Responsabilidade Judaica
17 set 25

Responsabilidade Judaica

David Diesendruck

David Diesendruck, cofundador e diretor do Instituto Brasil-Israel

Uma “virada” no calendário, seja por um aniversario, final de ano ou outra data marcante em nossas vidas, costuma, para muitos, resgatar memorias e sentimentos.

Mas raramente elas vêm acompanhadas de tradições e rituais milenares praticados de geração em geração.

No judaísmo o calendário é repleto de significados e propósitos que extrapolam o caráter sazonal da data e que oferecem um amplo repertorio de interpretações e oportunidades para uma busca individual e coletiva sobre onde estamos e onde gostaríamos de estar. Afinal, por que estamos aqui?

Nesta próxima segunda-feira, ao anoitecer, iniciamos as celebrações do ano 5786. A data marca não a criação do universo, mas a do homem. É a partir de sua criação que a contagem se inicia.

Desde sempre, em nossa tradição, a responsabilidade não é terceirizada. Nem a natureza ou a Deus. É nossa a responsabilidade pelo que acontece por aqui. Este é um princípio norteador judaico.

Tragicamente, uma outra data recentemente ingressa em nossa história, o 7 de outubro, será lembrada em algumas semanas. E, dentro do espirito de Rosh Hashana, devemos refletir e questionar sobre qual a nossa responsabilidade como judeus sionistas diaspóricos. Não como espectadores, mas como agentes de transformação. Este debate me parece fundamental para nossa continuidade.

Subestimar a mudança que estamos vivenciando dentro de Israel, nas suas relações geopolíticas, na relação com os judeus fora de Israel e o crescimento do antissemitismo é uma ameaça existencial que não pode ser ignorada.

Novas posturas e narrativas são necessárias. Estado e Governo de Israel precisam ser diferenciados. A sociedade civil israelense precisa ser ouvida e amplificada por nós. Os princípios fundacionais, éticos e morais de Israel, idem.

Não podemos permitir o sequestro destes princípios. Muito pelo contrário.

O pensador israelense Yossi Klein Halevi* questiona:

“Como, então, nesta atmosfera envenenada, podemos nos submeter à autocrítica moral? Como ousamos arriscar, inadvertidamente, reforçar a campanha de ódio e mentiras?

Porque não temos escolha. Porque preservar nossa credibilidade moral é essencial para nossa força. Porque não podemos deixar que aqueles que nos odeiam determinem a vida interior do povo judeu. Porque praticar a introspecção moral nos lembra que o sionismo venceu e que, embora vulneráveis, não somos mais vítimas. Porque devemos prestar contas de nossas ações aos nossos amigos que nos apoiaram.

Acima de tudo, porque o judaísmo exige isso.”

Nossa história é repleta de momentos trágicos e desafiadores. Mas também de reviravoltas espetaculares como a própria criação do Estado de Israel. O denominador comum? A preservação e a defesa dos princípios acima. Abrir mão deles nao é uma opção.

Que possamos trazer esta conversa para nossos encontros familiares de Rosh Hashana. Dialogar sem polarizar sobre como enfrentar juntos este novo contexto.

Resgatar nossa sabedoria e cultura milenar para fortalecer nossa identidade judaica e sionista.

E que possamos muito breve termos os reféns de volta e o final desta guerra terrível a tantos.

Shaná Tová!

*https://blogs.timesofisrael.com/our-season-of-reckoning-israels-moral-crossroads-in-gaza/  

A imagem utilizada neste artigo foi gerada por inteligência artificial.

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