Entre lutas e batalhas, sozinho fica mais difícil!
04 maio 26

Entre lutas e batalhas, sozinho fica mais difícil!

Edilmar Alcantara dos Santos Junior (Mestre em Biblioteconomia e cientista social, é coordenador do Laboratório Judeidade e Negritude do IBI no Campus)

Os acontecimentos dos últimos anos ao redor do mundo vêm chamando a atenção e gerando preocupação devido ao elevado grau de violência física, mas não somente. Há diversas formas de flagrante demonstração de violência simbólica, exemplificada pelo racismo, antissemitismo, xenofobia, etarismo, capacitismo, além da misoginia que tem alcançado números insustentáveis – reitero: em diferentes sociedades. 

Para este texto, vou elencar dois dos exemplos supracitados, devido à construção de familiaridade que venho tendo com ambos, muito, é verdade, pelo fato de coordenar pelos últimos 3 anos ininterruptos o Laboratório Judeidade e Negritude, que insisto sempre em dizer que se trata de uma feliz iniciativa do Instituto Brasil-Israel, através do programa de incentivo aos estudos e à pesquisa IBI no Campus

Sendo assim, vou, como se diz no jargão popular, “puxar a sardinha para minha brasa”, e comentar brevemente sobre os últimos episódios ocorridos no Brasil, em que tanto a Judeidade quanto a Negritude foram alvos de ataques que precisam ter seus autores identificados e responsabilizados. 

O Centro de Umbanda São Jorge Guerreiro, situado na cidade de Guanambi, Sudoeste do estado da Bahia, foi alvo de um ataque no último dia 18 de abril. De acordo com relatos do vice-presidente da instituição – conforme revelado em reportagens –, o local vem sendo alvo de ataques desde 2025; no total já foram seis atos de vandalismo de cunho religioso. 

O ataque em questão traz características que não atingem apenas os adeptos de religião de matriz africana, mas também outros grupos étnicos e/ou religiosos – e isso não é um modo de minimizar os outros ataques, que de forma cruel, covarde e criminosa macularam um local sagrado que deveria ser protegido pelas autoridades locais.

Além de destruir objetos litúrgicos e vilipendiar o templo religioso, os criminosos, no último dia 18, picharam os muros da instituição com símbolos nazistas e pelo menos duas frases que evidencial a matriz ideológica de tanta intolerância religiosa e racismo, são elas: “Sieg Heil” (Salve a vitória), “Heil Christus” (Salve Cristo), além do número “88”, que representa um código de ódio associado à supremacia branca e, claro, a suástica nazista. 

O Centro de Umbanda São Jorge Guerreiro tem 80 anos de fundação. É uma instituição bem articulada com as questões religiosas e sociais no município de Guanambi/BA. Ora, causa-me no mínimo espanto, saber que este local de culto religioso já sofreu ao menos seis ataques apenas entre 2025 e 2026, e que, somente agora, por ocasião deste último, a repercussão alcançou âmbito nacional. Pergunto: enquanto eram ataques à instituição religiosa com forte presença de pessoas negras, o poder público não tinha ciência? Bom, pelo clamor que este episódio tem gerado na opinião pública, de uma a duas: ou tinha-se ciência e então procurou tomar providências, ou então, tal questão foi ignorada de forma solene, revelando mais uma vez como que às questões relacionadas à população negra são tratadas no Brasil. 

Símbolos nazistas despertam forte reação negativa em boa parte das pessoas no mundo. No Brasil, mesmo com histórico de “boa convivência étnica” entre a população, é notório o crescimento de células nazistas, responsáveis por  perigosos e insistentes discursos de ódio que a História já nos provou o mal que pode provocar. É importante – e necessário – salientar que fazer apologia ao Nazismo no Brasil, é um crime tipificado na Lei do Racismo (Lei 7.716/89). 

Neste semestre no Laboratório Judeidade e Negritude, estamos debatendo em nossos encontros questões relacionadas ao que o pensamento filosófico e sociológico chamam de “o outro”, baseando-nos em textos, filmes e outros materiais que possam nos auxiliar. Na última reunião do grupo (em 28 de abril), o texto norteador foi extraído do livro: “Pele negra, máscaras brancas”, do pensador oriundo da Martinica, Frantz Fanon. 

O texto em questão foi o capítulo 5 do já mencionado livro, entitulado “A experiência vivida do negro”. Neste fragmento do livro, o autor nos leva a refletir sobre a magnitude do racismo e suas consequências do ponto de vista da psique humana, dentre outras questões. Fanon entende – e nos faz entender – que o processo de segregação racial que ele experimentou foi fruto da empreitada colonial, mecanismo bem utilizado pelo capitalismo em sua expansão territorial. Diante disso, o autor aponta para o processo de interseccionalidade como forma de combater tal estrutura – mesmo que isso tenha faltado em palavras em seu texto.  

Em uma passagem do dito capítulo, Fanon faz um apontamento pertinente sobre a natureza da pessoa que nutre ódio pela outra, seja por via do antissemitismo, como também por via do racismo. De forma literal, o autor diz:

 

É em nome da tradição, de um longo passado histórico, do parentesco sanguíneo com Pascal e Descartes, que se diz aos judeus: vocês não têm lugar na comunidade. Recentemente, um desses bons cidadãos declarava em um trem no qual eu me encontrava: ‘Que as virtudes verdadeiramente francesas subsistam, e a raça está salva! Hoje é preciso realizar a União Nacional. Não mais lutas intestinas diante de estrangeiros (e, virando-se para o meu lado), quaisquer que sejam eles’. Pra não carregar muito no julgamento, é preciso reconhecer que ele recendia a vinho barato; se ele pudesse, teria me dito que meu sangue de escravo alforriado não é capaz de se entusiasmar em nome de Villon ou de Taine. Uma vergonha!

O judeu e eu: não satisfeito em me racializar, por um acaso feliz eu me humanizava. Unia-me ao judeu, meu irmão de infortúnio.

Uma vergonha!

À primeira vista, pode parecer surpreendente que a atitude do antissemita se assemelhe à do negrófobo. Foi meu professor de filosofia, de origem antilhana, quem um dia me chamou a atenção: ‘Quando você ouvir falar mal dos judeus, preste bem atenção, estão falando de você’. E eu pensei que ele tinha universalmente razão, querendo com isso dizer que eu era responsável, de corpo e alma, pela sorte reservada a meu irmão. Depois compreendi que ele quis simplesmente dizer: um antissemita é seguramente um negrófobo. (FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EdUFBA, 2008. p. 122.)

 

O antissemita, levado a pensar que é superior diante de indivíduos racializados ao longo da história, traz em si um sem-número de preconceitos que, não raro, também são tipificados como crime. De início, e nos baseando no que Fanon escreveu acima, racismo e nazismo, pelo menos no Brasil, são crimes com pena estabelecida. Ao ler: “um antissemita é seguramente um negrófobo”, não é difícil entender o motivo das frases e símbolos nazistas pichados no muro do templo religioso supracitado. E eu vou além, depois da “página 2, 3, 4…”, o antissemita e negrófobo pode se mostrar xenófobo, etarista, capacitista e misógino. 

Lutar contra o sistema colonial, que mesmo não praticando a invasão de território e impondo, pela violência física e simbólica, a forma de ver o mundo do invasor, é necessário. A herança colonial ainda persiste e, infelizmente, o ideal expansionista e mercantil das antigas potências colonizadoras foram tão bem estruturados que até mesmo as vítimas desse próprio sistema corroboram a existência do mesmo – é uma questão de sobrevivência física, cultural, espiritual e étnica. 

Não há luta que deva ser travada sozinha, pois muitas foram às vítimas do poderoso jugo do sistema colonial. É preciso romper com a ideia de que por não ser negro, judeu, refugiado, indígena, nordestino – em se tratando das pessoas que moram no Centro-Sul do Brasil –, mulher, mulher preta – que tem uma camada a mais de violência na sociedade –, gay, trans, dentre outros alvos da herança colonial, eu não deva me envolver nas violências e discriminações que atingem esses grupos.

Por trás de um antissemita, sempre haverá um racista, um misógino, um etarista, um xenófobo, um homofóbico, um capacitista. Essa pessoa é filho ou filha, pode ser pai ou mãe, tem parentes e amigos, trabalha, não raro, vai à igreja, se apresenta como pessoa confiável, ou na linguagem popular: um cidadão de bem! 

Que o hoje nos ajude a pensar em como agir, para que no amanhã – se chegar o amanhã –, não tenhamos que dizer: “ontem foi o judeu, mas eu não sou judeu; ontem foi o negro, mas eu não sou negro; ontem foram os gays, mas eu não sou gay… e hoje sou eu, mas não tem ninguém aqui”!

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Imagem gerado por Inteligência Artificial

 

  

 

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