Eleições 2026: por que Flávio venceu em Tel Aviv e a preocupação quanto ao novo governo Lula
Daniela Kresch
TEL AVIV — No segundo turno das eleições brasileiras de 2026, os eleitores residentes em Israel reafirmaram o apoio massivo a Flávio Bolsonaro, que acabou perdendo o pleito de virada para Lula. Nas cinco seções eleitorais montadas na embaixada do Brasil em Tel Aviv, o Flávio consolidou uma vitória expressiva, repetindo — e superando — o desempenho de seu pai em eleições anteriores.
Dos 902 eleitores que compareceram às urnas, 699 votaram em Flávio Bolsonaro, o que representa 77,49% do total ou 80,62% dos votos válidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve 166 votos (18,40% do total e 19,15% dos votos válidos).
O resultado sinaliza um retorno à tendência de 2018, quando Jair Bolsonaro venceu com 77,27% dos válidos. Flávio, contudo, elevou a marca para 80,62%. Em 2022, o cenário foi distinto: a vantagem de Bolsonaro contra Lula havia diminuído significativamente (53,4% contra 46,6%), espelhando, à época, a tendência anti-bolsonarista observada no território nacional.
A guinada em 2026 tem explicação clara: a profunda insatisfação da comunidade brasileira com a política externa de Lula em relação a Israel. Desde o atentado terrorista de 7 de outubro de 2023, a retórica do presidente brasileiro — que rotulou repetidamente Israel como “genocida” e alinhou a diplomacia do país à ação da África do Sul junto ao Tribunal Penal Internacional (TPI) — gerou um impacto direto e negativo na percepção dos brasileiros que vivem no Estado judeu.
Fatores como a retirada do Brasil, em julho de 2025, da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) e a explosão dos casos de antissemitismo no Brasil (aumento de 350%) agravaram o cenário. A percepção de complacência do governo petista frente a manifestações que, muitas vezes, mesclaram críticas a Israel com simbologia ligada ao Hamas e slogans como “do rio ao mar, a Palestina será livre”, causou choque e medo, traduzindo-se agora em voto.
Para essa comunidade, as falas de Lula ecoaram como um distanciamento deliberado. Muitos se sentiram “abandonados” e expressaram preocupação com a segurança de familiares e amigos no Brasil diante da escalada de hostilidades. O temor, agora, é que a reeleição de Lula agrave ainda mais as relações diplomáticas entre Brasil e Israel e, pior, leve a um aumento nos casos de antissemitismo.
Ainda que houvesse debate interno entre os brasileiros, nas três semanas entre o primeiro e o segundo turnos, sobre priorizar a diplomacia local em detrimento de outros temas nacionais, o voto anti-PT consolidou-se como a força motriz deste pleito na embaixada de Tel Aviv.
Houve muita discussão entre os brasileiros sobre se o foco local na diplomacia deveria superar o pensamento sobre que candidato seria melhor para o Brasil. O dilema entre colocar o antagonismo de Lula a Israel como prioridade ou ignorar as palavras do presidente foi uma realidade para muitos. Outros, no entanto, já tendiam para um voto anti-PT independentemente dessa questão.
É importante ressaltar, contudo, o baixo comparecimento. Apenas 26,20% dos 3.443 eleitores aptos em Israel exerceram seu direito — um universo pequeno frente à comunidade total de cerca de 15 mil brasileiros. Se trata de um percentual médio, no entanto.
A centralização do voto na embaixada, em Tel Aviv, somada ao fato de que as eleições ocorrerem sempre em um domingo, dia útil em Israel, impõem barreiras logísticas significativas, sempre dificultando o deslocamento de quem reside longe do centro do país.
Deste vez, há mais uma complicação: o segundo turno aconteceu apenas dois dias antes das eleições parlamentares em Israel, que serão nesta terça-feira, dia 27 de outubro. Muitos eleitores brasileiros que se sentem mais inseridos na política local podem ter decidido voltar suas energias para o pleito que irá decidir o futuro de Israel e que deverá ser tão tenso quanto a polarização Lula X Flávio.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
*Daniela Kresch é jornalista e correspondente do IBI em Israel.
Foto: Embaixada do Brasil em Tel Aviv, Israel (Google Maps/Reprodução)
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