Entre a força e a diplomacia: o que revela a opinião pública israelense
26 jun 26

Entre a força e a diplomacia: o que revela a opinião pública israelense

*por Revital Poleg

Ao completar mil dias desde o massacre de 7 de outubro, a sociedade israelense encontra-se em um dos períodos mais complexos de sua história: uma sequência de guerras em múltiplas frentes contra o Irã e seus proxies regionais, uma campanha militar prolongada no Líbano e em Gaza, e uma crise diplomática sem precedentes entre Jerusalém e Washington.

É nesse contexto que, poucos meses antes das eleições para a 26ª Knesset, se publica o Índice de Política Externa 2026, do Instituto Mitvim, centro israelense de pesquisa dedicado à política externa regional. Os dados da pesquisa, que examina como os israelenses enxergam o
desfecho desejável das guerras atuais, as relações de Israel com seus vizinhos árabes e sua posição no cenário internacional, revelam um quadro complexo e até surpreendente. Mais do que um conjunto de números, o levantamento traça o retrato de uma sociedade que oscila entre um sentimento de segurança profundamente abalado e o desejo de retornar à normalidade.

Os israelenses percebem o presente em termos claramente marcados pela sobrevivência, mas olham para o futuro, em grande medida, com disposição para acordos, integração regional e busca por estabilidade. A característica mais marcante da pesquisa não é uma preferência inequívoca por uma abordagem em detrimento de outra, mas uma distinção consistente entre dois horizontes temporais. Quando as perguntas dizem respeito a ameaças imediatas à segurança, a opinião pública tende a favorecer o uso da força: 42% apoiam a retomada da campanha contra o Irã com o objetivo de, em última instância, levar à queda do regime, enquanto outros 15% defendem sua
retomada para obter um acordo mais favorável. Apenas 16% consideram que a ação militar esgotou seu potencial e que chegou o momento de buscar um acordo.

Também em relação a Gaza, 48% veem a pressão militar como o meio mais eficaz para derrotar o Hamas, dos quais 32% apoiam a retomada dos combates e a ocupação total da Faixa de Gaza. Paralelamente, em relação à  fronteira norte, 63% consideram que a zona de segurança criada por Israel no sul do Líbano contribui, ou contribui em grande medida, a segurança das comunidades israelenses da região.

Entretanto, quando essas mesmas questões deixam de tratar da contenção das ameaças imediatas e passam a abordar a configuração da realidade regional no período posterior aos conflitos, emerge um quadro diferente. Este é, talvez, o resultado mais importante da pesquisa: a sociedade israelense não rejeita soluções diplomáticas, mas estabelece a segurança como condição prévia para sua implementação. Assim, no que diz respeito ao desarmamento do Hezbollah, enquanto 30% consideram que a continuidade da pressão militar israelense é o principal instrumento para alcançar esse objetivo, 41% preferem instrumentos diplomáticos: pressão regional e internacional liderada pelos
Estados Unidos, pela Arábia Saudita e pelos países do Golfo (24%), ou o fortalecimento do governo e do Exército libaneses com apoio internacional (17%). Em outras palavras, também na frente norte a força é vista como um meio para criar as condições necessárias para um acordo, e não como um fim em si mesma.

No caso da Turquia, que no passado foi uma parceira estratégica de Israel e cujas relações bilaterais se encontram hoje em seu nível mais baixo da história, a maioria da população (54%) continua apoiando esforços diplomáticos para restaurar os vínculos. Tendência semelhante surge em relação à Síria: 47% da população apoia a promoção de um acordo com o regime de Ahmed al-Sharaa, enquanto apenas 16% das pessoas defendem a continuidade das tentativas de derrubá-lo. Mais uma vez, observa-se o mesmo padrão: mesmo em arenas
particularmente complexas, uma parcela significativa da sociedade está disposta a considerar diplomáticos quando estes são percebidos como instrumentos para fortalecer o interesse de segurança de Israel.

O dado mais surpreendente da pesquisa diz respeito à questão do Estado palestino, que nos últimos anos se tornou um dos temas mais sensíveis do debate público israelense. Desde 7 de outubro, a oposição política e social à própria legitimidade dessa discussão tornou-se ainda mais intensa. Justamente nesse contexto, o fato de que 41% da população esteja disposta a considerar um Estado palestino desmilitarizado quando apresentado como parte de um pacote mais amplo, incluindo o desarmamento do Hamas, o fim de seu governo, a normalização plena com o mundo árabe e garantias de segurança – constitui um resultado de grande relevância política e pública. Em contrapartida, 40% se opõem a essa possibilidade, enquanto quase um quinto dos entrevistados ainda não formou opinião. Não se trata de uma reviravolta na
opinião pública, mas o dado demonstra que uma parcela significativa da sociedade está disposta a reconsiderar uma alternativa que praticamente desapareceu do debate político, desde que seja apresentada como parte de um amplo arranjo regional e de segurança, e não como uma concessão unilateral.

No que diz respeito à Autoridade Palestina, vale destacar ainda que 57% dos entrevistados apoiam a cooperação com ela em questões ambientais. Esse dado sugere que uma parcela significativa da sociedade, incluindo pessoas que, segundo a própria pesquisa, não apoiam a solução de dois Estados, distingue a controvérsia política da possibilidade de promover formas limitadas de cooperação quando estas atendem a interesses claramente definidos de Israel.

Embora a questão da cooperação em matéria de segurança não tenha sido abordada pela pesquisa, cabe observar que ela continua existindo ao longo de todo esse período, apesar dos desafios e tensões mútuas que surgem ocasionalmente. A continuidade dessa cooperação reforça a prevalência da lógica da realpolitik nas relações entre Israel e a Autoridade Palestina, em detrimento de considerações ideológicas ou emocionais.

A hierarquia de prioridades regionais da sociedade israelense também reflete as mudanças geopolíticas no Oriente Médio. O Egito continua sendo percebido, com larga vantagem, como o parceiro mais importante de Israel na região. Os Emirados Árabes Unidos ocupam o segundo lugar, refletindo a importância das alianças regionais consolidadas nos últimos anos, enquanto a Jordânia, apesar
do antigo tratado de paz e de sua relevância estratégica, aparece em terceiro lugar.

Essa mesma percepção se reflete na forma como a população avalia a situação diplomática e internacional de Israel: 56% não estão satisfeitos com o desempenho do governo na área da política externa; 53% consideram que a posição internacional de Israel é ruim ou relativamente ruim; e 77% demonstram preocupação com a possibilidade de o país tornar-se um Estado "pária". Ao mesmo tempo, 71% consideram importante que Israel faça parte do bloco liberal-democrático do mundo ocidental. Esses dados indicam que a
maioria da sociedade israelense vê a posição internacional de Israel e sua inserção no mundo liberal-democrático como ativos estratégicos com impacto direto sobre sua segurança e sua liberdade de ação. Nesse sentido, apesar da grave crise nas relações entre Jerusalém e Washington, a maioria continua considerando os Estados Unidos o principal aliado estratégico de Israel e apoia a reconstrução dessa relação.

Um aspecto particularmente interessante e relativamente incomum nas pesquisas de opinião sobre segurança e política externa em Israel é o elevado percentual de entrevistados que não adotam uma posição, índice que, em algumas perguntas, varia entre cerca de um quinto e um terço da população. Em uma sociedade conhecida por suas posições firmes nessas questões, trata- se de um dado incomum pela sua magnitude.

O elevado número de respostas "não sei" não reflete desinteresse, como se poderia supor, mas sim uma incerteza estratégica, que também se manifesta na diferença entre as respostas relativas às ameaças imediatas e aquelas voltadas à configuração da realidade regional no médio e no longo prazo. As respostas que orientaram o debate público durante anos já não são suficientes, enquanto as alternativas ainda não se consolidaram. Muitos israelenses compreendem que a realidade regional mudou profundamente, mas ainda encontram dificuldade para definir qual deve ser o caminho mais adequado para moldar o futuro de Israel nesse novo contexto.

Essa é, talvez, a principal mensagem revelada pela pesquisa como um todo: a sociedade israelense não está substituindo uma visão de mundo por outra; ela está redefinindo o próprio conceito de segurança. Para amplos setores da população, a segurança já não se resume à superioridade militar, da mesma forma que a diplomacia já não é percebida como uma alternativa ao uso da força. Ambos os instrumentos são vistos como componentes complementares de uma mesma concepção estratégica: o primeiro cria as condições
necessárias, e o segundo permite potencializar seus resultados ao longo do tempo.

Nesse contexto, as próximas eleições para a 26ª Knesset não colocarão à prova apenas partidos e candidatos. Elas também testarão a capacidade do sistema político que emergirá das urnas de reconhecer a concepção refletida na opinião pública e traduzi-la em uma estratégia nacional abrangente, que veja o poder militar, a iniciativa diplomática, as parcerias regionais e a legitimidade internacional não como alternativas concorrentes, mas como componentes complementares da concepção israelense de segurança nacional.

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Rafi Smith, em parceria com a Fundação Friedrich Ebert, com base em uma amostra representativa de 844 adultos israelenses – judeus e árabes, mulheres e homens-, selecionados de acordo com a distribuição política existente em Israel. A margem máxima de erro da amostra é de ±3,4%. 

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

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