“O medo mudou de lado”: quando o terrorismo judaico adquire legitimidade estatal
01 set 26

“O medo mudou de lado”: quando o terrorismo judaico adquire legitimidade estatal

Revital Poleg

Há cerca de uma semana, na aldeia palestina de Madama, ao sul de Nablus, o deputado Zvi Sukkot, do partido Sionismo Religioso, destruiu um monumento que glorificava terroristas palestinos responsáveis pelo assassinato de israelenses. Como o acesso ao local exige escolta das Forças de Defesa de Israel, Sukkot informou às autoridades militares que o objetivo de sua visita seria apenas uma “visita a monumentos” e, com base nisso, recebeu a correspondente escolta de segurança. Ao chegar ao destino, porém, empunhou uma marreta e começou a destruir o monumento a golpes. Assim que o Exército tomou conhecimento do ocorrido, a visita foi imediatamente interrompida. 

Em uma nota de condenação excepcionalmente dura, o porta-voz das FDI afirmou que Sukkot e seus assessores haviam agido de forma “mentirosa e manipuladora”, desviado tropas de missões operacionais e colocado soldados em risco desnecessariamente. A condenação pública veio também de praticamente todo o espectro político israelense, inclusive de integrantes do próprio partido de Sukkot. O dano internacional, contudo, já estava feito.

Em Israel, às vésperas das eleições de 2026, o episódio de Madama já não pode ser tratado como mais uma provocação política marginal. Ele reflete um processo profundo e perigoso, construído ao longo dos anos, de passagem de uma violência criminosa nas margens, condenável e delituosa por si só, para um terrorismo aberto e deliberado, que se vale dos recursos e dos símbolos do próprio Estado para desafiar sua autoridade.

O terrorismo judaico ultranacionalista há muito deixou de ser um problema local e, certamente, já não pode ser descrito como um fenômeno social protagonizado por jovens desvinculados, que haviam ficado à margem das principais estruturas de integração social, familiar e educacional. Trata-se da expressão extrema de um processo ideológico crescente que coloca uma visão messiânica acima da lei, da soberania e do próprio sentido de Estado. 

Para compreender a gravidade do momento, é preciso observar a transformação que esse fenômeno sofreu ao longo dos anos. Yair Sheleg, pesquisador da sociedade sionista religiosa e pesquisador associado do Shalom Hartman Institute, descreveu no passado os fundadores de fazendas e postos avançados, os chamados “jovens das colinas”, sobretudo como jovens que haviam se desligado das estruturas educacionais e familiares. Em seu livro “O cordão de três dobras” (2024), ele mostra como o sionismo religioso existiu historicamente sob uma tensão saudável entre três polos: o religioso, o nacional e o universal-liberal. Nas últimas décadas, porém, à medida que o polo nacional-messiânico passou a reivindicar exclusividade, princípios como Estado de Direito, a contenção do poder e a igualdade perante a lei foram sendo progressivamente relegados a segundo plano. Desde então, aqueles “jovens” cresceram. Agrupamentos temporários transformaram-se em redes de ação organizadas, financiadas e com inserção política.

A mudança não é apenas ideológica, mas também operacional. Dados do sistema de segurança indicam que, do início de 2026 até julho, foram registrados cerca de 660 episódios de terrorismo judaico nos territórios, um salto expressivo em relação aos 440 registrados no mesmo período de 2025. As vítimas não são atores armados, mas civis palestinos, homens e mulheres de todas as idades, incluindo famílias inteiras, crianças e idosos, atingidos em suas casas e em seus campos. Não menos grave é o fato de que, paralelamente, foram registradas dezenas de agressões diretas contra as próprias forças de segurança israelenses, dado que levou o comandante do Comando Central, general Avi Bluth, a classificar explicitamente o incêndio de casas e veículos com pessoas em seu interior como terrorismo em todos os sentidos.

As raízes ideológicas da atual rebelião contra as instituições do Estado remontam ao Plano de Desengajamento de 2005, que produziu uma ruptura profunda no interior do sionismo religioso, abalou a confiança de seus setores mais radicais no sentido de Estado israelense e deu origem a uma concepção anarquista-religiosa. Hoje, quando essa visão de mundo recebe respaldo e representação política de alto nível dentro do próprio governo, sob a liderança do ministro Bezalel Smotrich, que detém amplas competências civis nos territórios, e diante do silêncio ensurdecedor do primeiro-ministro, o embate já não diz respeito às fronteiras do Estado nem à política de segurança. Trata-se de uma disputa sobre a própria ideia de Estado: a lei israelense é uma estrutura vinculante ou apenas uma diretriz condicional, que pode ser contornada em nome de uma verdade messiânica superior? 

Em seu novo livro, “No caminho dos patriarcas” (agosto de 2026), o rabino Dr. Benny Lau, historiador, articulista e uma das principais vozes da ortodoxia moderna, apresenta um contundente exame de consciência moral a partir do próprio meio em que se formou. Lau coloca um espelho diante do mainstream do público sionista religioso e dos colonos, composto em sua maioria por cidadãos que respeitam a lei, e trava uma batalha pelo caráter moral desse segmento diante de uma minoria violenta e ruidosa que pretende ditar a agenda. 

O alerta de Lau não é menos do que uma bomba-relógio. Seu diagnóstico central é que “o medo mudou de lado”. A expressão não descreve apenas a ansiedade cotidiana das famílias palestinas que vivem ao lado de focos de violência do terrorismo judaico. Ela descreve também o momento perigoso em que as autoridades israelenses responsáveis pela aplicação da lei e as forças de segurança recuam diante da necessidade de agir e exercer sua autoridade, bem como o momento em que cidadãos sionistas religiosos moderados têm dificuldade em defender a própria ideia de que também a soberania judaica deve estar sujeita a limites morais. 

O principal perigo não se esgota nos terroristas que atuam no terreno, mas reside no vácuo de aplicação da lei e no respaldo sistêmico. Quando fazendas e postos avançados ilegais, erguidos continuamente nos territórios, recebem legitimidade e infraestrutura estatais, enquanto os alertas das forças de segurança são ignorados pelo escalão político, a soberania israelense é esvaziada de seu conteúdo. 

Essa erosão tem um preço duplo e imediato. No plano interno, ela representa um grave comprometimento do monopólio das Forças de Defesa de Israel sobre o uso da força, um atropelo ao Estado de Direito e o desmantelamento dos freios morais da sociedade israelense. No plano internacional, o descontrole no terreno corrói ainda mais a já desgastada legitimidade de Israel, prejudica ainda mais suas relações com seus aliados ocidentais e acelera a imposição de sanções internacionais diretas contra atores e organizações israelenses. 

As próximas eleições ampliam o risco de perda de controle e de desagregação do Estado de Direito. O temor dos partidos da coalizão de perder votos para seu flanco mais radical incentiva a evitar o confronto e reforça ainda mais sua disposição de fechar os olhos diante do terrorismo judaico, fenômeno que, mesmo antes, no melhor dos casos recebia apenas condenações tímidas. No entanto, o episódio de Madama liderado pelo deputado Sukkot, o salto acentuado nos episódios de violência e os alertas cada vez mais duros do sistema de segurança já não deixam margem para dúvidas quanto à gravidade do perigo.

O terrorismo judaico nos territórios não é uma questão marginal nem local. Ele é um teste existencial para a identidade do Estado de Israel. O desafio colocado diante de nós não se limita à pergunta sobre quem formará o próximo governo. Trata-se de saber se a sociedade israelense ainda será capaz de restabelecer a fronteira entre fé e força, entre missão messiânica e uma soberania fundada no Estado de Direito, na moralidade e no sentido de Estado. 

O desafio é imenso. Mas, se as tendências de mudança que hoje se delineiam se confirmarem, a mudança virá de dentro, da capacidade da própria sociedade israelense de restaurar os limites morais do poder e reafirmar o Estado de Direito, a responsabilidade pública e a integridade democrática do país. 

Devemos isso a nós mesmos e aos nossos filhos.

*Revital Poleg é colaboradora do Instituto Brasil-Israel. Diplomata israelense aposentada, trabalhou com Shimon Peres durante os Acordos de Oslo.

Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.

Foto: Reprodução X (Zvi Sukkot)

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