Como celebrar com 59 reféns em cativeiro e a paz ainda mais distante?
29 abr 25

Como celebrar com 59 reféns em cativeiro e a paz ainda mais distante?

Daniela Kresch

Daniela Kresch

TEL AVIV – Como celebrar o 77º ano da independência de Israel quando o país ainda luta uma guerra – a mais longa de sua história – e, principalmente, quando ainda há 59 reféns israelenses no cativeiro do Hamas em Gaza? Como comemorar o Iom HaAtzmaut (Dia da Independência) em festas, piqueniques e churrascos com família e amigos quando dezenas de cidadãos são diariamente torturados, física e mentalmente, nas mãos de terroristas? 

Sabemos que mais de 20 reféns continuam vivos. Exatamente quantos não está claro. Mas duas dezenas de jovens estão, no momento que escrevo estas linhas, algemados em jaulas em túneis escuros, sendo alimentados com 300 calorias por dia, torturados em pau-de-arara, eletrocutados e violados sexualmente, entre outras mazelas.

A sombra do 7 de outubro de 2023 paira pesadamente sobre Iom HaAtzmaut deste ano, que começa ao anoitecer desta quarta-feira, 31 de abril e termina ao anoitecer de 1º de maio, tornando a celebração uma tarefa complexa e dolorosa. A alegria usualmente vibrante da maioria judaica, a explosão de patriotismo e triunfo nacional – às vezes ufanista e um tanto exagerada – estão temperadas, senão sufocadas, por uma dor profunda e uma ansiedade sem fim.

Como celebrar a existência de um país construído sobre sacrifícios, quando o sacrifício recente é tão cru? Quando o desespero das famílias enlutadas, dos que choram seus mortos e que anseiam pela volta de seus entes queridos do cativeiro é lancinante. E quando a tristeza de quem almejava a paz com nossos vizinhos só aumenta – mesmo sabendo que Israel não começou nem queria essa guerra. As cicatrizes, a destruição e as mortes causadas por este conflito afastam ainda mais a esperança de paz.

Este ano, as cerimônias oficiais vão, como de praxe, exaltar os feitos da nação – e do atual governo, o mais direitista, religioso e com pitadas de fanatismo da história do país. Os discursos vão homenagear os heróis do passado e os do presente. E muitas pessoas vão encarar a celebração em um ato de resistência: alegrar-se como uma afirmação de que, apesar da dor, a vida continua e a Israel persiste. Esse sentimento, independentemente de política, é sim emocionante.

Mas, para outros, não haverá celebração. A resistência será a luta pela volta dos reféns e o fim da guerra. Israelenses em todo o país planejam eventos alternativos para o Dia da Independência. “Não é um feriado, é um dia de luta”, dizem os organizadores no site do protesto Restart, que combate os arroubos antidemocráticos deste governo e clama pela volta dos sequestrados. 

Cerimônias estão sendo planejadas para diversos locais do país. Na Praça dos Reféns, em Tel Aviv, um protesto foi planejado para a noite de quarta-feira, quando começa o Iom HaAtzmaut, com a participação de familiares dos reféns, representantes de vítimas do 7 de outubro e cantores como Shlomo Artzi e Ninet Tayeb. Em Jerusalém, uma oração conjunta será realizada no acampamento de protesto dos reféns na Praça Paris. E uma cerimônia alternativa de acendimento de tochas ocorrerá, com a participação de Ayala Metzger, cujo sogro Yoram foi morto em cativeiro pelo Hamas, Huda Abu Obaid, do Fórum de Coexistência de Negev, e outros.

Na quinta-feira, haverá outras iniciativas, como visitas guiadas à Praça dos Reféns de Tel Aviv, ao longo do dia e a formação de uma corrente humana em frente à Residência Presidencial em Jerusalém.

Antes de 7 de outubro de 2023, o Iom HaAtzmaut era quase o último consenso nacional. A grande maioria das pessoas celebrava a existência de um país que surgiu como um porto-seguro aos judeus após milênios de perseguições e diáspora. Era a afirmação do sonho de uma pátria judaica, imperfeita que fosse, com gente com posições políticas, viés religioso, cultura e ideias tão diferentes. Todos unidos por uma vontade de coexistir e viver em paz.

Mas agora, esse consenso está ruindo. A divisão e a polarização serão aparentes nesse Dia da Independência. A ferida aberta pelo ataque do Hamas, a perda devastadora de vidas e a persistência do conflito criaram um ambiente onde a celebração parece, para muitos, quase uma afronta à dor.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Wikimediacommons

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