O ponto cego de Jerusalém: por que a Europa não é mais uma parceira garantida
Revital PolegO deterioramento das relações de Israel com a União Europeia atinge novos patamares: em poucas semanas, as instituições do bloco e, isoladamente, várias das principais nações que o integram, migraram de uma retórica de advertências e condenações para uma linguagem de sanções, ameaças ao núcleo central do arcabouço econômico bilateral e medidas unilaterais em nível nacional. Para Israel, já não se trata de mais uma disputa sobre o texto de uma resolução específica ou suas ramificações pontuais, mas de um real ponto de interrogação sobre o seu status no Ocidente e sobre o futuro de uma parceria estratégica e multissetorial com um dos blocos fundamentais para a sua resiliência econômica, científica e cultural.
Em abril e maio de 2026, a crise galgou um novo degrau quando a pressão se deslocou para a esfera institucional-formal. A Espanha liderou uma iniciativa oficial para rescindir o Acordo de Associação – tratado que fundamenta a totalidade das relações com Israel. Paralelamente, uma petição de âmbito europeu com mais de um milhão de assinaturas obrigou as instituições da UE a deliberar sobre a suspensão do acordo comercial, movimento que ganhou o endosso de uma carta aberta assinada por centenas de diplomatas e ex-altos funcionários, exigindo o congelamento do tratado sob a alegação de violações sistemáticas dos direitos humanos. Com isso, colocou-se sobre a mesa uma premissa radical: deixar de tratar o acordo com Israel como um pilar inabalável e transformá-lo em um instrumento de pressão dinâmica e sujeito a revisões constantes.
No plano diplomático e individual, os ministros das Relações Exteriores da União Europeia adotaram, em meados de maio, uma medida sem precedentes ao impor sanções oficiais contra cidadãos e organizações israelenses devido à violência de colonos, enquadrando-os em um regime de restrições habitualmente reservado a extremistas e entidades terroristas. Sob esse pano de fundo, espera-se que o Conselho de Ministros das Relações Exteriores da UE discuta, na próxima sessão (15/06), a proposta de aplicação de sanções contra os ministros Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich – um mecanismo de penalidades voltado contra violadores dos direitos humanos que uma parcela significativa dos Estados-membros já começou a implementar de forma autônoma “em campo”.
A pressão também se avolumou no nível dos Estados-membros individualmente. Embora certas propostas de resolução nas instituições da UE não tenham avançado devido à exigência de maioria qualificada ou consenso, isso não impediu nações como a França de impulsionar sanções e restrições em âmbito nacional, transformando os laços com Israel em uma pauta de política interna altamente midiatizada. Formou-se, assim, uma engrenagem de pressão multifacetada: instituições comunitárias, governos nacionais, opinião pública e ex-diplomatas convergem para um diagnóstico único: Israel já não é uma parceira “autoevidente”.
Para compreender a profundidade da atual crise, é preciso retornar ao ponto de partida. Desde a instauração do atual governo, a trajetória de desgaste nas relações entre Israel e a União Europeia tem sido contínua e previsível. Em 2023, foi o projeto de reforma do Judiciário que introduziu um novo questionamento de valores: na Europa, a medida foi interpretada como uma afronta à independência do Poder Judiciário e um atentado contra o sistema de freios e contrapesos democráticos.
Declarações diplomáticas incisivas, alertas contra a erosão de valores democráticos compartilhados e protestos de israelenses e judeus nas capitais europeias contra a reforma sinalizaram que a fricção com Jerusalém havia passado por uma metamorfose – o debate já não gravitava exclusivamente em torno da questão palestina, mas sim de reformas capazes de alterar a própria identidade interna do Estado.
A eclosão da guerra em outubro de 2023 acelerou esse processo. Inicialmente, logo após as atrocidades de 7 de outubro, a totalidade das nações europeias, encabeçada pelas principais potências do continente, cerrou fileiras com Israel. Condenaram formal e veementemente o ataque terrorista do Hamas, manifestaram solidariedade e referendaram o direito de Israel à autodefesa. Contudo, já no início de 2024, esse apoio começou a apresentar fissuras.
Países como Espanha, Irlanda, Bélgica e, posteriormente, a Holanda adotaram uma postura inflexível, advertiram para a catástrofe humanitária em Gaza e transformaram a contestação à condução da guerra em um vetor de pressão para exigir a retomada de um horizonte político. Gradualmente, consolidou-se na Europa a narrativa de que Israel não está apenas respondendo ao terror, mas moldando uma realidade perene que colide com a concepção europeia de direitos humanos e com o direito internacional.
No cerne da inflexão da União Europeia encontra-se o Artigo 2º do Acordo de Associação, que estabelece o respeito aos direitos humanos e aos princípios democráticos como a própria base da relação bilateral. Por longos anos, o dispositivo foi encarado como uma cláusula meramente protocolar e retórica; a partir de 2023, contudo, converteu-se em um mecanismo operacional.
Organizações da sociedade civil, juristas e diplomatas passaram a sustentar que as políticas em Gaza e na Cisjordânia, somadas à crise constitucional em Israel, configuram uma infração ao espírito do tratado. Desse argumento brotaram as iniciativas de suspensão, revogação parcial ou imposição de condicionalidades ao acordo. Um artigo que outrora servia apenas de moldura normativa transformou-se em uma alavanca política concreta: quem detém a chave do tratado detém agora o poder de acionar gatilhos de coerção econômica e jurídica.
O cenário bilateral reflete essa mesma transição. Espanha e França, juntamente com outros governos, instrumentalizam suas relações com Israel para demonstrar aos seus respectivos eleitorados a materialização de uma “política externa baseada em valores” – a premissa de que uma aliança não se justifica apenas pela conveniência geopolítica, mas está subordinada ao crivo ético. Sob a ótica dessas nações, Israel deixou de ser um “caso excepcional” blindado e passou a figurar como o teste supremo para a capacidade da Europa de honrar os princípios que ela própria preconiza. Com isso, o debate sobre Israel foi absorvido pelas disputas internas que redefinem a identidade e os rumos da própria União Europeia.
Em contrapartida, a reação israelense oscila entre a postura defensiva e a negação. Desde outubro de 2023, o Ministério das Relações Exteriores de Israel tem enfatizado junto às capitais europeias o terrorismo do Hamas, a ameaça representada pelo eixo de agressão iraniano e a imperatividade operacional de agir com firmeza. Jerusalém classifica as pressões europeias como frutos de hipocrisia, viés ideológico e incompreensão crônica da realidade de segurança. Paralelamente, opera-se uma diplomacia de bastidores voltada a mitigar, postergar e desidratar iniciativas hostis por meio de governos aliados dentro do bloco, do convencimento velado e, ocasionalmente, do endurecimento do tom contra Bruxelas. Trata-se, no entanto, de um ponto cego estratégico: Israel tende a responder à Europa com táticas de comunicação e relações públicas, sob o pressuposto de que enfrenta uma crise de imagem passageira, falhando em diagnosticar a profunda mudança estrutural no bloco que transformou seus canais oficiais em uma linha de frente ativa, plenamente capaz de cobrar dividendos econômicos e científicos reais da própria resiliência nacional de Israel.
Essa é precisamente a premissa fundamental que a presente crise desmorona. Os europeus demonstraram estar dispostos a mobilizar seu arsenal institucional – de sanções individuais a barreiras comerciais e punições multilaterais – para deixar claro a Jerusalém que a parceria histórica não é incondicional. Nesse sentido, o verdadeiro dilema colocado diante de Israel não é se uma determinada sanção será mantida ou revogada, mas se o país aceita as novas regras do jogo: a transição para um modelo de parceria estritamente condicional, no qual valores e ações no terreno deixam de ser concessões retóricas e passam a integrar o cálculo político e econômico intrínseco do continente.
O risco estratégico para Israel não se resume à perda de incentivos ou vantagens econômicas pontuais, mas a uma reconfiguração drástica de seu status global: a transição de um papel de parceira internacional e integrada ao Ocidente para o de uma parceira meramente funcional, aquela cujas capacidades tecnológicas e de segurança são demandadas por conveniência, mas cuja identidade se recusa a reconhecer como parte do mesmo ecossistema de valores.
Trata-se de um processo de erosão silencioso, que não se materializa em uma única manchete ou em uma votação bombástica, mas cujo impacto cumulativo a longo prazo é devastador para os investimentos, consórcios científicos e para a própria legitimidade internacional das políticas de Israel.
Contudo, este cenário de crise constitui também um momento de definição. O governo Netanyahu pode optar por continuar enxergando a Europa como um palco de “fustigamento retórico” e limitar-se a uma contenção de danos de curto prazo ou encarar o bloco como um espelho que obriga os tomadores de decisão a reavaliar o lugar e o futuro do Estado no Ocidente.
Parcerias estratégicas não exigem alinhamento ideológico absoluto, mas pressupõem o entendimento mútuo de linhas vermelhas. As instituições da União Europeia e suas lideranças de proa delimitaram nitidamente as suas fronteiras; resta saber se o comando político em Jerusalém decifrará esse sinal como uma inflexão geopolítica imperativa ou se persistirá na aposta anacrônica de que a Europa, como sempre, acabará por se conformar.
*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: WikimediaCommons
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