Entre Jerusalém e Ramallah: o duplo teste eleitoral de 2026
10 ago 26

Entre Jerusalém e Ramallah: o duplo teste eleitoral de 2026

Revital Poleg

Em 27 de outubro de 2026, os cidadãos israelenses irão às urnas. Menos de um mês depois, em 28 de novembro, estão previstas, pela primeira vez em duas décadas, eleições para o Conselho Legislativo Palestino. No papel, trata-se de dois eventos inteiramente distintos: de um lado, eleições democráticas em um Estado soberano; de outro, uma votação em uma entidade semi autônoma, mergulhada em crise institucional, fragilidade interna e ausência de horizonte político. Na prática, porém, esses dois processos eleitorais estão interligados e colocarão Jerusalém, Ramallah e Gaza diante de um teste estratégico sem precedentes.

Desde as últimas eleições para o Parlamento palestino, realizadas em janeiro de 2006, nas quais o Hamas venceu e, posteriormente, assumiu pela força o controle da Faixa de Gaza, o órgão legislativo palestino permanece paralisado. Desde então, o presidente Abbas continuou governando a Autoridade Palestina na Cisjordânia por meio de decretos presidenciais, sem um Parlamento ativo nem mecanismos efetivos de freios e contrapesos.

O decreto presidencial publicado por Abbas em 9 de julho de 2026 determina a realização de eleições parlamentares no prazo de quatro meses e de eleições presidenciais no início de 2027. No papel, as eleições para o Conselho Legislativo devem ocorrer em Jerusalém Oriental, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas o decreto evita esclarecer como a votação poderá ser realizada em Jerusalém, sujeita a restrições israelenses, e em Gaza, controlada pelo Hamas.

O anúncio de Abbas decorre de forte pressão econômica e política por parte dos Estados Unidos e da União Europeia, que condicionaram a continuidade do financiamento à Autoridade Palestina à implementação de reformas e à apresentação de uma liderança legítima. A iniciativa também busca organizar a disputa sucessória dentro do Fatah e bloquear juridicamente o Hamas, mediante a exigência de adesão à plataforma da OLP e aos acordos internacionais, incluindo os Acordos de Oslo e o reconhecimento de Israel.

Uma sociedade sedenta por mudança, uma liderança sem credibilidade

Pesquisas aprofundadas do Palestinian Center for Policy and Survey Research (PCPSR), dirigido pelo Dr. Khalil Shikaki, apontam uma dinâmica clara: mais de 60% apoiam a realização de eleições parlamentares, mas, mais de 65% consideram que se trata sobretudo de uma iniciativa destinada a satisfazer os países doadores e que as chances de as eleições efetivamente ocorrerem são praticamente nulas. A memória coletiva palestina de 2021, quando Mahmoud Abbas cancelou as eleições no último momento sob o pretexto de obstáculos impostos por Israel em Jerusalém Oriental, embora, na prática, temesse uma derrota para o Hamas, permanece viva.

Os dados das pesquisas traçam um quadro político ainda mais complexo. Ao lado da exigência categórica de cerca de 75% da população por uma mudança de liderança e pela renúncia de Abbas, destaca-se a posição de Marwan Barghouti, preso em Israel e consistentemente à frente nas pesquisas. Uma lista independente liderada por ele deverá superar tanto a corrente central do Fatah quanto o Hamas. Ao mesmo tempo, embora o Fatah demonstre uma recuperação parcial na Cisjordânia, a força do Hamas vem se desgastando em comparação com o pico de popularidade registrado após 7 de outubro, enquanto uma parcela elevada de eleitores indecisos permanece sem uma referência política definida.

Tudo isso ocorre paralelamente a um profundo dilema interno no Hamas. A escolha de Khalil al-Hayya para chefiar o Bureau Político, justamente neste momento, sinaliza o fortalecimento da ala de Gaza em detrimento da liderança externa e impõe uma linha organizacional mais rígida e beligerante. De um lado, a exigência de Abbas de reconhecimento da OLP e dos Acordos de Oslo é inteiramente inaceitável para o movimento; de outro, o Hamas teme permanecer fora do jogo político, mas se recusa a conceder legitimidade gratuita a Abbas sem garantias internacionais, por parte do Catar, do Egito ou da Turquia, de que as eleições efetivamente serão realizadas.

Para contornar esse impasse, o Hamas adota uma estratégia indireta: apoiar listas de “tecnocratas independentes” e figuras públicas não oficialmente identificadas com o movimento. Esse padrão já se mostrou eficaz nas eleições locais realizadas na Cisjordânia e em Deir al-Balah, em abril, nas quais a organização conseguiu assegurar influência prática sem comprometer sua identidade ideológica nem se submeter às condições de elegibilidade.

O dilema israelense: gestão de riscos ou vácuo estratégico

Para Israel, as eleições na Autoridade Palestina não constituem apenas um assunto interno palestino. O governo que vier a ser formado, ou que permanecer no poder após as eleições de outubro terá de formular uma política diante de um sistema político palestino em processo de transformação.

A experiência de 2021 demonstrou claramente o risco de frustrar eleições. Naquele momento, Israel contribuiu para seu cancelamento por meio de uma ambiguidade tática em torno da questão de Jerusalém Oriental. A medida estava alinhada à concepção do governo Netanyahu de então, que buscava enfraquecer e fragmentar a Autoridade Palestina, mas, na prática, produziu uma erosão profunda de sua legitimidade. Em última instância, essa política beneficiou o Hamas, que explorou o episódio para se apropriar da bandeira da luta pelo direito de voto.

Agora, a liderança israelense enfrenta um duplo dilema, no qual cada alternativa tem um elevado custo estratégico:

A opção de impedir o processo, direta ou indiretamente: a criação de obstáculos logísticos e de segurança em Jerusalém Oriental que inviabilizem as eleições poderá impedir uma conquista política direta do Hamas, mas também acelerará o colapso da Autoridade Palestina, aprofundará o isolamento internacional de Israel e aumentará o risco de toda a arena deslizar para a anarquia ou para uma realidade binacional de facto.

A opção de aceitar o processo: admitir eleições nas quais o Hamas participe, oficialmente ou por meio de listas de fachada, colocará Israel e a comunidade internacional diante de um Parlamento no qual uma organização terrorista exercerá influência política institucionalizada, ainda que ao lado de atores civis e pragmáticos.

Paralelamente, os países doadores ocidentais, em especial EUA e países da Europa, que pressionaram Abbas a renovar o mandato democrático, procuram manobrar por meio da imposição de “eleições controladas”. Essa tentativa, porém, cria um impasse estrutural. Quanto mais rígidas forem as condições de participação, mais o Hamas será empurrado para fora do processo, esvaziando sua legitimidade aos olhos da sociedade palestina; quanto mais flexíveis forem essas condições, mais os governos ocidentais terão de contornar suas próprias legislações e enfrentarão dificuldades jurídicas e políticas para continuar transferindo assistência financeira à Autoridade Palestina sem correr o risco de violar o regime internacional de sanções contra o financiamento do terrorismo.

Um espelho para a política israelense

Um novo adiamento das eleições aprofundará o desespero nas ruas palestinas, destruirá por completo a legitimidade das instituições e aumentará a agitação no terreno. Em contrapartida, sua realização, mesmo que parcial, redesenhará o mapa político: a posição de Abbas será dramaticamente enfraquecida, Barghouti provavelmente consolidará seu status como principal alternativa de liderança, e o Hamas preservará sua influência política por meio de mecanismos indiretos.

Uma análise sóbria demonstra que as eleições de novembro submetem a política israelense a um teste rigoroso: elas expõem as limitações da doutrina de “gestão do conflito”, o alto custo do uso estratégico da divisão entre Gaza e a Cisjordânia e a esterilidade do adiamento das decisões.

A sequência de eleições em outubro e novembro de 2026 não representa apenas uma coincidência temporal; ela constitui um ponto de interseção decisivo. Enquanto a Autoridade Palestina enfrenta uma transição de gerações e identidades, os representantes eleitos em Israel serão submetidos a um teste histórico: espera-se que o governo formado em Jerusalém após outubro demonstre a coragem política necessária para abandonar a sacralização do status quo e começar a definir uma nova e estável arquitetura regional, por mais complexa que ela seja.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: WikimediaCommons

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