é apenas uma necessidade existencial, mas um processo já em curso na sociedade civil que poderá, em breve, se concretizar em uma nova realidade israelense.

“Ser um povo livre em nossa terra” – esta é a mensagem de “Hatikvah”, o nosso hino, e ela ganha, neste ano, renovada força. A nossa independência não se mede apenas pela capacidade de repelir inimigos externos, mas também pela nossa capacidade de nos libertarmos do medo de ousar, da perda de confiança na mudança e da polarização que nos corrói por dentro.

Neste Dia da Independência, devemos lembrar que nossa soberania e renovação estão em nossas mãos. Isso não é ingenuidade; é o sionismo lúcido, confiante e orgulhoso do 78º ano.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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