O voto em Tel Aviv: Como a política externa de Lula consolidou a vitória de Flávio Bolsonaro em Israel
Daniela Kresch
TEL AVIV — Os eleitores brasileiros que vivem em Israel votaram em massa em Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras de 2026, neste 4 de outubro. Flávio recebeu 523 dos 704 votos válidos apurados, o equivalente a 74,29%. Já o presidente Lula obteve apenas 92 votos (13,07%), num claro reflexo do distanciamento do eleitorado local do líder do PT que busca a reeleição.
Foi o maior percentual para um candidato da família Bolsonaro desde 2018, quando Jair, o pai de Flávio, recebeu 66,5% dos votos nominais, um percentual alto, alicerçado na imagem de “amigo de Israel”. Ciro Gomes ficou, na época, em segundo lugar, com 12,5%. Fernando Haddad só em terceiro, com apenas 6,8% dos votos
O apoio a Bolsonaro, no entanto, caiu em 2022, quando ele recebeu 45,9% dos votos nominais, numa vantagem estreita em relação a Lula, que alcançou 36,6%. Desta vez, a rejeição a Lula fez o eleitorado brasileiro em Israel se unir contra o presidente em prol do candidato opositor. O cenário evidencia e reflete a perda de fôlego do petismo entre os brasileiros residentes em Israel.
A análise dos resultados do primeiro turno das eleições de 2026 não pode ser dissociada do profundo desgaste nas relações diplomáticas entre o governo Lula e o Estado de Israel após o fatídico 7 de outubro de 2023. A postura do presidente brasileiro, que passou a classificar repetidamente Israel como “genocida” e alinhou a política externa brasileira à ação da África do Sul junto ao Tribunal Penal Internacional (TPI) — acusando Israel de cometer genocídio em Gaza — gerou um impacto direto na percepção da comunidade brasileira em Israel. Israel e Brasil por pouco não cortaram relações diplomáticas nesses últimos três anos. No momento, não há um qualquer embaixador de Israel em Brasília e nem um embaixador do Brasil em Tel Aviv.
Essa retórica não apenas foi interpretada por grande parte desse eleitorado como uma hostilidade fundamental, mas também foi acompanhada pelo aumento de incidentes e de um clima antissemita no Brasil, o que reverberou negativamente entre os cidadãos brasileiros radicados em Israel. Certamente, as manifestações da esquerda brasileira contra Israel – muitas com participação de militantes do PT – nas ruas das capitais e em universidades não ajudaram a ganhar o eleitorado brasileiro no país do Oriente Médio. As marchas com bandeiras do Hamas, gritos de “Do rio ao mar, palestina será livre”, às vezes acompanhadas da queima da bandeira de Israel, amedrontaram e chocaram esse eleitor.
O distanciamento ideológico, que já era uma realidade, transformou-se em uma clara repulsa eleitoral. A diplomacia brasileira, vista em 2018 como promissora sob a marca bolsonarista, passou a ser percebida em 2026 como antagônica aos interesses e à segurança de Israel, afastando eleitores que, em 2022, cogitavam o PT como uma alternativa de moderação.
É fundamental pontuar, contudo, que o universo votante em 2026 foi restrito. Dos 3.442 eleitores aptos a votar na embaixada de Israel em Tel Aviv, apenas 730 compareceram às urnas — um índice de participação baixo, de aproximadamente 21%. Esse número é explicado por múltiplos fatores: além de um possível desinteresse político de parte da comunidade, há um entrave logístico crônico.
A existência de apenas um local de votação para todo o país, concentrado na embaixada em Tel Aviv, cria uma barreira geográfica significativa. Somado a isso, o fato de a eleição ter ocorrido em um domingo, dia útil em Israel, inviabilizou ou dificultou o deslocamento de brasileiros que residem longe do Centro do país ou que não puderam obter dispensa de seus empregadores, limitando a representatividade da votação ao perfil dos eleitores que possuem maior facilidade de acesso ou maior engajamento político.
O resultado final na Embaixada em Tel Aviv, portanto, talvez reflita menos a afinidade ideológica com Flávio, mas a resposta de uma comunidade – a maioria formada por judeus, mas nem todos – que se sentiu alienada e confrontada pela condução da política externa brasileira em relação a Israel, o que levou a uma onda de antissemitismo que atinge seus parentes e amigos no Brasil.
Portanto, não é um choque para ninguém que os brasileiros de Israel tenham votado em massa em Flávio – talvez menos por convicção e mais por rejeição ao líder do PT. Duvido que alguém, na campanha de Lula, esperasse algo diferente.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Daniela Kresch
Artigos Relacionados
Violência contra mulheres em 2025: a realidade que o governo israelense prefere ignorar
28 de novembro de 2025
Em um momento simbolicamente cruel, marcado pelo Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres, lembrado dia 25 de novembro, uma jovem de 30 anos foi assassinada na vila de Jatt. Ela é a 38ª mulher morta desde o início do ano em Israel. Tudo indica que 2025 será o ano mais letal […]
Negociações sob fogo: Israel entre a guerra e a diplomacia no Líbano
12 de maio de 2026
Na próxima quinta-feira, 15 de maio, será realizada em Washington a terceira rodada de conversas diretas entre representantes de Israel e do Líbano, sob mediação americana. Mesmo que as duas rodadas anteriores ainda estejam longe de representar um avanço concreto, o simples fato de essas conversas ocorrerem – pela primeira vez desde o colapso do […]
Netanyahu desmonta a democracia: as instituições do Estado que foram tomadas – e há outras lutam pela sua sobrevivência
27 de março de 2025
Desde que chegou ao poder, o governo Netanyahu vem atacando instituições estatais com o objetivo de assumir o seu controle * Em muitos casos ele foi bem sucedido: em 24 instituições de poder que são críticas para a estrutura democrática, a maioria se encontra sob ataques políticos – ou já foram tomadas * A última […]