Para além do aperto de mão: diplomacia realista na construção da paz
10 jul 26

Para além do aperto de mão: diplomacia realista na construção da paz

Por Revital Poleg*

No livro O Processo, o embaixador Uri Savir, chefe da equipe israelense de negociações em Oslo, descreve seu primeiro e tenso encontro com seu homólogo palestino, Ahmed Qurei (Abu Ala). O encontro entre os dois, representando lados considerados inimigos declarados, começou quando Abu Ala tentou explorar as origens familiares de Savir.

  • “De onde você é?”, perguntou Abu Ala.
  • “De Jerusalém”, respondeu Savir.
  • “Eu também sou de Jerusalém”, disse Abu Ala, antes de perguntar de onde era o pai de Savir.

Foi então que Savir redirecionou a conversa e formulou um princípio que se tornaria um dos alicerces metodológicos de todo o processo de negociação:

“Se continuarmos por esse caminho, acabaremos chegando ao rei Davi. Tenho certeza de que poderemos discutir o passado durante anos sem chegar a qualquer entendimento. Talvez devêssemos verificar se conseguimos chegar a um entendimento sobre o futuro.”

Abu Ala concordou, e, com isso, abriu-se o caminho para o início do processo.

Como diplomata que acompanhou esse processo de perto, aprendi que o momento não representa apenas um gesto simbólico para ‘quebrar o gelo’. Ele representa o coração da diplomacia prática. Em uma realidade marcada por desconfiança existencial e hostilidade profunda, acordos políticos não nascem do afeto nem de uma súbita reconciliação histórica. Eles nascem de uma decisão fria, complexa e extraordinariamente difícil: deixar de lado, ainda que temporariamente, a compreensível disputa sobre o passado, para tornar possível a construção do futuro. 

Cerimônias oficiais de assinatura de acordos de paz e de outros acordos políticos despertam enorme emoção pública e expectativas elevadas, e com razão. Destinados a transformar uma realidade humana, esses momentos em que líderes apertam as mãos diante das câmeras carregam uma promessa histórica significativa. No entanto, essas cerimônias estão longe de representar o fim da história. Em grande medida, elas marcam apenas o seu começo. As expectativas naturais do público frequentemente alimentam a percepção equivocada de um “done deal“, como se a assinatura de um documento fosse capaz, por si só, de resolver um conflito.

A realidade demonstra que um acordo não é um documento jurídico estático. Mesmo depois de assinado, ele continua sendo um organismo vivo. Exige concessões, ajustes e aperfeiçoamentos, enfrenta pressões políticas internas em ambos os lados e, acima de tudo, depende de uma disposição política contínua de ambas as partes para assegurar sua continuidade ao longo do tempo.

Diante dessa complexidade e dinâmica permanente, torna-se ainda mais importante ampliar o olhar. Israel, inserido em uma das regiões mais conflituosas do mundo, constitui um laboratório singular, que experimentou diversos tipos de arranjos diplomáticos, embora ainda tenha um longo caminho a percorrer rumo à estabilidade duradoura. Por isso, vale observar diferentes experiências internacionais e como distintos modelos de acordo produzem resultados distintos, revelando tanto seu potencial quanto suas limitações. 

A literatura acadêmica em resolução de conflitos costuma distinguir entre “paz negativa”, entendida como ausência de guerra, e “paz positiva”, caracterizada pela construção de uma relação entre as partes. Um cessar-fogo representa uma medida tática e imediata, normalmente limitada no tempo, destinada a interromper temporariamente os combates para permitir objetivos humanitários, como a evacuação de feridos ou a entrega de assistência. Já um armistício constitui uma etapa política muito mais substantiva. Ele não possui, necessariamente, prazo determinado; estabelece as condições de posicionamento das forças em campo, delimita linhas provisórias de separação e cria mecanismos de supervisão. Ambos os instrumentos se concentram no controle do uso da força e na gestão dos riscos. Um acordo de paz, por sua vez, representa a transição para a chamada paz positiva, definindo estrategicamente o que as partes passarão a construir juntas nos campos econômico, diplomático e da convivência cotidiana. 

A diferença entre esses caminhos aparece com clareza na experiência internacional. Na Península Coreana, o armistício assinado em 1953 envolvendo a Coreia do Norte, a Coreia do Sul e o Comando das Nações Unidas evitou uma nova guerra em larga escala por mais de sete décadas. No entanto, na ausência de qualquer motor político ou civil comum, os dois países permanecem, até hoje, tecnicamente em estado de guerra, enquanto a região continua vivendo sob permanente tensão. Esse modelo demonstra que um armistício que não evolui para um acordo político mais abrangente produz uma paz congelada e potencialmente perigosa. 

Em contraste, o Acordo de Paz de Dayton, firmado em 1995 para encerrar a guerra na Bósnia e Herzegovina, seguiu uma lógica diferente. O cessar-fogo imposto pela OTAN foi utilizado como base imediata para a criação de uma estrutura federal compartilhada de governo, demonstrando como um campo de batalha pode ser substituído por instituições políticas compartilhadas, ainda que essas continuem marcadas por profundas tensões nacionalistas. 

A perspectiva israelense evidencia essa distinção de maneira particularmente clara. O Acordo de Separação de Forças firmado entre Israel e Síria em 1974, após a Guerra do Yom Kippur, foi considerado durante quatro décadas um modelo de estabilidade militar. A fronteira permaneceu completamente tranquila, mas continuou sendo uma fronteira fria e fortemente militarizada, demonstrando que a ausência de guerra não equivale, necessariamente, à existência de paz. 

Na década de 1990, porém, paralelamente ao Processo de Oslo, Israel buscou alterar esse paradigma por meio de negociações com Damasco, que incluíam uma eventual retirada das Colinas de Golã. As conversas, porém, acabaram estagnadas. Diante das profundas transformações políticas na Síria, abriram-se novas possibilidades de interação. Atualmente, as partes mantêm mecanismos de coordenação voltados principalmente para inteligência e redução de tensões militares.

Quando as negociações procuram avançar além de uma simples estabilidade militar, a dinâmica humana do processo alcança seu ponto mais sensível: o momento em que surge o temor existencial associado à perda do poder militar. Por essa razão, a desmilitarização não constitui apenas um conceito militar. Ela representa um mecanismo psicológico destinado a oferecer uma rede de segurança aos receios tanto dos líderes quanto das suas respectivas sociedades.

Na Irlanda do Norte, durante a implementação do Acordo da Sexta-Feira Santa, em 1998, o processo de descomissionamento das armas dos grupos paramilitares quase levou as negociações ao colapso em diversas ocasiões. A entrega das armas era percebida como rendição e perda de identidade. Somente definições cuidadosamente graduais, que preservaram a dignidade política e simbólica de cada lado, permitiram que o processo avançasse.

O acordo de paz entre Israel e Egito, assinado em 1979, nasceu na esteira de uma guerra traumática e extremamente sangrenta. No início das negociações, Menachem Begin e Anwar Sadat mantinham uma relação marcada por profunda desconfiança, circunstância que obrigou Jimmy Carter a conduzir uma intensa “shuttle diplomacy” durante as negociações de Camp David para impedir o fracasso das conversas. Apesar dos inúmeros obstáculos enfrentados ao longo das décadas, inclusive no contexto atual, o acordo continua em vigor porque ambos os lados mantiveram a compreensão estratégica de que a paz permanece sendo preferível a qualquer alternativa.

O tratado de paz entre Israel e Jordânia, firmado em 1994, nasceu de uma dinâmica bastante diferente. Ele foi sustentado por décadas de interesses estratégicos convergentes e por canais discretos de comunicação realizados muito antes da assinatura oficial, que permitiram construir uma sólida base de confiança mútua e vontade política compartilhada entre as lideranças.

Esses dois exemplos demonstram que acordos originados por trajetórias distintas podem revelar uma notável capacidade de perdurar e preservar sua importância estratégica para as partes, ainda que continuem enfrentando desafios significativos até os dias atuais.

Ao lado dos modelos que se mostraram capazes de perdurar, a história também registra acordos que fracassaram de forma dramática e culminaram em verdadeiras tragédias. Um exemplo emblemático são os Acordos de Paz de Paris, assinados em 1973 entre Estados Unidos, Vietnã do Sul, Vietnã do Norte e a Frente Nacional de Libertação. Eles visavam encerrar a guerra, mas rapidamente mostraram-se incapazes de produzir resultados concretos. Pouco depois da retirada das forças norte-americanas, o Vietnã do Norte violou o cessar-fogo, lançou uma ofensiva em larga escala e conquistou o Sul em 1975.

Também no caso dos Acordos de Oslo, embora continuem formalmente em vigor, o processo jamais foi plenamente implementado. Nos últimos anos, os mecanismos de cooperação entre as partes foram progressivamente reduzidos, refletindo a política do atual governo em relação aos acordos. 

A paz não se constrói com base em confiança cega, mas sim por meio da administração cuidadosa da desconfiança, segundo o princípio de “confiar, mas verificar”. Acordos duradouros dependem de mecanismos independentes e robustos de monitoramento, capazes de funcionar como amortecedores diante de inevitáveis crises. As atuais negociações para um acordo político entre Israel e Líbano representam exatamente esse desafio. Será possível aproveitar essa oportunidade?

Em última análise, a experiência internacional demonstra que a questão central não é se a paz é possível, mas como construí-la. Para Israel e seus vizinhos, o caminho não passa por ilusões de reconciliação instantânea, mas por uma diplomacia realista e pragmática. A chave está em transformar as lições do passado em uma arquitetura de segurança capaz de neutralizar temores existenciais por meio de mecanismos rigorosos de supervisão. O esforço é complexo, mas redesenhar a realidade regional continua sendo a única alternativa estratégica viável.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

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