Gaza mil dias depois: o dilema estratégico de Israel
02 jul 26

Gaza mil dias depois: o dilema estratégico de Israel

Revital Poleg

Mil dias após 7 de outubro, enquanto a atenção pública e internacional se volta para as frágeis negociações entre Israel e o Líbano, para a continuidade do confronto em campo contra o Hezbollah e para o delicado processo de barganha entre Washington e Teerã, a questão de Gaza parece ter sido relegada a um segundo plano, sendo percebida, ainda que apenas aparentemente, como uma frente secundária e mais tranquila. 

Entretanto, sob a superfície, consolida-se uma realidade altamente volátil e complexa. Longe de caminhar para o desarmamento, o Hamas trabalha intensamente para reconstruir suas estruturas e capacidades. As Forças de Defesa de Israel (FDI) prosseguem, de forma gradual, expandindo sua presença ao redor da Linha Amarela e consolidando seu controle territorial. Ao mesmo tempo, o Conselho de Paz, criado no âmbito da iniciativa de Donald Trump, promove uma nova arquitetura internacional para Gaza, enquanto procura assegurar para si um regime de imunidade sem precedentes. As questões fundamentais permanecem sem resposta: quem governará a Faixa de Gaza, quais serão os limites da liberdade de ação militar de Israel e qual será, afinal, o destino do Hamas?

A longa campanha militar desgastou severamente as forças regulares do Hamas. Brigadas de linha de frente foram desmanteladas, parte significativa da infraestrutura de túneis foi exposta e a alta cadeia de comando sofreu perdas expressivas. Ainda assim, a organização está longe de entrar em colapso. Ela vem transformando sua estrutura, migrando de um modelo hierárquico para uma rede descentralizada.

No plano organizacional, o Hamas substitui a cadeia de comando tradicional por células menores e mais flexíveis, amplia sua dependência de centros de comando externos, reduz a integração entre diferentes frentes de atuação e retorna a métodos típicos da guerrilha urbana, com o uso de explosivos improvisados, morteiros e operações de baixa assinatura, em substituição ao emprego de grandes formações militares. Paralelamente, a organização restabelece seu controle civil nas áreas das quais as FDI já se retiraram. Reativa administrações locais, volta a arrecadar impostos, reorganiza seus mecanismos de segurança interna e consolida uma soberania de fato nos espaços onde nenhum outro ator é capaz de oferecer estabilidade cotidiana.

Nos últimos dias, oficiais das FDI advertiram o Chefe do Estado-Maior de que o Hamas está aproveitando o atual cessar-fogo para reconstruir suas capacidades militares e estabelecer uma nova infraestrutura operacional para um futuro confronto, alertando para a possibilidade de uma nova escalada no curto prazo. Sob a perspectiva israelense, trata-se de uma transição do “Exército do Hamas” para um “Estado do Hamas”: uma entidade soberana e clandestina que combina controle sobre a população com uma capacidade subversiva que opera abaixo do radar. Para grande parte dos habitantes da Faixa de Gaza, quem consegue preservar a ordem, distribuir recursos e garantir alguma fonte de renda continua sendo a autoridade de referência, mesmo após mil dias de guerra. Esse é o cerne do paradoxo: Israel enfraqueceu de forma significativa o poder militar do Hamas, mas ainda não formulou uma estratégia capaz de desmantelar seu poder como força governante. 

Enquanto isso, as FDI mantêm uma postura simultaneamente ofensiva e defensiva em Gaza, realizando incursões pontuais, ataques seletivos, controlando amplas áreas ao redor da Linha Amarela e preservando uma intensa atividade de inteligência. Nos círculos de segurança israelenses, a avaliação é de que “Gaza está à beira da ebulição”, enquanto o Hamas reconstrói gradualmente sua governança e a população permanece mergulhada em uma profunda crise humanitária, e a avaliação predominante é que a retomada de combates em larga escala depende muito mais de uma questão de tempo do que de possibilidade. Diante desse cenário, as comunidades israelenses da região fronteiriça com Gaza voltam a experimentar um aumento perceptível da tensão e um persistente sentimento de incerteza. 

A dinâmica do vácuo de poder em Gaza levou Israel a tentar institucionalizar uma alternativa local por meio do Projeto de Milícias. No âmbito dessa iniciativa, centenas de integrantes de clãs locais, alguns deles com antecedentes criminais, foram armados com o objetivo de proteger as rotas de ajuda humanitária e enfraquecer o controle territorial do Hamas. Na prática, porém, essa força atua de forma limitada, restrita às áreas de presença das FDI, e, em alguns casos, também se envolve em atividades de contrabando e na cobrança de “taxas de proteção”. Sua contribuição para enfraquecer o governo do Hamas permanece reduzida. Em contrapartida, contribui de maneira significativa para a criação de uma nova camada de desordem: consolida uma anarquia descentralizada, aprofunda a percepção da ausência de uma autoridade soberana e afasta a possibilidade de uma solução sustentável para a administração da Faixa de Gaza.

Em termos estratégicos, trata-se de uma tentativa de evitar uma decisão definitiva: evitar uma reocupação total da Faixa, evitar também o estabelecimento de uma autoridade civil claramente definida e, em seu lugar, apoiar-se em um “mosaico instável” composto pelas FDI, milícias e administrações locais. Dessa forma, Israel permanece profundamente presa ao “pântano de Gaza”, arcando com os custos políticos e de segurança, sem formular um objetivo político claramente definido.

Paralelamente à dimensão militar, uma nova arquitetura internacional para Gaza avança lentamente. O Conselho de Paz, criado como parte do plano de Donald Trump, procura traduzir seus compromissos em medidas concretas no terreno: o desarmamento gradual do Hamas, o desdobramento de uma Força de Estabilização Internacional (ISF), o estabelecimento de uma administração tecnocrática palestina e a reconstrução econômica. No entanto, no terreno, abriu-se um profundo fosso entre a visão e sua implementação: a Força de Estabilização Internacional permanece limitada, o desarmamento do Hamas segue estagnado e a administração tecnocrática continua sem autoridade efetiva. 

Nesse contexto, o Conselho de Paz promove uma controversa iniciativa jurídica destinada a conceder imunidade ampla contra prisões e processos judiciais a seus membros, suas forças e seus contratados, tanto em Gaza quanto na esfera internacional. A proposta cria uma grave anomalia: uma entidade multinacional não eleita busca atuar acima da lei, enquanto Israel e os demais atores regionais permanecem exclusivamente expostos a ações judiciais e ao escrutínio internacional. Para Israel, que durante anos combateu a internacionalização do conflito, trata-se de um paradoxo estratégico: para alcançar o desarmamento, vê-se obrigada a aceitar uma presença internacional ampliada, mas acaba confrontada com uma entidade dotada de imunidade jurídica justamente quando continua a assumir a maior parte da responsabilidade e da culpa. 

O descompasso entre a visão de Trump de uma administração internacional transparente e a realidade, com o Hamas presente no terreno, milícias atuando nas margens da soberania e um Conselho de Paz situado acima da lei, transforma Gaza de um cenário de reconstrução em um laboratório de estruturas de poder sem mecanismos efetivos de prestação de contas. Tudo isso ocorre às vésperas das eleições israelenses de 20 de outubro de 2026, quando se completarão três anos do massacre de 7 de outubro. A realidade em Gaza, somada à instabilidade no norte, ao confronto com o Irã e à dinâmica entre o governo Trump e Benjamin Netanyahu, transforma Gaza de uma questão tática em uma decisão existencial: qual estratégia abrangente Israel escolherá implementar no dia seguinte às eleições? 

A realidade israelense em Gaza pode ser definida hoje, mais do que por qualquer outro conceito, como uma “tensão estratégica não resolvida”. Na prática, Israel encontra-se diante de uma escolha entre três concepções estratégicas distintas:

  • “O impasse administrado”: preservação do status quo, no qual as FDI mantêm superioridade militar, o Hamas conserva uma soberania descentralizada no terreno e o Conselho de Paz impede um colapso humanitário. Trata-se de um modelo de gestão de riscos concebido para evitar decisões políticas e diplomáticas de maior envergadura.
  • Reocupação e controle direto: abandono da dependência de mecanismos internacionais e restabelecimento do controle militar e civil pleno sobre a Faixa de Gaza, com o objetivo de impedir a reconstrução do Hamas. Essa abordagem, defendida pela direita ideológica mais radical, demonstra disposição para assumir os custos decorrentes do desgaste das forças militares, de novas baixas e de um crescente isolamento internacional.
  • Redefinição da estrutura internacional: aproveitar o plano de Trump, baseado no desarmamento, na reconstrução e na parceria regional, condicionando sua implementação à revogação do regime de imunidade do Hamas, ao estabelecimento de mecanismos transparentes de supervisão e ao fortalecimento da aliança com o Egito e com atores palestinos moderados, de modo a impedir que o Conselho de Paz opere como uma “caixa-preta” acima de Israel. Essa visão é compartilhada por altos dirigentes do establishment de segurança israelense, por centros de pesquisa e estudos estratégicos e pelos setores do centro e da centro-esquerda ligados às áreas de segurança e defesa.

Os mil dias transcorridos desde 7 de outubro transformaram Gaza de um caso de “gestão de conflito” em uma encruzilhada estratégica, na qual cada decisão, ou o adiamento dela, moldará a próxima campanha. Em um cenário no qual o Hamas se reorganiza, as FDI passam a adotar um modelo de “defesa por meio da ofensiva” e de zonas de segurança, e o Conselho de Paz procura consolidar para si um regime de imunidade, as próximas eleições definirão não apenas quem liderará Israel, mas também o rumo que o país seguirá em Gaza durante o quarto ano após o massacre. 

O maior perigo já não é apenas a possibilidade de uma nova rodada de combates. O verdadeiro risco reside na possibilidade de que, caso uma nova guerra venha a ocorrer, ela seja travada novamente dentro do mesmo vazio estratégico, sem respostas para perguntas fundamentais: quem governará Gaza, quem será efetivamente desarmado, quem assumirá a responsabilidade pelo futuro da Faixa e qual arquitetura política e de segurança será capaz de transformar um “cessar-fogo tenso” em uma ordem estável? Se Israel não formular uma resposta clara para si mesma, para sua sociedade e para seus parceiros, outros atores o farão em seu lugar, em prejuízo de sua segurança e de sua estabilidade no longo prazo.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons    

Artigos Relacionados

Manifesto em defesa da liberdade religiosa, contra o antissemitismo e pela democracia brasileira
Manifesto em defesa da liberdade religiosa, contra o antissemitismo e pela democracia brasileira

Calendar icon 12 de dezembro de 2025

  Uma produção do Laboratório de Estudos Judeidade e Negritude, coordenado por Edilmar Alcantara e vinculado ao projeto IBI no Campus. ASSINE AQUI O MANIFESTO Nos últimos tempos, o Brasil tem assistido ao avanço preocupante de práticas de intolerância que ferem os pilares mais essenciais de nossa Constituição: a liberdade religiosa, a dignidade humana e […]

Arrow right icon Leia mais
Igualdade de gênero em tempos de guerra: Dia Internacional da Mulher em Israel
Igualdade de gênero em tempos de guerra: Dia Internacional da Mulher em Israel

Calendar icon 7 de março de 2024

Revital Poleg Parece que o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, não pode ser, aqui em Israel, apenas mais um dos inúmeros dias assim marcados anualmente. O espectro da feminilidade que deve ser reconhecido neste dia estende-se de um extremo a outro: começando pelo terrível lado de assassinato brutal, estupro, abuso sexual […]

Arrow right icon Leia mais
Como será o amanhã em Gaza?
Como será o amanhã em Gaza?

Calendar icon 25 de março de 2024

Daniela Kresch TEL AVIV – Quem vai liderar Gaza no dia seguinte à guerra entre Israel e o Hamas? Cinco meses depois do começo da guerra, muita gente parece impaciente por uma resposta. A necessidade de um plano concreto quanto ao futuro da Faixa de Gaza e seus dois milhões de habitantes é grande. Mas, […]

Arrow right icon Leia mais